Foto de Juliana Coutinho (CC BY-SA 3.0) - Eicke Batista, terceira pessoa com mais dinheiro do Brasil e 75ª do mundo.
Esses são os “bilionários”, uma espécie distinta de ser humano que precisa de uma quantidade excessiva de dinheiro para levar adiante a vida.
Mas não são muitos. Enquanto os homens e mulheres normais se encontram no rol dos sete mil milhões de pessoas, os bilionários mal passam de umas duas mil cabeças. Vivem em nichos específicos, habitats criados por eles e para eles, numa forma de “seleção artificial” dos espaços e dos espécimes aptos a uma reprodução adequada.
Alguns biólogos disponibilizam um catálogo para acompanhar o desenvolvimento desses veneráveis bilionários, todos minuciosamente controlados em tempo real: medidos, pesados, bem tratados e biografados. [Quem tiver curiosidade pode acessar o seguinte sítio: http://www.infomoney.com.br/bloomberg/bilionarios]
A fisionomia dos bilionários é bem semelhante, tanto que alguns estudiosos dizem que essa proximidade de características físicas é um sinal de que constituem de fato uma nova espécie. São em geral brancos, de cabelos grisalhos, do sexo masculino, com peso acima dos padrões do continente africano e asiático, possuem a maioria dos dentes em ótimo estado de conservação e estão sempre sorridentes em festas e comemorações.
Os bilionários costumam promover a filantropia, ou seja, doam esmolas para outros humanos que não se esforçaram o suficiente para nascer em um berço de ouro. Às vezes criam fundações, instituições comunitárias com fim de auxílio aos pobres e desvalidos – tudo com a verdadeira finalidade de abater o custo de suas obrigações tributárias, mas nada que ultrapasse 1% do lucro anual de suas empresas.
Todavia, não se deixe enganar: eles não são dóceis. Se há algo importante a salientar é o costume sádico dos bilionários: muitos ainda utilizam formas de trabalho escravo, mas tudo devidamente adequado às leis locais dos países onde investem. Boa parte deles se dedica à prática de exploração chamada “especulação financeira”, outros à venda de drogas e de armas. Deram uma vestimenta civilizada para a apropriação do tempo de seus empregados, mas ainda continuam desempenhando a predação e pilhagem como bons bárbaros.
O mais interessante é que eles inventaram uma religião própria: o Empreendedorismo. Dizem que já ultrapassou o cristianismo em número de adeptos. Alguns de seus mantras são do tipo: “Tenha perseverança e acredite nos seus sonhos”; “Tempo é dinheiro”; “Um dia sem lucro é um dia desperdiçado” etc.
Em seus cultos os fiéis costumam dar o testemunho de como ganharam o primeiro milhão de dólar antes dos vinte anos de idade – e quem não segue esses modelos de superação de “quem venceu na vida”, jamais poderá ocupar um lugar no olimpo dos bilionários. E a juventude de uma nova “geração de valor” idolatra esses heróis, lê suas hagiografias, repete suas palavras santas de manhã antes de ir à labuta.
Poderia falar horas a fio de seus hábitos, tanto alimentares, sexuais, como de outra forma qualquer de socialização, mas não é do meu interesse. Na verdade, vim apenas registrar a vontade que ouvi de um menino de rua hoje no semáforo vendendo doces: ele me disse que um dia queria se encontrar cara a cara com um desses figurões e meter-lhe um soco na boca do estômago.
