Tal asseveração pode ter mais que ver com o tradicional instinto de autoflagelação da esquerda mundial -neste caso da "esquerda social"-, que nunca consegue consolidar na forma e no tempo -e dez anos é muito pouco tempo- os seus processos e pratica em excesso a autocrítica destrutiva, que com a realidade de um caminho que tem muitas mais virtudes que defeitos.
O argumento principal -que não único- para esgrimir tal afirmação, estabelece-se em torno da incapacidade das muitas redes, organizações e movimentos sociais que orbitam na bacia do FSM para articular respostas efectivas, e portanto mudanças sociopolíticas reais, face à selvagem mercantilização da humanidade e o planeta. Ao cabo, já não só frente ao neoliberalismo, contra o qual brotou o forum, mas frente ao capitalismo em si. Será pois, problema destas organizações e colectivos, que multiplicam por obrigação as suas frentes de luta e objectivos mas que não são capazes de multiplicar do mesmo modo as imprescindíveis massas críticas, mas não de um espaço partilhado que ninguém questiona que tem que existir. E o FSM é isso. Como diz a sua Carta de Princípios (1) um espaço aberto de encontro para intensificar a reflexão, realizar um debate democrático de ideias, elaborar propostas, estabelecer um livre intercâmbio de experiências e articular acções eficazes por parte das entidades e os movimentos da sociedade civil que se opuserem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital ou por qualquer forma de imperialismo... Não estaremos a tentar ver no FSM o que nunca foi? Não será que são os movimentos sociais que estão em crise, em lugar do FSM?
Ao mesmo tempo, a antedita asseveração no referente à incapacidade dos movimentos para darem resposta ao império da economia é certa só em parte, porquanto não devemos desprezar a decisiva influência dos pensamentos e articulações surgidas em paralelo ao FSM, e também do seu mesmo coração, sobre, por exemplo, as notáveis mudanças políticas que brotaram na América do Norte Latina -berço do FSM- nos últimos dez ou quinze anos. Bem afirma Boaventura de Sousa Santos que "o Fórum, fracassou na Europa, Ásia e África ao não conseguir conquistar o imaginário dos movimentos sociais e os líderes políticos como sucedeu na América do Norte Latina" Curioso é, portanto, que onde o FSM está mais vivo é onde os movimentos sociais mais avanços conseguem, enquanto por exemplo na Europa estes não são capazes de se mobilizar contra a crise (2).
Além disto, também não devemos desconsiderar a capacidade dos movimentos que participam do processo do Fórum para lhe tirar partido. Basta rever os textos surgidos da assembleia de assembleias do derradeiro dia do FSM de Belém do Pará para comprovar que a agenda de mobilizações e campanhas ali proposta foi quase escrupulosamente -que não em massa- seguida durante 2009: contra o G-20 o 28 de Março, contra a NATO no seu 60 aniversário, Dia Internacional da Mulher, Dia Internacional da Luta Camponesa e a Soberania Alimentar de 17 de Abril, Minga pela Mãe Terra de 12 de Outubro, Cimeira de Povos Indígenas do Abya Yala em Puno, Copenhaga, etc. E também basta rever a repleta agenda de Foruns e Cimeiras da sociedade civil deste ano, décimo aniversário do FSM, para comprovar que o Fórum como processo, ou antes como cultura organizativa e contestatária continua mais vivo do que nunca. Porque o FSM há que percebê-lo mais que nada como isso, embora seja inegável que criou uma cultura organizativa "glocal" que tem no tecido de redes -muitas vezes interrexionais-, nas actividades autogeridas, na elaboração de discursos ou na articulação de mobilizações, umas virtudes inquestionáveis.
Mas não é menos certo que, a nível global, a crise sistémica que do FSM sim se conseguiu prever, em lugar de pôr em questão a ditadura do economicismo, de a fazer abanar, está a ser eficazmente empregue pelos habitantes da cimeira da pirâmide para se reforçar ainda mais, em detrimento dos direitos e das liberdades, estendendo a desigualdade social e a pobreza, reforçando a criminalização dos movimentos sociais e, sobretudo, despedaçando o pouco planeta que nos resta. Como também é certo que o FSM precisa de verdadeiras mudanças para aumentar o protagonismo dos movimentos de base e ser menos dependente de um Conselho Internacional que, não por estritamente necessário -crer na organização de um foro por geração espontânea é um tanto ingénuo- deixa de ter a eiva da sua opacidade e excessiva presença do que Carlos Taibo chama -santões intelectuais- (3).
Face ao selvagem avanço do ideário capitalista é lógico que surjam as urgências. Por isso são justificáveis e mesmo admiráveis propostas como a de um Fórum Político Mundial de Gilberto Maringoni (4) ou a da Quinta Internacional -que não é diferente do postaltermundialismo defendido por Bernard Cassen- proposta por Hugo Chávez e apoiada em Znet (5) por Susan George -que à vez também propõe medidas de keynesianismo verde (6)-, Vandana Shiva ou Eric Toussaint (7). Assim como é também lógico e necessário que se fale em geral de articulamentos entre a esquerda social e a esquerda política transformadora, entre partidos e movimentos, como fazem desde Boaventura de Sousa Santos (8) a Raúl Zibechi (9), Emir Sader (10) e tantos outros.
Outra coisa é querer destruir um dos poucos espaços úteis com que contamos todos e todas, com uma capacidade aglutinadora nada desprezível, mas na verdade com evidentes mudanças a empreender, para construir, sempre sobre as suas supostas ruínas, algo já experimentado -mas com um sujeito histórico totalmente diferente- que decerto não será capaz de juntar nem uma mínima parte da diversidade com que conta o FSM, que ao cabo foi e é o seu grande sucesso, o que não é pouco.
Se bem essa afirmação de Eric Toussaint de que o capitalismo pode vir a devorar o FSM (11) pode ser bem crível, mas crível é que seja a própria esquerda, nós próprios, que o devoremos antes.
Notas:
(1) http://www.forumsocialmundial.org.br/main.php?id_menu=4&cd_language=1
(2) http://www.altermundo.org/content/view/3059/71/
(3) http://www.altermundo.org/content/view/3020/396/
(4) http://www.altermundo.org/content/view/2976/396/
(5) http://www.zcommunications.org/newinternational.htm
(6) http://www.altermundo.org/content/view/2973/1/
(7) http://www.altermundo.org/content/view/3023/396/
(8) http://www.rebelion.org/noticia.php?id=100042
(9) http://www.rebelion.org/noticia.php?id=99997&titular=d%E9cimo-foro-social-mundial:-s%EDntomas-de-decadencia-
(10) http://www.rebelion.org/noticia.php?id=99844
(11) http://www.altermundo.org/content/view/3168/396/