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100811_egito1PCO - O artigo aqui publicado foi escrito a partir da transcrição da palestra apresentada pelo companheiro Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO e editor do jornal Causa Operária, em fevereiro deste ano


Inicialmente será feita uma análise dos acontecimentos em conjunto da Revolução Árabe no desenvolvimento histórico da crise capitalista, pois se trata da discussão de um programa revolucionário, ou seja, sobre qual é a relação que existe entre a crise do Oriente Médio e no Norte da África e o programa da revolução proletária socialista de um modo geral. Na segunda parte deste texto será abordado o problema do desenvolvimento próprio das revoluções, como elas estão se desenvolvendo, quais são os problemas que estão colocados e que irão colocar-se no próximo período.

Primeiramente uma avaliação metodológica. Generalizou-se o hábito que intelectualmente, teoricamente, é muito negativo, de analisar os acontecimentos de uma maneira totalmente isolada do que aconteceu anteriormente e do conjunto de fatores que influenciam uma determinada situação. Por exemplo, tivemos a oportunidade de ver recentemente, no momento em que se abriu completamente a crise capitalista com a crise econômica mundial, que a imprensa capitalista e curiosamente a imprensa de toda a esquerda analisa o problema da crise mundial sem fazer conexão geral do desenvolvimento do capitalismo, é como se fosse um fato que estivesse se dado fora do tempo e do espaço, é como se analisar o desenvolvimento de um determinado organismo sem levar em consideração a evolução dele, ou seja, seria como tratar uma doença de uma pessoa de noventa anos de idade como se trata uma doença de uma pessoa de nove anos de idade, um método totalmente absurdo e abstrato. Porque logicamente as crises fazem parte de um encadeamento de outras crises, elas têm uma história e somente podem ser compreendidas no quadro geral desta história.

O desenvolvimento da crise capitalista

Para ter uma avaliação concreta da crise é necessário  ver em que momento exatamente a crise está, qual é o encadeamento, qual é a etapa, qual é a fase dessa crise, caso contrário será um debate que em grande medida não tem nenhum conteúdo real.

Há uma revolução no Oriente Médio, e daí? Poderia acontecer amanhã uma outra revolução em outro lugar e isso ai não teria importância nenhuma porque não está vinculado a nada, é como se fosse um tumulto, um acontecimento circunstancial e casual.

A primeira preocupação nesse sentido é procurar estabelecer a que etapa do desenvolvimento da crise histórica do capitalismo pertence esta crise, em primeiro lugar. A evolução do imperialismo mundial, em segundo lugar, e da luta dos países atrasados, em particular no Oriente Médio, se situam os acontecimentos que estão ocorrendo nesse momento nos países árabes.

O império árabe

Um breve retrospecto, os árabes constituíram a partir do século VI e VII, chegaram a constituir um poderoso império e uma cultura de importância mundial, com uma série de repercussões, sobretudo sobre a cultura europeia.

O império árabe se desmantelou totalmente, porque não tinha uma base econômica que desse sustentação a essa expansão árabe, e finalmente um pouco antes da idade moderna esse império caiu sob a dominação de um dos setores mais atrasados de uma das nacionalidades que o compunham que eram os turcos, os otomanos.

Criou-se o império Otomano que abrangia uma boa parte, quase a totalidade dos países árabes. Esse império foi extremamente fraco, apesar de ter sido grande, e a partir do século XVIII os países capitalistas europeus em pleno desenvolvimento, principalmente a França e a Inglaterra começaram a travar uma luta para conquistar influencia econômica sobre o império otomano, o que vai ocorrendo durante todo século XVIII e início do século XIX a tal ponto que no final do século XIX o império Otomano nada mais é que uma cobertura, uma fachada para a dominação do que se conhece hoje como imperialismo, principalmente o imperialismo anglo-francês.

Os ingleses de um modo geral e os franceses eles consideravam que a preservação do regime político otomano, que era um regime político intrincado, complexo, feito através de combinações de pessoas que governavam localmente com um governo imperial central.

