(Com minhas homenagens, claro, a Monty Python[1])
Jornalista 1 [aproximando-se da bancada da porta-voz da CIA]: Com licença. Quero registrar uma queixa.
[A porta-voz da CIA não responde.]
Jornalista 1: Psiu, moça...
Espiã da CIA: Como assim, “Psiu, moça”?! ‘Tás pensando que eu sou Victoria Nuland[2]?
Jornalista 1: Desculpe. Pensei que aqui fosse o Departamento de Estado. Quero registrar uma queixa.
Espiã da CIA: Estamos fechados. Temos de continuar nossa guerra de sombras no Irã.
Jornalista 1: Exatamente. Quero registrar uma queixa sobre esse avião-robô aí de vocês, o tal drone que desapareceu essa semana no leste do Irã.
Espiã da CIA: Oh, sim, claro, sei... o RQ-170 ... Não, não. Sua informação está errada: foi no leste do Afeganistão. E, aliás... Que queixa? Qual é o problema com o drone?
Jornalista 1: Já lhe explico o problema do drone. O problema do drone é que ele morreu, desabou sobre o Irã. Pode ter sido suicídio. O caso é que ‘tá morto. Sifu.
Espiã da CIA: Não, não, de modo algum. O drone está... eh... está recolhido, em retiro. Está repousando.
Jornalista 1: Naquela loucura de deserto iraniano?! Repousando?! Calma lá, dona! A gente aqui sabe reconhecer um drone falecido, quando vê. E estou vendo um avião-robô, drone, mortinho, bem ali no Irã. Nessinstantinho.
Espiã da CIA: Não, não, não está morto. Está em repouso! Grande, magnífico drone, o RQ-170, né-não? Bela peça de tecnologia à prova de radares! Infelizmente, não posso descer a detalhes. É assunto secreto.
Jornalista 1: “Secreto” pode até ser. Repousando, não. O drone está completamente é morto. Parece que se suicidou. Atirou-se de ponta cabeça sobre o Irã.
Espiã da CIA: Nã-nã-nã-não, nã-não! Está só descansando. Está em repouso.
Jornalista 1: OK, tá certo. Se está em repouso, vamos acordar o bicho [Berrando para um aparelho de controle remoto: “Alôôô, Mr. Drone-robô! Acoooooooooorde! Temos aqui um alvo novinho em folha prô senhor! Um alvinho lindinho do Corpo de Guardas Revolucionários Iranianos... Acooooooooooooooo...
[Espiã da CIA chuta o controle remoto:] Olhe só! Deu sinal!
Jornalista 1: Não deu sinal nenhum. Você é que chutou o controle remoto!
Espiã da CIA: Never!! Eu nunca...
Jornalista 1: Foi você! Foi você! Chutou, sim!
Espiã da CIA: Eu nunca, jamais, never, chutei...
Jornalista 1: [Berrando e esmurrando o controle remoto, sem parar] “Droooooooone! Alô! Alô! Responda. Testando! Testando! Aqui é a CIIIIIIIIIIA, droga! Responda, ô carinha do drone! Acorde! Responda! Isso é uma ordem!
[Bate o controle remoto na mesinha da Espiã da CIA. Joga para cima e o vê espatifar-se no chão.]
Jornalista 1: Aí está. É o que eu chamo de drone morto. Falecido. Sifu. Pode ter sido suicídio.
Espiã da CIA: Não, não... O drone... ele está só um pouco... catatônico!
Jornalista 1: CATATÔNICO?!?
Espiã da CIA: Sim, senhora! Você berrou tanto, que chapou o coitado, bem quando ele estava acordando! Os RQ-170s têm surtos de catatonia, assim, sem mais nem menos. Ficam daquele jeito, de bico aberto.
Jornalista 1: Eh... ok, dona. OK. Isso aqui já deu, pra mim. Encheu. O drone faleceu, morreu, bateu com as dez. Foi-se. Tá morto. Super morto. Pareceu suicídio. E vocês, da CIA, distribuíram um comunicado à imprensa, há pouquinho, e afirmaram que o drone não se movia porque estaria fatigado, depois de longa e demorada missão secreta. É demais! É de-ma-is, pr’á mim!
Espiã da CIA: Confirmo que não há qualquer indício de que o Irã tenha derrubado o equipamento.
