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Fundamentos do nojo

Sobre o aborto

ngelo Meraio - Publicado: Quarta, 30 Março 2011 02:00

Ângelo Pineda

27 de março seica é o dia internacional da vida. Ignoro quem instituiu esta efeméride, ainda que o imagino, tendo em conta as convocatórias que realizaram as associações contrárias ao direito do aborto.


Não sei se o sabiam, mas o 27 de março é o dia internacional do teatro. Suponho que sim, porque isso mesmo é o que fizeram as associações católicas em Maria Pita: um teatrinho do gênero da farsa. Uma farsa na que participara também a mídia, criminalizando o feminismo (as abortistas) e vitimando o fanatismo religioso (as organizações pró-vida). Nesse "dia internacional da vida" não houve uma só referência à guerra imperialista que se desenvolve na Líbia, suponho que se deve a que a ocupação militar é extraordinariamente "respeitosa" com os direitos humanos. Nada disso. Trata-se aqui de oporem-se ao aborto e à investigação com as células-tronco.

Não tenho muito a dizer dos nossos pró-vida que os leitores e leitoras deste site não saibam já: são o lixo fascista de sempre, cada vez mais hegemônicos e com melhor imprensa. A minha preocupação neste escrito é a nossa argumentação face eles. Sob o meu ponto de vista, o feminismo e, em geral, as pessoas favoráveis ao direito à interrupção da gravidez, levaram o debate a um terreno no que a igreja se sente relativamente cômoda: o plano ético. A invocação do direito abstrato à "decisão sobre o próprio corpo" bate num plano de igualdade com o direito abstrato à vida. Afinal, o debate reduz-se a uma colisão entre diversas posturas morais na que o direito à vida, reconheçamo-lo, tem muito mais charme.

Não quero que se me interprete mal: como pessoa progressista sou a favor do direito das mulheres a decidir sobre o próprio corpo e o assunto parece-me uma mostra mais do caminho que ainda resta para a igualdade. O que defendo é que devemos destruir o debate levando-o ao nosso terreno. Explico-me: há um ano, na Escócia, coincidi com uma polêmica sobre este tema. O governo britânico decidira alargar o período da interrupção voluntária da gravidez provocando a ira da população religiosa. A resposta que obtiveram estes sectores foi singelamente genial: o governo não discutiria a reforma com ninguém, já que esta se derivara do estado atual da neurociência. E ponto. Com efeito, até as 26 semanas, não começa a desenvolver-se o cérebro do feto e, com ele, a possibilidade de dor psicológica.

Outras curiosidades que se inferem da investigação científica põem em evidência as contradições discursivas da religião. A igreja católica é contrária à investigação com células-tronco ou ao subministro da pílula exclusivamente de progestágeno (PEP); porém, é a favor da doação de órgãos. Pois isso não tem qualquer sentido. Quando se declara a "morte cerebral" numa pessoa adulta procede-se à extração de órgãos; que é basicamente o mesmo estado no que se acha um feto antes dos 14 dias de gestação, quando nem tem cérebro nem nada remotamente semelhante a um sistema nervoso.

Assim que, sobre esta questão, não há debate possível. Ou, se for possível, será dentro do quadro da ciência. Nesse terreno, as superstições católicas não pintam absolutamente nada. Por desgraça, parecem pintar bastante – ai!- na política. Eis o problema e o repto.


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