Os resultados da eleição para o Parlamento da Geórgia [1] na 2ª-feira trouxeram a assombrosa novidade de que o presidente Mikhail Saakashvilli (MS) sofreu uma autêntica tareia. MS foi levado ao poder num golpe cuidadosamente arquitectado de “mudança de regime” em 2003 conhecido, no léxico ocidental, pelo nome de “Revolução Cor-de-rosa” [2].
Agora a maré está a virar. A coligação de oposição, “Sonhadores” [orig. Dreamers], conquistou 110 dos 150 lugares do Parlamento. O sistema georgiano foi desenhado para atribuir ao primeiro-ministro uma acrescida autoridade constitucional a partir de 2013, e agora esse primeiro-ministro vai ser oriundo da oposição política. MS converteu-se numa figura desprovida de poder que se arrastará até ao final do seu mandato em 2014.
Muito mais significativo, contudo, é que os “Sonhadores” são liderados pelo magnata multimilionário Bidzina Ivanishvilli. A questão que se coloca não é tanto a sua riqueza, mas o onde e o quando ela foi obtida. Colocando as coisas com simplicidade, toda aquela riqueza foi construída nos dias de glória do início dos anos 1990, quando Boris Yeltsin punha à venda as vastas riquezas russas e apresentava aos russos as infinitas possibilidades do capitalismo de pandilha.
Basta dizer que os oligarcas aproveitaram esse maná – e BI foi um deles. Consta que o presidente Putin se entende às mil maravilhas com Bidzina Ivanishvilli. Moscovo parece entusiasmado com as imagens que a televisão lhe faz chegar de Tbilisi [3].
Washington ficará incomodado com a perspectiva de que Moscovo volte novamente a mexer os cordelinhos em Tbilisi, como fazia antes. A Geórgia é peça vital nos mesquinhos jogos geopolíticos que vêm sendo disputados no espaço pós-soviético entre Washington e Moscovo. E existe uma acrescida pungência no facto de isto acontecer quando todos os dias arrefecem os laços EUA-Rússia [4] – como o testemunha a decisão de Moscovo de expulsar do país a USAID.
A rivalidade EUA-Rússia está em erupção por todo o coração da Eurásia e as suas periferias exteriores. Putin está a promover o seu projecto de uma União Eurasiana e, por seu lado, os EUA trabalham para dificultar o projecto do Kremlin.
Os EUA estão a empurrar a influência russa nas capitais da Ásia Central para o norte do Afeganistão; a Rússia está a inserir-se dentro do bastião da influência norte-americana ao sul do Afeganistão – no Paquistão. Não importa que Putin tenha adiado a visita ao Paquistão. O comandante do exército paquistanês, Asfaq Kayani vai deslocar-se a Moscovo, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov fez aos líderes civis do Paquistão [5] a agradável surpresa de desembarcar lá, sem cerimónias, para explicar cordialmente ao presidente Asif Zardari os motivos pelos quais Putin não pudera ir.
O espectáculo que se desenrola é de cortar a respiração. Mas será tão simples como aparenta a Rússia voltar a controlar a Geórgia? Os “Sonhadores” parecem interessados em fazer expandir os interesses georgianos [6] regateando com dureza tanto com o Ocidente como com a Rússia. (Por falar nisso: Bidzina Ivanishvilli tem também cidadania francesa.)
É isto exactamente o que outro presidente ‘pró-Rússia’, o ucraniano Mikhail Yanokovich, também está a fazer, depois de ter tomado o lugar dos revolucionários ‘coloridos’ em Kiev.
Mesmo os países de menor dimensão não voltam a ser os mesmos uma vez que tenham passado pela emoção e a determinação de serem estados independentes e soberanos. Ninguém poderia prever que país minúsculo como o Tadjiquistão, com população de cerca de 5 milhões, faria frente à poderosa Rússia na questão da instalação de uma base militar russa [7].
Para além disso, a localização estratégica da Geórgia será um factor crucial. Os oleodutos e a segurança energética; a expansão da OTAN; o sistema dos mísseis de defesa dos EUA; a projectada rota de passagem para o Afeganistão (contornando Rússia, Irão e Paquistão); a militância islâmica no norte do Cáucaso; a questão iraniana; as bases militares no Mar Negro – seja qual for temas que se levante, a Geórgia surge sempre, de uma forma ou outra, como “parceiro indispensável” dos EUA para o século 21.
Em resumo, Washington não facilitará e não deixará um indefeso Bidzina Ivanishvilli cair no abraço do urso. Nem o urso afrouxará o abraço que está a reatar, ou se deixará embalar a ponto de permitir que a águia capture a Geórgia por uma segunda vez. Possivelmente, Bidzina Ivanishvilli deveria estender a mão ao Movimento dos Não Alinhados, MNA.
[1] 2/10/2012, http://www.itar-tass.com/en/c154/534420.html
[2] A “Revolução das Rosas”, conhecida no ‘grupo’ das ‘revoluções coloridas’ como “Revolução Cor-de-rosa” foi a mudança de regime na Geórgia, em Novembro de 2003, que sobreveio na sequência da denúncia de fraudes em eleições parlamentares nacionais. Fonte significativa de fundos para a “Revolução Cor-de-rosa” foram as várias ONG’s e fundações do grupo do multimilionário húngaro/norte-americano George Soros. A “Fundação para a Defesa das Democracias” divulgou o depoimento de um parlamentar georgiano em que este informa que nos três meses que antecederam a “Revolução Cor-de-rosa”, Soros gastou directamente $42 milhões para derrubar Shevardnadze” (http://www.defenddemocracy.org/in_the_media/in_the_media_show.htm?doc_id=225687). Falando em T’blisi em Junho de 2005, Soros disse: “estou muito satisfeito e orgulhoso com o trabalho da Fundação, que preparou a sociedade georgiana para o que em seguida se converteu em ‘Revolução Cor-de-rosa’, mas os media exageraram muito a participação do meu pessoal” (http://archive.newsmax.com/archives/articles/2005/5/31/164945.shtml). Em resultado dessa “mudança de regime”/golpe, o presidente Eduard Shevardnadze foi forçado a renunciar em 23/11/2003 (mais sobre isso em http://en.wikipedia.org/wiki/Rose_Revolution#Funding_from_Soros-related_organizations) [NTs]
[3] 2/10/2012, http://en.rian.ru/world/20121002/176345347.html
[4] 21/9/2012, em http://en.rian.ru/columnists/20120921/176143513.html
[5] 2/10/2012, http://dawn.com/2012/10/02/three-mous-signed-in-islamabad-russian-fm-due-tomorrow-on-2-day-visit/print/
[6] Em http://www.itar-tass.com/en/c154/534410.html
[7] Em http://www.novinite.com/view_news.php?id=143663
2/10/2012, Indian Punchline