No formoso ato teve lugar antes da representação teatral, seguida por pessoas de todas as idades num auditório completamente abarrotado, a abertura de uma exposição fotográfica sobre diferentes representações da obra que tiveram lugar na Índia e outros lugares do mundo. Levei uma grande surpresa ao ver que na mesma figuravam duas fotos minhas das representações que eu fiz com os meus estudantes das primeiras escolas que dirigi, a número 5 de Marinhamansa em julho de 1969, quando ainda tinha 21 anos, e a do Colégio Público «Virgem de Covadonga» em dezembro de 1971, pouco tempo depois de terminar os estudos superiores de Pedagogia na Complutense. As duas minhas escolas na cidade de Ourense, onde ensinei durante quarenta anos da minha vida (um na primária, outro na secundária e 38 na universidade, formando futuros mestres e mestras de infantil e primária e a educadores sociais). Ao olhar estas fotos lembrei-me, não sem nostalgia, daquelas datas em que representei esta obra dramática tagoreana, escrita e publicada em idioma bangla em 1912.
A tradução castelhana foi feita por Zenobia Camprubí do inglês, pelo que conserva os erros da edição da editora britânica MacMillan, embora seja uma tradução muito boa, por estar também retocada pelo esposo de Zenobia o grande poeta Juan Ramón Jiménez, que colocou um seu poema ao início do livro, editado pela primeira vez em 1917. Em 1976 as Edições do Castro-Sada de Isaac Diaz Pardo publicaram uma tradução muito requintada para o galego feita pelo escritor Júlio Cuns Lousa, também do inglês. No livro, ademais de O Carteiro do Rei, com ilustrações muito lindas de José Diaz, filho de Isaac Diaz, também se inclui outra obra teatral de Robindronath intitulada Malini.
No entanto, a melhor tradução que existe para o nosso internacional idioma foi a realizada pela grande poetisa brasileira Cecília Meireles no ano de 1949, da qual eu tenho a edição de 1961, publicada no Brasil para comemorar o centenário do nascimento de Tagore. A tradução citada serviu para representar esta obra, em que foi actriz a filha de Cecília Maria Fernanda, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro nos atos comemorativos do centenário. O grande educador judeu polaco Korczak representou com os seus estudantes da escola do gueto de Varsóvia esta obra, em 18 de julho de 1942, para que, poucos dias antes de serem conduzidos ao campo de extermínio nazi em Treblinka, esqueceram por um tempo a sua terrível situação e perseguição, que acabou com eles e com o seu professor numa câmara de gás do campo antes mencionado.
O Carteiro do Rei nas minhas primeiras escolas
Quando eu tinha 16 anos e estava estudando na Escola Normal de Ourense, li pela primeira vez três livros de Tagore: Gora, Memórias e O Naufrágio. Gostei tanto, que não deixei mais de lê-lo, e mais ainda quando posteriormente descobri que fora um educador extraordinário, criador da primeira Escola Nova do Oriente, a mais completa de todas as do mundo, juntamente com a ILE de Giner e Cossio e a Odenwald de Paul Geheeb. No ano de 1968 aprovei o concurso para mestre com o número três da província de Ourense, e a primeira escola para que fui nomeado foi a número 5 no bairro de Marinhamansa da cidade das Burgas, em março de 1969.
Seguindo Tagore e outros educadores como Manjón sempre acreditei na importância pedagógica do teatro escolar, que considero como uma das atividades mais educativas que existem. Por isto, logo de começar as minhas primeiras aulas, com 21 anos de idade, e sendo ainda um mestre novel, decidi, de comum acordo com os meus estudantes, que ficaram entusiasmados com a ideia, preparar a encenação de O Carteiro do Rei de Robindronath. Durante os três últimos meses do curso, ficávamos um mínimo de uma hora na escola para os ensaios da obra, e às vezes mais tempo, com verdadeiro entusiasmo nos meus alunos porque chegasse o dia da estreia. A qual teve lugar no antiga sala de atos do Colégio Salesiano ourensano, gentilmente cedida pela direção do mesmo naquela altura.
