Fosse a vida assim tão simples, e não seria necessário pensar duas vezes para responder à magna questão, colocada por tanta gente de esquerda, de saber o que faria no domingo com o seu voto, se fosse grego.
Tsipras acaba de publicar no Financial Times um artigo em que procura sossegar os mercados, garantindo que o seu " movimento - Syriza - está empenhado em manter a Grécia na zona euro", comprometendo-se também com o seu crescimento, não se esquecendo aqui de citar e manifestar concordância com Barack Obama. A Syriza tem hoje um programa de governo indubitavelmente social-democrata, mas seria da mais profunda injustiça confundir esse programa com qualquer coisa que se tenha passado nessa área política nos últimos 50 anos.
Perante o estado de emergência social em que se encontra a Grécia, muitos se questionam sobre a firme recusa do KKE em participar num governo com a Syriza, movimento que apoda de oportunista, considerando que dali só virá a desilusão para o povo grego. Mas seria outra tremenda injustiça pretender que o KKE critica a Syriza com base no preconceito, e não na prática política concreta da esquerda radical. Como exemplo, ainda a semana passada o Rizozpastis, órgão central do KKE, publicou um artigo sobre o encontro de Tsipras com os embaixadores dos países do G-20, acusando o líder da Syriza de ter ido apresentar as suas credenciais, lembrando assim os slogans do ex-primeiro-ministro Giorgos Papandreou, de "uma nova multi-facetada e pacífica política externa" e a necessidade de "aumentar o papel das Nações Unidas", não mencionando a NATO. Sendo isto verdade, não deixa de ser perturbador ler no mesmo artigo que o "Presidente do SYRIZA fez questão de, mais uma vez declarar a sua lealdade para com a União Europeia imperialista, e a necessidade de esta assimilar a Turquia, algo que os comunistas turcos e o movimento sindical se opõem!".
Muitos outros exemplos poderiam ser dados sobre questões fundamentais que separam Syriza e KKE mas, no actual contexto, o europeísmo de esquerda face ao revolucionarismo nacionalista são uma linha de fractura com peso suficiente para justificar que os comunistas recusem comprometer-se com um eventual governo da Syriza. Como poderiam coabitar dois partidos com visões antagónicas sobre o Euro e, mais longe ainda, sobre a manutenção do país na União Europeia? Que programa poderia ter este governo que resolvesse tal quadratura do círculo?
Quero com isto dizer que, quando eu for grego, terei grande dificuldade em decidir se votarei pragmaticamente num governo social-democrata de esquerda, ou numa esquerda anticapitalista que denuncia a União Europeia como instrumento de dominação. Mas, como não sou grego, fico, sinceramente, a aguardar o melhor dos resultados para Syriza e KKE, esperando que a partir daí a força popular obrigue toda a esquerda grega a encontrar um caminho de luta contra a troika e de mudança de rumo. Sabendo que esse rumo não será longinquamente comum, pelo contrário, estará pleno de bifurcações.
Fonte: Vermelhos.net