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A 'Temporalidade' do Terrorismo

Raphael Tsavkko Garcia

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A 'Temporalidade' do Terrorismo

Raphael Tsavkko Garcia - Publicado: Sexta, 03 Dezembro 2010 13:21

Raphael Tsavkko

Vista do lado dos povos agredidos, esta agressão e pi­lhagem do campo imperialista surge em toda a sua bes­tialidade, como uma ameaça à sua própria sobrevi­vência.


Para eles, as novas guerras coloniais do século XXI são uma nova fase, ampliada, das velhas invasões co­loniais. Ampliada por um potencial destrutivo e por uma capacidade de estrangulamento económico cem vezes maior que no passado.

A guerrilha, o chamado "terrorismo", reacção ao ter­ror quotidiano sofrido pelas populações agredidas, é a resposta que está ao alcance das vítimas: fustigar o ocu­pante, mesmo à custa de terríveis sacrifícios huma­nos, até acabar por tornar a ocupação insustentável ou demasiado cara e forçá-lo à retirada. É o que se de­senha já no Iraque, é o que virá a seguir no Afega­nistão. (Francisco Martins Rodrigues, online, 2010)

É interessante observar, ao longo do tempo, quais grupos, ou mesmo Estados, foram em determinada época considerados terroristas e deixaram de sê-lo, ou mesmo quando grupos passaram a ser assim chamados apenas quando deixaram de ser politicamente interessantes aos que dão as cartas no cenário internacional. Outro caso também digno de nota é o daqueles grupos que encontram ainda ampla legitimidade e não são unanimemente condenados.

O primeiro caso pode ser ilustrado magistralmente pelos grupos de libertação nacional (queira eles efetivamente se encaixem na definição ou não), como a FLN ou os grupos que lutaram pela criação de Israel (que não se encaixam na definição de libertação nacional, mas são assim considerados por seus aliados). São grupos que foram em determinada época considerados terroristas por parte ou pela totalidade dos atores internacionais presentes nas Nações Unidas e que, ao chegarem ao poder, foram posteriormente retirados da lista e aceitos como membros efetivos do cenário internacional, em pé de igualdade com os demais Estados.

A Fatah é um exemplo também interessante de grupo outrora terrorista, mas que hoje, através da OLP, é considerado um ator relevante em processos de negociação (Whittaker, 2005) e mesmo sendo reconhecido como liderança na Autoridade Nacional Palestina que se não é ainda um Estado, possui significativa relevância internacional.

No segundo grupo podemos elencar uma variedade de grupos que encontram ainda legitimidade em certos círculos ou que foram algum dia reconhecidos como legítimos atores – em alguns casos agindo como governos de fato, sendo parte em negociações internacionais ou mesmo sendo citados em documentos como atores válidos -, como é o caso da ETA (que passou a figurar nas listas de grupos terroristas do Departamento de Estado dos EUA apenas em 1998 (Kurlansky, 1999), tendo em mente que o grupo estava ativo há mais de 40 anos.

No caso da ETA era marcante seu caráter anti-Franquista e de defesa do povo basco contra um Estado que passou anos sendo considerado um pária internacional, até que fosse conveniente aceitá-lo no hall de aliados na luta contra a URSS e o Comunismo.

Nesta época, nem o IRA figurava na lista e a ETA foi levada ao nível do Khmer Vermelho e de grupos islamitas conhecidos por seu fundamentalismo (Kurlansky 1999).

O IRA, aliás, também faz parte deste homogêneo segundo grupo, cujas bases atuaram na independência da Irlanda e foram por décadas financiados por imigrantes e grupos influentes nos EUA. Suas ações encontravam respaldo em amplos setores da opinião pública, em parte da mídia e mesmo entre Estados que, se não o apoiavam, o deixavam de fora de suas listas de grupos terroristas e, assim, não inviabilizavam a captação de recursos para o grupo.

As FARC, sempre polêmicas, são também parte integrante deste grupo, pois de um movimento legítimo, nascido em meio a um período conturbado da história colombiana, tornaram-se párias internacionais ligados ao narcotráfico e perderam boa parte do apoio e mesmo da legitimidade que chegaram a gozar há algumas décadas.

O terceiro caso é o de grupos como os palestinos e libaneses que lutam ainda pela Libertação Nacional e que encontram certa legitimidade entre Estados (notadamente islâmicos) e entre a opinião pública internacional que vê sua luta com simpatia indisfarçável. Hezbollah e Hamas são os exemplos que logo surgem à mente.

O caso dos Tigres Tâmil do Sri Lanka, hoje desmantelados, também é válido, pois este grupo encontrava uma forte base de apoio entre a população Tâmil indiana que pouco se esforçava para cortar as linhas de abastecimento do grupo.

Existe obviamente uma outra categoria que pode ser citada que é a formada por grupos de orientações político-ideológicas distintas mas que compartilham entre si ideais supremacistas, racistas, xenofóbicos e mesmo fundamentalistas, que mesmo que possuam algum apoio - ou mesmo vago apoio, como grupos cujo objetivo é a imposição de ideais islâmicos e/ou a formação de Califados - não encontram qualquer legitimidade do ponto de vista da carta das Nações Unidas ou mesmo na Lei Internacional e andam em franco desacordo com qualquer noção aceitável de Direitos Humanos.

Grupos ideologicamente próximos ao Marxismo ou mesmo nacionalistas de esquerda possuem como motor para sua luta a noção de superação de uma situação de opressão, seja de classe ou nacional (ou ambas), outros grupos, como, por exemplo, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) tem o objetivo de dar a conhecer a situação de opressão e repressão de minorias indígenas, e mesmo as FARC de algumas décadas era a lembrança constante de que a população colombiana não aceitava ser subjugada pelas elites locais.

Já grupos como (o extinto) Kahane Chai, Al Qaeda, Exército de Resistência do Senhor e outros, usam e abusam do fanatismo religioso e da intolerância, com o objetivo de impor um modo de vida ou de pensamento à parte ou à totalidade da população mundial, matando indiscriminadamente sem qualquer tipo de ideologia política que possa lhes dar qualquer legitimidade.

Grupos que, ontem eram terroristas hoje são atores internacionais em pé de igualdade com quaisquer outros (FLN e Argélia, Fatah e OLP) e, da mesma forma, grupos que antes eram considerados legítimos (Talibã), ou mesmo Estados (Iraque) podem perder esta legitimidade e serem considerados terroristas caso haja interesse das potências ou de grupos poderosos.

Bibliografia:

KURLANSKY, Mark. The Basque History of the World. Penguin Books: 1999.

RODRIGUES, Francisco Martins. As guerras coloniais do séc. XXI. in Diário Liberdade. http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=7441:as-guerras-coloniais-do-seculo-xxi-&catid=93:direitos-nacionais-e-imperialismo&Itemid=106. 2010. Acesso em 18/10/2010

WHITTAKER, David J. Terrorismo: Um retrato. Rio de Janeiro: Bibliex, 2005.

Parte de artigo apresentado no VI Seminário de Ciência Política e Relações

Internacionais da UFPE, em 19 de novembro de 2010


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