Com carinho lembro que a concepção dos trajos fora feita com grande primor, que ainda hoje espanta mesmo na Bengala indiana, pela sua autenticidade, por Ana, a minha esposa, que naquele momento ainda era a minha noiva. Rosa, a minha mãe, uma costureira excepcional já desde os sete anos de idade, foi a responsável de coser todos os trajos dos diferentes atores e atrizes feitos em papel rizado de cores. Rádio Popular de Ourense emprestara-me o disco em vinil de Nicolai Rimsky Korsakov, em que se incluía a formosa sua peça Canção Índia, para o fundo musical da encenação.
Tudo foi um grande sucesso, e a interpretação magnífica de todos os participantes, nos papéis de Omol (o rapaz protagonista), Madhov Dotto (o pai adoptivo), o fokir, o guarda ou «Prohori», o «Doioala» ou vendedor ambulante de requeijinhos artesanais, Sudha (a rapariga vendedora de flores), o carteiro, o «Kobiralh» ou médico aiurvédico e as crianças a brincarem com os seus lindos brinquedos. Ainda é hoje o dia que me encontro nas ruas de Ourense com os meus alunos atores e com alegria lembramos a encenação. Entre eles, Lalo Salcedo que fazia de Omol, trabalhando na farmácia que está no edifício do Liceu na rua de Lamas Carvajal, o contínuo principal do mesmo Liceu Jaime Salcedo, que fazia de velho e fokir, Rosário Rei «Charo», hoje mestra no Colégio Público de Mende, que interpretava a Sudha, a vendedora de flores, e Anselmo Prada, que fazia maravilhosamente o papel do «Doioala», vendedor ambulante de requeijinhos artesanais. Conservo, e eles também, como um tesouro, as fotos que nos fizera o excelente fotógrafo e meu grande amigo Henrique Reza, já desaparecido. Outro grande amigo meu, também desaparecido, que tanto fez pelo teatro em Ourense, dirigindo vários grupos, Segundo Alvarado, que era jornalista no diário da cidade, fez no mesmo, com uma foto, resenha do ato. Ofereci uma coleção das fotos ao Museu-Biblioteca e Arquivo Tagore de Santiniketon. Algumas das fotos, contando este facto, já ilustraram informações em jornais das duas Bengalas, a oriental do Bangladesh no jornal denominado «Proton Alo» (Primeira Luz) e a indiana ocidental em várias publicações periódicas.
Em setembro de 1971, recentemente licenciado, fui nomeado para levar o oitavo curso experimental de EGB no Colégio Público «Virgem de Covadonga» de Ourense. Os meus novos alunos gostaram também muito da ideia de organizarmos a montagem teatral da obra tagoreana. Voltei a pôr-me a dirigir, mas tive de deixar os ensaios nas mãos dos estudantes estagiários da Escola Normal ourensana, ao ser nomeado para lecionar em COU diurno e noturno do Instituto (liceu) do Pousio, hoje com o nome de Otero Pedraio, a nova matéria de Pedagogia do plano de estudos que se iniciava naquele momento. O diretor do meu departamento era o grande galeguista e diretor do Museu Arqueológico de Ourense Jesus Ferro Couselo. Prosseguindo em contato quase diário com os estudantes estagiários, supervisionei os ensaios e a concepção dos trajos e cenários e a obra foi apresentada, com grande sucesso também, na sala de atos do colégio do bairro de Covadonga, dentro do programa das festas do Natal, no festival prévio às férias. O jornal local, publicou também foto e comentário da encenação, feito outra vez por Segundo Alvarado, nas páginas centrais do jornal. A reportagem fotográfica fora realizada por Sanjurjo, da qual conservo também uma ampla coleção, e da mesma também doei uma cópia ao Museu Tagore de Santiniketon.