Eles, os imperialistas,  consideravam essa estrutura política, que essa armação política que havia se criado durante um longo período era fundamental para manter a estabilidade na região por isso nunca a desafiaram e nunca procuraram derrubar o império, um império que em relação aos  países das potencias coloniais europeias ele era extremamente fraco.

Esse primeiro período em que os europeus estabelecem sua dominação sobre o mundo árabe sob a cobertura de um governo de um regime político muçulmano é o período de ascensão capitalista no mundo. Nesse período o capitalismo demonstra um vigor extraordinário, onde qualquer tentativa de resistência nacionalista desses países é facilmente liquidada.

Existiu um movimento nacionalista no Egito, um dos primeiros países a manifestar tendência à luta contra o colonialismo e o imperialismo ainda no século XIX e esse movimento é totalmente esmagado. O nacionalismo árabe começa no século XIX.

Crise da dominação imperialista

No início do século XX a dominação geral do imperialismo sob o Oriente Médio se encontra enfraquecida pelo surgimento em primeiro lugar de contradições agudas dentro do próprio bloco imperialista com o emergência da Alemanha como potência colonial agressiva a partir de 1870, quando se dá a unificação alemã. O crescimento econômico alemão  é superior do ponto de vista industrial ao francês e ao inglês.

A partir da guerra franco-prussiana os alemães derrotam a França e se transformam em potência principal dentro do território continental europeu e principal concorrente do imperialismo britânico.

Com o crescimento econômico no final do século XIX e início do século XX, os alemães já estão em condições de disputar os territórios coloniais com a França e a Inglaterra juntas, o que efetivamente acontece no Oriente Médio de uma maneira bastante acentuada.

No início do século também há uma crise dentro do Império Otomano, há uma revolta nacionalista regida por jovens oficiais militares turcos que se opõem à dominação do imperialismo anglo-francês e se aliam com os alemães.

Os alemães começam a tomar conta do Oriente Médio e esse juntamente com outros fatores, como a luta pelos territórios africanos e o comércio em geral com os países atrasados, vai ser a causa fundamental da primeira guerra mundial.

Esse conflito entre os imperialismos rivais é um fator de enfraquecimento da dominação imperialista no Oriente Médio em seu conjunto. Notem que esse fator se coloca como marco inicial da decadência da dominação imperialista naquela região de um ponto de vista histórico. A disputa entre os imperialismos rivais por um mercado que não comporta efetivamente todos esses imperialismos é o marco inicial da crise capitalista e o seu conteúdo.

A disputa imperialista também é um fator de crise por que os monopólios têm a necessidade ter uma dominação exclusiva. À medida que alemães, franceses e ingleses se digladiavam no Oriente Médio colocava-se o problema de que alguém tem que dominar aquela região e isso é um fator de crise extraordinária, porque na sua luta os imperialismos tendem a subverter toda a ordem social, econômica e política existente para poder impor a sua dominação. Isto é o que efetivamente vai acontecer, a luta interimperialista entre as potências imperialistas vai desestabilizar completamente a região e vai levar à falência de todos os regimes políticos que existiam no começo do século. Os regimes existentes eram parte do Império Otomano e cada lugar tinha sua própria estrutura política sob o guarda-chuva desse império, daí que esse império e esta estabilidade vão ser completamente abalados e derrubados após a primeira Guerra Mundial.

Esses acontecimentos, portanto podemos colocá-los como marco zero da crise capitalista no Oriente Médio. Temos que entender como ideia fundamental o seguinte, essa crise não foi uma crise qualquer, porque a tendência de todos os analistas é analisar a crise em separado, ou seja, uma crise, outra crise. É como se analisa o crescimento de um ser humano falando da crise da adolescência, falando da crise da juventude, etecetera, etecetera e etecetera... Sem levar em consideração que esse organismo  está se modificando, não é que a crise se dá simplesmente, a crise é um sintoma de uma modificação, de uma evolução do estabelecimento de novas condições em que a situação existe e marca um percurso que vai da origem ao apogeu e daí ao declínio.

