As diversas classes burguesas, em cada proposta calculada, revelam os seus interesses e vão à luta em sua defesa trucidando quem se revele um obstáculo à manutenção do seu modo de vida e da sua sociedade individualista, baseada no lucro e na exploração.
A dimensão da crise do sistema, aliada à debilidade estrutural do capitalismo em Portugal, empurra a direita, com a cumplicidade do PS, para posições cada dia mais arrogantes que configuram um plano de salvação burguês reaccionário e extremamente perigoso para o movimento operário e popular, que passa por minimizar o papel do Estado, no que concerne ao seu papel social e de controlo de sectores estratégicos da economia, destruir um a um os direitos das classes trabalhadoras, nomeadamente direitos laborais e sociais, e descarregar todo o peso da crise para cima dos trabalhadores por conta de outrém.
Perante a ofensiva da política de direita, a esquerda, enredada em alternativas que não firam o capitalismo, vai protestando simbólicamente, recusando-se a fazer frente à situação com a mobilização dos trabalhadores através de uma greve geral que dê ânimo ao movimento. O argumento é o mesmo de sempre: não estão criadas condições.
Quando estarão criadas condições? Não chega que o governo tivesse decretado o corte no valor do subsídio de desemprego, e criado maiores dificuldades ao seu acesso, o congelamento salarial, o roubo através do aumento dos valores do IRS, atirasse para cima do povo com aumentos do IVA igual para o pão ou para um carro de luxo, é preciso continuarmos a assistir à afronta dos fabulosos e principescos ordenados e mordomias de gestores e banqueiros, ao aumento insustentável do desemprego que vai já nos 730.000 e vai continuar. Não basta que os trabalhadores portugueses tenham os mais baixos salários, mínimo e médio, de toda a Europa, que os pensionistas tenham as pensões mais miseráveis, não chegam os dois milhões de pobres!
Nem o exemplo da combatividade do movimento sindical dos trabalhadores gregos, serve para inspirar a luta do nosso muito pouco combativo sindicalismo caseiro. Vamos vêr se a manifestação nacional marcada para o próximo dia 29 (sábado, dia de descanso semanal) servirá ou não para impulsionar a luta para outros níveis, e começar a ultrapassar o estado de anestesia reformista em que o movimento operário mergulhou há anos. Quanto a nós, esta manifestação serve para mobilizar aqueles que já estão mobilizados a nível nacional. Enfim, é o que temos. Lá estaremos porque estamos com os trabalhadores, mas não temos dúvidas de que, se a luta não endurecer, o capitalismo levará a água ao seu moinho, que é superar a crise à custa da miséria do povo.
À direita do PS, (e até de dentro dele,) já se ouvem exigências ainda mais reaccionárias. Deputados do PS avançam com a eliminação de alguns feriados fazendo-se eco de uma velha reivindicação do patronato. O PSD, um dos principais culpados dos desiquilíbrios estruturais da economia através da política do betão de Cavaco Silva, e da proliferação em larga escala da corrupção, empurra o PS para acordos que abram caminho para a sua ascenção ao poder, e já avisou que não alinha em obras públicas: o apoio deve ser dado às empresas em nome do crescimento económico. Também em nome do crescimento económico, o CDS atira-se contra o rendimento social de inserção que beneficia as maiores franjas da pobreza, e quer que os apoios se dirijam para as empresas, de acordo com as medidas do PEC que atingem os trabalhadores. Os grandes tubarões da indústria pela voz da CIP, exigem: redução do número de deputados, ministérios e estruturas estatais, privatização de várias empresas públicas, flexibilização laboral, pagamento dos subsídios de férias e de natal em certificados de aforro, e ponderam a redução de salários; tudo em nome do crescimento económico e do combate ao défice. Pelo mesmo diapasão afinam os "grandes" economistas da nossa praça; Medina Carreira, Miguel Beleza, Silva Lopes e quejandos.
A esquerda depara-se com um enorme embaraço na crise, porque ela, abominando as medidas do PEC e do governo, todas as suas alternativas, vão todas beber à fonte do crescimento económico. Há aqui um denominador comum que só se pode explicar de uma forma: são diferentes os interesses de esquerda e da direita, mas, ambas defendem que a superação da crise não passa por pôr em causa o capitalismo mas sim em reformá-lo. Do lado da direita as reformas são à bruta e em nome do capital, da defesa do euro e da coesão europeia. Do lado da esquerda exigem-se medidas a favor dos trabalhadores, a favor das pequenas e médias empresas, e muito investimento público e privado para promover o emprego e o crescimento económico. E é daqui que vem a mansidão da esquerda, porque ela sabe que, a defesa do crescimento económico, é indissociável do desenvolvimento de um sistema capitalista. Tenha ele o rosto que tiver.
Uma perspectiva de esquerda comunista não pode alinhar nesta ilusão pequeno-burguesa, devemos caminhar para pôr fim a esta desumana e desfigurada sociedade, não já hoje, mas, em cada proposta deve estar a marca anticapitalista.
Porque é que temos de pagar a crise metade-metade com os capitalistas se nós empobrecemos e eles enriqueceram? Não foram os operários e os outros trabalhadores que provocaram a crise.
Impostos sobre os capitalistas, as suas empresas e fortunas, controlo sobre os capitais em fuga para offshores e a sua taxação, assim como a taxação sobre todas as mais -valias bolsistas. A crise deve ser paga do lado da receita, dos impostos sobre o capital e não sobre o trabalho.
Queremos o pleno emprego e a redução da idade da reforma para que os mais jovens tenham trabalho.
Trabalhador despedido subsídio garantido enquanto não tiver novo posto de trabalho.
Queremos cultivar a terra e aproveitar a riqueza do Alqueva. Terra para trabalhar e não para o luxo dos campos de golfe e dos hoteis de cinco estrelas e para a venda ao desbarato aos espanhóis.
Queremos que seja dado todo o apoio a cooperativas de pescadores.
Queremos que os emigrantes tenham os mesmos direitos dos trabalhadores portugueses.
Queremos que os beneficiados do sistema banqueiros, gestores e administradores públicos e privados contribuam fortemente para ultrapassar a crise do sistema que os faz viver no paraíso.
Se, aos trabalhadores for dada esta perspectiva de luta, poderemos saír da crise pela porta grande, que é a porta por onde não passam os ricos e "poderosos".