Quando a obra de Tagore, de título original em Bangla «Dakghor» (Correio), foi editada em castelhano pela primeira vez, foram publicados artigos sobre a mesma da autoria do filósofo Ortega y Gasset no jornal madrileno El Sol, e por Emília Pardo Bazán no ABC e em La Nación de Buenos Aires.
Escrita por Robindronath, especialmente para ser representada pelos estudantes da sua escola de Santiniketon, na obra, o rapaz protagonista Omol, por se encontrar doente, e por ordem do seu médico aiurvédico, não pode sair da sua casa e do seu quarto, podendo só olhar da sua janela de vez em quando as pessoas que passam por diante, com as quais estabelece lindos diálogos, entre os que destacam os que faz com o «Doioala», a rapariga Sudha que vende flores e os rapazes que jogam diante da sua janela com os seus brinquedos. Omol tem a ilusão de receber uma carta do rei, que espera lhe chegue, pois diante da sua janela tem bem assim o prédio dos correios. Ao final, de forma simbólica e metafórica, anuncia-se a chegada da carta do rei, antes de a vida de Omol expirar, e quando Sudha chega para dizer a Omol que não o esqueceu. Na versão inglesa o título da obra éThe Post Office. A francesa traduzida por André Gide titula-se Amal et la lettre du Roi. Zenobia e Juan Ramón, e também Cecília Meireles, decidiram titulá-la O Carteiro do Rei (El cartero del Rey).
Por considerá-la muito linda, em anexo a seguir, recolho traduzida por mim do original bangla a cena quarta, em que Omol dialoga com o «Doioala», vendedor ambulante de requeijinhos artesanais. Muitas vezes, nas minhas aulas de Didática da Normal e depois da Faculdade de Educação, interpretámos esta cena tão singular, que tem um sentido muito profundo e vital, que é difícil contar com palavras. Em 1986 a Escola de Formação Artística «Seiva Trupe» do Porto-Portugal, sob a direção de Fernando R. Umanha, realizou a encenação desta obra. Não perdi ainda a esperança de levar outra vez à cena este drama de O Carteiro do Rei, em qualquer localidade da Galiza ou de Portugal, num próximo futuro. Gostaria muito ademais de editar o livro de novo, respeitando escrupulosamente o original Bangla e os nomes e ofícios, que ainda hoje estão vivos em Bengala.
Anexo:
O Carteiro do Rei de Robindronath TAGORE
Cena Quarta
Omol e o Doioala
O Doioala (Na rua) : Bom, bom requeijinho, bom, bom requeijinho!
Omol : Oh, o dos requeijinhos, escuta, oh, o dos requeijinhos!
D.(Entrando) : Chamas-te por mim rapaz? Queres comprar requeijinhos?
O. : Como queres que os compre, se não tenho dinheiro?
D. : Então, para que me chamas? Que uma forma de perder o tempo, oh!
O. : Se eu pudesse iria contigo...
D. : Conmigo!? Que estás a dizer?
O. : Sim; entra-me uma grande nostalgia quando te escuto pregoar alá em baixo pelo caminho...!
D. (Deixando no chão o seu balancim) : E tu, que fazes aqui, diz?
O. : O Kobiralh não quer que saia e aqui onde tu me vês estou sentado todo o dia...
D. : Coitado! Que te passa?
O. : Não o sei; como eu não sou sábio, não sei o que tenho. Mas, diz-me tu Doioala, tu de onde és?
D. : Da minha aldeia.
O. : Da tua aldeia? E é muito longe a tua aldeia?
D. : É ao lado do rio Samli, ao pé dos montes de Pamchmura.
O. : Os montes de Pamchmura disseste? O rio Samli? Sim, sim; eu vi uma vez a tua aldeia; mas não sei quando foi...
D. : Que tu viste a minha aldeia? Tu estiveste nos montes de Pamchmura?
O. : Não, eu nunca estive; mas, acho que vi a tua aldeia... A tua aldeia está debaixo de umas árvores muito altas e muito velhas, não? ao lado dum caminho vermelho, não é certo?
