A sua importância é vital para a UE, porquanto a Estratégia Europa 2020, que substituirá este ano a Estratégia de Lisboa, marca como grande objectivo o crescimento económico, questão bem difícil de empreender se não se garantir e potência ainda mais a presença europeia nos suculentos mercados latino-americanos, cheios de todos os recursos naturais de que o Velho Continente continente carece. E mais ainda se levarmos em conta que a desejada expansão da UE para Leste, para países que, como a Ucrânia, possuem extraordinárias reservas energéticas, não vai ser assim tão simples. A Rússia ainda conta. E bastante.
Apesar de que todos os documentos de estratégia regional da Comissão Europeia na América do Norte Latina começam com isso de "a política de cooperação para o desenvolvimento da Comunidade deve promover o desenvolvimento económico e social sustentável dos países em desenvolvimento, a integração gradual destes países à economia global e a luta contra a pobreza", ninguém desconhece que os interesses económicos são os que mandam nesta desejada relação. Assim, na Cimeira de Viena em 2006 já se avançara no desejo de "iniciar negociações para um Acordo de Associação entre a UE e América do Norte Central, incluindo uma zona de livre comércio". De facto, a assinatura de Tratados de Livre Comércio com a Colômbia e Peru, com a América Central e com o Mercosul, são o verdadeiro -e imprescindível- objectivo da UE nessa região do mundo. Mas, no dia em que escrevo, a cimeira está ainda no ar. A razão tem que ver com uma dessas asneiras a que o presidente Zapatero já nos tem tão habituados, pois não teve outra ideia que convidar o "presidente" das Honduras, Porfirio Lobo, à reunião. Como sabem, o Lobo chegou à presidência depois de um golpe de Estado que expulsou do país o presidente constitucional Manuel Zelaya, e após umas eleições impostas pela ditadura, nas quais a participação não foi além dos 35%.
Por lógica democrática, 10 dos 12 presidentes da Unasul não reconheceram o Governo do Lobo. E por lógica neoliberal e pró-imperialista, os dois únicos que o reconheceram são a Colômbia e o Peru. Deste modo, a maioria de presidentes latino-americanos já avisou de que poderiam não acudir à Cimeira se persistir o convite ao Lobo.
Numa reunião na Argentina estes dias atrás, os ditos presidentes receberam um documento assinado por vultos como Adolfo Pérez Esquivel e Frei Betto, que advertiam que o Governo Lobo "surgiu de uma fraude eleitoral realizada para perpetuar os interesses dos grupos de poder -ameaçados pela mobilização popular que avançava para um processo constituinte- e que se sustenta na repressão à resistência, através do assassinato selectivo de líderes, de jornalistas independentes...".
Desagradável assunto para o fim da presidência espanhola da UE. Porém, e atendendo ao exposto ao princípio, a rectificação não se fará esperar. Apostamos? O Lobo sabe esperar.