E também de admiração. No miúdo Estado plurinacional desenvolve-se um processo múltiplo de dignidade humana que, além de como for concluir -sempre há que suspeitar da letargia das oligarquias- deveria servir como exemplo para a emancipação de todos os povos do mundo. Mas sobretudo para o necessário (re)irmanamento entre a espécie humana e a mãe natura.
A cidade boliviana de Cochabamba adquiriu fama mundial pela chamada Guerra da Água do ano 2000. A privatização dos serviços de água potável na Bolívia, que foi uma das condições impostas pelo Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Fundo Monetário Internacional para renegociar a dívida externa do país, foi o detonante de uma extraordinária revolta popular que teve a dita cidade como centro. Os protestos pela subida das tarifas em seguida mudaram num laído bem mais fundo, o das comunidades rurais e povos indígenas, que viam na privatização uma violação do direito de acesso a um bem comum em benefício das transnacionais.
Hoje ninguém duvida de que a vitória daqueles movimentos serviu como estímulo às lutas populares de anos posteriores, que mudaram o panorama político e social do continente. Dizque Cochabamba foi a semente para o agromar do indigenismo de Evo Morales em 2005 e mesmo para a vitória dos movimentos contra o ALCA, tratado de livre comércio desenhado pelos Estados Unidos que foi soterrado esse mesmo ano. "Nunca, desde a guerra de Vietname, o imperialismo norte-americano teve uma derrota político social como a do ALCA", escreveu daquela o jornalista Modesto Guerrero.
O símbolo que é Cochabamba acolhe o mês próximo a "Primeira Conferência Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra". Depois do estrepitoso insucesso dos governos do mundo neoliberal em Copenhaga, e por iniciativa de Evo Morales, surge um novo foro mundial para analisar as causas estruturais e sistémicas que provocam a mudança climática e propor medidas de fundo para garantir o bem-estar da humanidade e da natureza.
As principais diferenças com Copenhaga são duas. Por uma parte, em Cochabamba a natureza toma corpo próprio. A sua defesa prevalece sobre os discursos e interesses da economia. Pela outra, apesar de que governos e instituições nacionais e internacionais estão convidados, não serão os protagonistas. Ao invés, o peso da declaração final e das acções que se empreenderem em diante, entre as que se prevê uma Declaração Universal dos Direitos da Mãe Terra e um referendo mundial dos povos sobre a mudança climática, assim como a criação de um Tribunal Mundial de Justiça Climática, recairá sobre organizações sociais, povos indígenas e originários, redes, entidades académicas e científicas... e mesmo pessoas a título individual. É só um primeiro mas imprescindível passo, sem dúvida a humanidade e a natureza não podem aguardar a que uns poucos governos irresponsáveis decidam actuar.