D. : Sim, sim, é verdade...
O. : E no outeiro o gado está pascendo...
D. : E que não há gado na minha aldeia! Digo-te eu...
O. : E as mulheres com os seus saris vermelhos, enchem os seus baldes no rio e voltam com eles na cabeça...
D. : Assim mesmo é. Todas vão buscar água ao rio; mas, não penses que todas têm um sari vermelho que vestir... Pois sim, acredito, tu estiveste alguma vez na aldeia dos doioala, que vendem requeijinhos...
O. : Digo-te, Doioala, que nunca estive lá. Mas, no primeiro dia que o kobiralh me permitir sair, hás de querer levar-me tu?
D. : Sim, gostaria muito de que viesses comigo.
O. : E vais ensinar-me a cantar o teu pregão, a pôr o balancim ao lombo e a andar pelos caminhos, longe muito longe?
D. : Cala, cala... E para que ias tu vender requeijinhos? Não, homem, não. Tu hás de ler livros muito grandes e hás de ser sábio...
O. : Não, não; eu não quero ser sábio! Eu quero ser igual que tu... Hei de ter meus requeijinhos numa aldeia que está ao pé dum caminho vermelho, e irei vendê-los de corredoira em corredoira... Que bem pregoas tu: «Bom, bom requeijinho, bom, bom requeijinho!» Queres ensinar-me a cantar o teu lindo pregão, diz?
D. : Para que queres tu saber meu pregão? Que cousas tens!
O. : Sim, ensina-mo! Gosto tanto de ouvir-te... Eu não te posso explicar o que me passa quando te escuto na volta do caminho, no meio da ringleira de árvores... O mesmo que quando escuto os cantos dos melros, tão altos, alá no cimo do céu...
D. : Tens umas cousas...; anda toma uns requeijinhos; tem, pega neles...
O. : Mas eu não tenho dinheiro...
D. : Deixa o dinheiro! Ir-me-ia tão feliz se quisesses colher estes requeijinhos!...
O. : Diz-me, Doioala, entretive-te muito?
D. : Não, homem, nada. Não sabes tu o contente que me vou. Estás a ver: ensinaste-me a ser muito feliz vendendo requeijinhos... (sai da cena).
Cena Quinta
Omol só
Omol (Cantando): Bons, bons requeijinhos, aos bons requeijinhos da aldeia dos doioala, no lugar dos montes de Pamchmura, ao lado do rio Samli! Venha, aos bons requeijinhos! Ao amanhecer, as mulheres põem em ringleiras as suas vacas, debaixo das árvores, para mugi-las; pelo serão fazem requeijão com o leite! Bons, bons requeijinhos, aos bons requeijinhos!
Nota: Explicação sobre os protagonistas e lugares das cenas anteriores:
Omol : Rapaz protagonista da obra, que está doente e foi adoptado por Madhov Dotto.
Doioala : Vendedor ambulante de requeijinhos artesanais e populares. É um ofício ainda hoje muito habitual, embora já vão muitos de bicicleta, mas outros ainda caminham a pé por caminhos e estradas.
Kobiralh : Médico aiurvédico, da antiga medicina indiana dos Vedas.
Pamchmura : Linda aldeia do distrito de Bakura na Bengala, onde mais de cinquenta famílias são todos oleiros. Esta localidade é famosa em toda a Índia e é um prazer estar com os seus artistas e artesãos do barro. Em Bangla os oleiros chamam-se «kumorguli».
Rio Samli : Existe este rio no distrito de Bakura e está no caminho para ir a Pamchmura.
Sari : Linda saia de uns cinco metros de largo que a maioria das mulheres indianas usam e sabem como vesti-la arredor do corpo. Todos os saris são de lindas e variadas cores.
Santiniketon (Bengala-Índia), a 5 de Dezembro de 2012
(Ano do Centenário de O Carteiro do Rei, «Dakghor»)