Jornalista 1: Mas falta um drone. Um drone não voltou para casa. Estava em missão secreta. Parece que o drone atirou-se de nariz no chão, no Irã. E o Irã diz que derrubou o amaldiçoado.
Espiã da CIA: É que... quem sabe, o drone pensou que o Irã fosse o deserto de Nevada?
Jornalista 1: DESERTO DE NEVADA?!?!?!? Mas que merda de conversa é essa?! Seguinte: por que o maldito atirou-se ao chão, de ponta cabeça e logo no Irã?! Agora, os Guardas Revolucionários já devem estar convocando russos, chineses, paquistaneses, até a Coreia do Norte (que Deus nos proteja!), para dissecarem juntos a tal alta tecnologia de vocês. Por preço módico, claro...
Espiã da CIA: O RQ-170? Não! O drone não! Grande drone, maravilha de aviãozinho-robô! Tecnologia de ponta, à prova de radares, portátil...
Jornalista 1: Escute aqui. A Agência de notícias iraniana IRNA tomou a liberdade de examinar o tal drone de vocês, antes de o drone atirar-se de ponta cabeça direto para o chão, no leste do Irã. [Pausa]
Espiã da CIA: Eh, uhmmm... Sim, sim! É claro que o metemos lá! Se o drone não tivesse caído onde caiu... teria voado para longe, sabe-se lá para onde, longe, longe, e vrummmmmmmmmmmmmmmm! Uaau!
Jornalista 1: “Vrummmmmmmmmmmmmmmm”?! Cara! Esse drone nunca farua “vrummm”, se vocês mandassem a Equipe Seis, dos SEALS da Marinha, acertá-lo com um choque elétrico. Morto no cumprimento do dever!
Espiã da CIA: Não, nada disso! Foi um truque! Operação super secreta de contraguerrilha, para confundir o inimigo!
Jornalista 1: Não é truque! O drone já era! O drone “is no more” – como disse o presidente Obama, de Muammar Gaddafi! Expirou o prazo de validade! Foi-se dessa para melhor! Reuniu-se ao seu criador, o complexo industrial-militar. Vestiu o colete de madeira! Livre do peso da vida, descansa em paz num paraíso xiita! Seus processos metabólicos já são história! Pulou o muro! Está livre das vestes mortais! Sifu! Foi-se! Morreu! Morreu! Mo-rre-eu!! Aquele é um EX-AVIÃO EX-ROBÔ!! [Pausa]
Espiã da CIA: Ora... Nesse caso, melhor fazer a reposição (conversa com alguém atrás da bancada). Desculpe, senhor, acabo de falar com o patrão, general David Petraeus, e eh, uh... Estão faltando drones, no almoxarifado. Estamos com falta de drones secretos.
Jornalista 1: Tá, tá, tá. Já entendi.
Espiã da CIA: Mas temos pilhas e pilhas de bombas estoura-bunkers. [Pausa]
Jornalista 1: E elas espionam?
Espiã da CIA: Eh... De fato... não.
Jornalista 1: QUER DIZER: NÃO TEMOS DRONES DE SUBSTITUIÇÃO, CEEEEEEEEERTO?!?!?!
Espiã da CIA: N-n-não, acho que não. [Parece confuso; olha para os próprios pés]
Jornalista 1: Certo. [Pausa]
Espiã da CIA: [Baixinho] Será que você... gostaria de visitar o Pentágono e dar uma espiada nos... planos B?
Jornalista 1: [Olha em volta] É... Sim, certo. Claro, sim.
(Quem queira ler coisa muito diferente... NÃO! Leiam! Leiam IMEDIATAMENTE o que escreveu Terry Jones, do Monty Python, sobre os tambores de guerra que batem a favor de um ataque ao Irã (8/12/2011, Terry Jones, “Quem bate os tambores de guerra contra o Irã?” no Guardian, UK e em português, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/12/quem-bate-os-tambores-de-guerra-contra.html).
[1] Sobre o grupo inglês, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Monty_Python [NTs]
[2] De 2005-2008, embaixadora dos EUA à Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN. Em meados de 2011 foi nomeada porta-voz do Departamento de Defesa dos EUA [NTs].
Tradução do coletivo Vila Vudu