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Daniel Cardoso por Inês RôloA Comuna - [Daniel Cardoso] Costumo dizer que a masculinidade – ou, vá lá, a minha masculinidade – é como um chouriço. Os chouriços são invólucros vazios, mais ou menos disformes, onde se vão enfiando coisas. Quanto mais recheio se coloca lá dentro, mais definida fica a forma – mas há um limite, e ultrapassado esse limite, aquilo que era uma forma extremamente rígida e definida acaba a transformar-se numa coisa rebentada, que explode, que se torna praticamente inútil.


A minha masculinidade foi, desde cedo, recheada de coisas relativamente pouco típicas: desde uma certa distância entre mim e o desporto, ou os amigos rapazes, a uma grande proximidade com livros, professorxs e amigas raparigas.

Porém, só comecei a reflectir com alguma consciência sobre a minha masculinidade quando comecei a aprender sobre feminismos – quando comecei a aprender a articular discurso sobre como a forma e o conteúdo com que eu tinha sido preenchido ao longo da vida (ainda que de modos irregulares, disformes) implica, ao mesmo tempo, que cerca de metade da humanidade seja tornada secundária, inferior, desprovida de poder e consideração.

O meu corpo, o facto de o meu corpo cisgénero ser considerado masculino – com uns ou outros solavancos que pouco fazem, e que só funcionam quando estou de costas ou ando de saia na rua – serve, indepedentemente da minha vontade ou intenções, para validar a ideia de que o mundo se divide entre homens e mulheres, e que os homens são sérios, fortes, de respeito (os que não o são, acabam a sofrer mais).

O pouco que escolhi e consigo fazer – que me sinto na responsabilidade política, intelectual e social de fazer – é apresentar-me não apenas como homem, mas como homem feminista. (Sei que não é pacífico, em vários círculos feministas, a ideia que um homem possa ser feminista; sei que várias pessoas preferem o termo "aliado" - ao mesmo tempo, outros consideram que "aliado" é um termo que permite aos homens envolverem-se com o feminismo mas sem se 'sujarem' com o termo "feminismo". Porém, e apesar de não fazer finca-pé disso nesses contextos específicos, continuo a auto-identificar-me enquanto feminista, enquanto homem feminista; não para cooptação, mas para apoio.)

Ser um homem feminista implica várias coisas para a minha vida: implica saber reconhecer as coisas sobre as quais não consigo falar com propriedade (o assédio de rua é uma delas) e saber reconhecer que não vou ser capaz de reconhecer todas essas coisas; implica responsabilizar-me pelo privilégio que me é concedido e que afecta a minha vida e a das pessoas à minha volta, ao mesmo tempo que tento combatê-lo ou aproveitar-me dele em prol do activismo feminista e dos demais direitos humanos.

Uma das ideias que, para mim, está subjacente a tudo isto é a de que "o pessoal é político" - que a minha vida e as minhas escolhas, por muito privadas que possam parecer, em particular no campo dos relacionamentos pessoais, só existem num jogo de relações de poder com o que é considerado normal, natural, aceitável ou saudável no meio onde eu vivo (a Gayle Rubin chamou a esse conjunto de coisas o "círculo encantado").

Parte importante da minha motivação para olhar para os feminismos prende-se justamente com essas minhas escolhas - porque sou não apenas um homem cisgénero branco de classe média (feminista), mas também poliamoroso. Que é como quem diz: considero possível que uma pessoa (independentemente do seu sexo ou género) possa querer ter (e ter de facto!) relacionamentos (múltiplos e simultâneos) de tipo íntimo/romântico/sexual (ou de outros tipos, também, porque me recuso a apagar deste conjunto pessoas assexuais e/ou arromânticas), mas apenas na condição em que estes relacionamentos tenham uma componente de consentimento informado entre todas as partes, e de respeito mútuo, preferencialmente numa perspectiva não-hierárquica entre relações diferentes.