Depois de um longo período de quase duzentos anos de relativa estabilidade no Oriente Médio, a primeira Guerra Mundial e a luta dos imperialismos rivais vai desestabilizar completamente a região e de maneira definitiva. O Oriente Médio fica desestabilizado de forma definitiva a partir desses fatos, ou seja, 110 anos atrás. Sua história é a história da evolução desta crise, em etapas distintas de crise, separadas por períodos de calmaria onde se prepara, na realidade, a nova crise. A tendência da crise está marcada pelo declínio cada vez mais aprofundado da dominação imperialista na região.

A crise hoje

A crise atual é uma etapa de todo esse período de desestabilização e o problema conceitual e teórico fundamental é definir com clareza que etapa é esta. Para isso é preciso analisar também de um ponto de vista teórico como se desenvolve a crise nesses países.

Após o término da primeira Guerra Mundial o imperialismo vitorioso inglês e francês, principalmente o imperialismo inglês, consegue estabelecer na região um status quo temporário, precário até certo ponto em aliança com setores das classes dominantes locais que se transformam, seja em representantes do imperialismo, seja em estados nacionais independentes dirigidos por elementos pró-imperialistas nativos.

A principal peça de constituição do status quo na região, é o estabelecimento do governo árabe central, a Arábia Saudita, onde a dinastia dominante conclui um acordo com o imperialismo que num certo sentido dura até hoje. Este tem sido o principal ponto de apoio para dominação imperialista da região no meio da desestabilização histórica que aquela região vive.

Estabelece governos nacionais, mas que vão caindo sob o controle do imperialismo estabelecendo uma clara aliança em quase todos os países da região. Os ingleses lutam para se manter ali seu controle sob diversos países, Egito, Iraque e Irã, mas têm dificuldades com os governos nacionais na região.

Essa situação precária é um dos aspectos que leva novamente a uma segunda Guerra Mundial. O Oriente Médio, em particular o Norte da África, é um dos principais teatros das batalhas da segunda Guerra Mundial. A disputa pelos postos de petróleo é agudíssima pelo imperialismo britânico e seu aliado que surge no cenário como grande potência imperialista que são os EUA e do outro lado a Alemanha e os outros países imperialistas mais recentes que disputam o mercado mundial com o imperialismo anglo-saxão.

Essa disputa vai levar uma maior desestabilização, de tal forma que após a segunda Guerra Mundial ocorre uma segunda onda de crise. Esta onda pode ser dividida em dois períodos distintos.

A primeira crise que se dá logo depois da guerra até o início dos anos 50 que tem como ponto culminante a revolução egípcia, o nacionalismo egípcio, e a segunda que poderíamos chamar de a onda dos partidos baaths que se dá na década de 60.

Todos esses movimentos num certo sentido fazem parte da mesma onda desestabilizadora da segunda Guerra Mundial elas são a combinação de dois fatores importantes, de um lado desestabilização da dominação imperialista no Oriente Médio, e de outro, o fato de que o crescimento econômico temporário do capitalismo, isso nos anos 50, permite uma maior estabilização dos regimes nacionalistas através da exploração de determinadas riquezas naturais.

Uma boa parte do nacionalismo árabe de todo esse período se assenta sobre a luta por uma repartição entre a camada dominante local e o imperialismo do petróleo árabe fundamentalmente. Em alguns países ocorre uma situação diferente que é o caso do Egito, que tem peculiaridades. O Egito é um dos países mais importantes em termos agrários do Oriente Médio, tem o problema da represa e do canal de Suez que é um problema especifico do Egito, por isso se constitui um país chave no ponto de vista geográfico e político no Oriente Médio e de um modo geral para o novo status-quo do pós guerra que já é um aprofundamento da crise inicial do capitalismo. Leva a uma disputa as burguesias ou proto-burguesias locais e o imperialismo em torno principalmente da questão do petróleo.

São governos logicamente nacionalistas. A ideologia nacionalista é a expressão da luta de um setor da classe dominante local pela exploração da riqueza nacional contra o imperialismo. O nacionalismo não pretende, embora muitas vezes ele apresente esse programa, defender os interesses do povo.


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