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Manoel Santos

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Às vezes ouço passar o vento

É a economia, paspalho!

Manoel Santos - Publicado: Terça, 18 Mai 2010 00:07

Manoel Santos

Que as relações económicas entre os seres humanos são o eixo central do decorrer social é uma obviedade. Contudo, o simbólico daquela célebre frase, "é a economia, estúpido", que parida pelo estratego eleitoral James Carville ajudou Bill Clinton a mandar embora da Casa Branca Bush pai em 1992.


Este último tivera, aos olhos dos eleitores, grandes sucessos em política exterior, de modo que Carville fez questão de centrar a campanha nas questões mais relacionadas com a vida quotidiana da cidadania. Isto é, a economia.

Essa centralidade da economia -capitalista- na vida social e política foi o maior sucesso ideológico do neoliberalismo. Esta doutrina do poder conseguiu imprimir o cliché económico em todas as mentes de todas as pessoas, de modo que hoje qualquer cidadão justifica muitas acções governativas -e empresariais- pelo simples facto de que "são boas para a economia" e mesmo reage contra investimentos sociais por "não serem rendíveis".

No âmbito da língua, do galego, a economia também é um factor central, apesar de que nas brigas em torno da sobrevivência deste velho idioma se acrescenta uma outra componente, a ideológica, identitária, sentimental, ou como quisermos chamá-la. É a esgrimida sobretudo pela esquerda social -e algumas vezes política- para defender a sua conservação, que por lógica deve ir paralela à sua potencialização. No entanto, a componente económica, sustentada sobretudo pela direita, é a fundamental e a mais limitante. Esta última também tem, decerto, alguma dose ideológica, o nacionalismo espanhol. Mas este nacionalismo excluente e os poderes económicos hegemônicos vão quase que sempre da mão, daí que, por exemplo, para justificar a sua negativa a instaurar no Senado as outras três línguas que malvivem no Estado, a direita apelasse ao "esbanjamento" económico que iria supor. E daí a tão frequente como arrepiante frase de "o galego não é rendível".

Seríamos uns ingénuos se pensássemos que a inexistente presença do galego como língua veicular nas relações económicas capitalistas -cada dia mais urbanas, menos galegas- deste país nosso, não tem nada que ver com a sua agonizante situação, bem próxima, por muito optimismo que abrigarmos, da extinção. A dominação da economia na sociedade marcou o passado, marca o presente e marcará o futuro da língua dos galegos e das galegas.

Em minha opinião não temos reflectido bastante sobre este papel central da economia no galego. Falo, claro, do modelo capitalista, e especialmente o neoliberal, porquanto a exterminada economia tradicional familiar e autónoma -a atribuída aos aldeãos- sim tinha o galego como idioma veicular.

E muito menos temos desenvolvido uma estratégia séria e apropriada para inserir, ou forçar a inserção, da língua na economia do país, nas suas empresas, nos seus comércios, nos seus números.

E lastimosamente somos uma sociedade mais de números que de pessoas que falam línguas. Ou mudamos a economia, o modelo, ou mudamos, como tristemente já estamos a fazer, de língua. Mas as duas coisas não parecem compatíveis.


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