Sei o que geralmente as pessoas pensam automaticamente: «Ah, sim; poligamia, mas isso não é nada de novo e até está ligado é a culturas extemamente patriarcais onde as mulheres são vistas como propriedade e onde não têm nem perto dos mesmos direitos que os homens têm». Sim, é verdade, estas coisas existem: mas não, elas não fazem parte do conceito de 'poliamor', pela falta de direitos iguais entre todas as partes e pela falta de consentimento informado crítico. O que, obviamente, só por si não quer dizer nada - há um potencial presente para o abuso de poder de género, a possibilidade de (falando num contexto de práticas heterossexuais) um homem se aproveitar do duplo padrão sexual que penaliza de forma muito maior uma mulher não-monogâmica do que um homem não-monogâmico. (Vamos deixar de parte a noção de que esse potencial está igualmente presente na monogamia em abstracto, e que esta é uma força de condicionamento social e sexual bem mais disseminada e institucionalizada, bem mais naturalizada.)

Porém, isto apaga (mesmo que não-intencionalmente) a origem feminista da crítica à monogamia heterossexista compulsória como elemento estruturante de boa parte das interacções íntimas por que passamos, apaga o trabalho feminista de subversão de papéis sexuais, apaga o trabalho de combate aos sistemas normativos realizado por pessoas não-heterossexuais, assexuais e de género não-binário. E apaga também, regressando à minha experiência pessoal, um outro potencial fundamental: o de retrabalhar, a partir de uma perspectiva feminista, o significado de consentimento, de negociação e comunicação em contexto relacional, e da maneira como, afinal de contas, o sentimento de posse (de objectificação, de pertença, de propriedade!) é tão estruturante da maneira como conduzimos as nossas relações interpessoais (o ciúme, por exemplo, não é nada que esteja confinado apenas ao campo das relações românticas), e tem nuances tão genderizadas.

Para mim, estar numa rede relacional poliamorosa implicou, implica e implicará questionar o meu próprio privilégio no que toca a poder ser abertamente e publicamente poliamoroso, implica colocar em xeque e desconstruir sentimentos de posse e de ciúme, implica cultivar uma cultura de comunicação franca, não-agressiva e colaborativa com as pessoas com quem me relaciono, implica ter que falar/pensar/reflectir sobre sentimentos (essa coisa supostamente tão "de mulher"!) e sobre o que implica sentir o que sinto ou como agir a partir daquilo que sinto. Porque ser-se poliamorosx é, mais do que "amar várias pessoas", lidar com a realidade quotidiana de ver quem amamos a também amar várias pessoas, a estar com essas várias pessoas e a aprender (por tentativa e erro, certamente) como lidar com as coisas que isso nos faz sentir - coisas boas como a compersão, e coisas más como a insegurança - e apoiar essas pessoas nos seus próprios processos de descoberta emocional.

Para mim, o poliamor e os feminismos partilham uma coisa central: a necessidade de empatia. Em virtude das suas dinâmicas específicas e dos seus desafios próprios, a minha experiência enquanto homem poliamoroso requer um substrato de feminismo; requer uma percepção crítica das microagressões de violência sexual e de género que matizam as experiências que temos do que é estar numa relação, do que é eu, enquanto homem cisgénero, estar numa relação com pessoas do género feminino, da bagagem cultural que isso implica - que me ultrapassa - mas perante a qual sou também responsável na maneira como a personifico e/ou recuso. Tenho construído estes elementos como partes centrais da minha vida, da minha carreira profissional, do meu activismo - tudo isto está intimamente ligado em mim; não sou capaz de dizer onde começa uma coisa e termina a outra; da mesma forma que o surgimento do modelo mononormativo está ligado ao funcionamento da propriedade privada e do Estado.

E é assim que chego aqui: a tentar constantemente encher o chouriço que é a minha masculinidade e ver por onde vai ele rebentando, através dos feminismos e nas mais variadas áreas da minha vida, fazendo a ponte entre a forma como eu vivo as minhas relações e a necessidade de fazer uma crítica ao sistema (hetero-)mononormativo do patriarcado ocidental contemporâneo; entre o que quer dizer para as outras pessoas eu ser um homem e o que eu consigo (re-)fazer da minha masculinidade para criar novas masculinidades.

Não existem, para mim, masculinidades não-feministas que valham a pena. Não existe, para mim, existência eticamente responsável sem feminismos.

Nota do Editor: Este artigo e o artigo do Bruno Góis "Masculinidades feministas: Um homem feminista não é um herói" são os primeiros frutos desse desafio para a escrita de artigos sobre masculinidades feministas para a revista A Comuna.  Mais informações sobre os trabalhos do Daniel Cardoso em www.danielscardoso.net.

Foto: Inês Rôlo.


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