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ukraine 655111 1280Portugal - Certas Palavras - [Marcos Neves] Se há coisa que me intriga é a capacidade de algumas pessoas para enfiar o acordo ortográfico em qualquer discussão que tenha vagamente a ver com a língua portuguesa.


Basta escrever ou falar do português, e temos logo alguém que fala do acordo, com muita indignação e muitos argumentos, mesmo que o texto nada tenha a ver com o assunto. Julgo que já aqui falei do caso em que recebi um comentário irado sobre o acordo ortográfico num artigo sobre o correctorortográfico.

Outro exemplo: ainda ontem, por baixo das notícias sobre o incêndio no Museu da Língua Portuguesa, li quem tentasse estabelecer paralelos mais ou menos metafóricos entre o incêndio (onde morreu uma pessoa) e a morte da língua, coitada, que já nem existe depois de ter sido assassinada por esse acordo do demo. (É por isso que estou a escrever isto em tailandês: o português já morreu.)

Pois bem, vou fazer o mesmo, mas em pior: vou tentar enfiar o Acordo Ortográfico numa discussão sobre a Guerra na Ucrânia! Será que vou conseguir?

Falar ucraniano às escondidas dos pais

Comecemos, então, esta história singela numa sala de aula, ali perdida numa avenida de Lisboa.

Em certo momento de cada semestre, nas minhas disciplinas de Prática da Tradução, costumo perguntar o que querem os alunos fazer no futuro e, para isso, pergunto que línguas sabem, que interesses têm, o que andam a estudar — tudo isto para começar a orientá-los para um possível futuro na tradução.

Este semestre, tenho três alunas ucranianas. Ao perguntar-lhes qual a língua materna, duas delas responderam «ucraniano» e a terceira respondeu «russo». Tudo normal. Lá discutimos algumas ideias para quem é nativo dessas línguas e quer trabalhar em tradução.

Por curiosidade, perguntei-lhes em que língua falavam entre elas. A aluna de língua russa respondeu-me que falavam em ucraniano entre as três e acrescentou: «O meu pai não gosta, mas pronto.»

(Lembrei-me de ler, há alguns anos, de um fenómeno curioso nas escolas catalãs: quando o catalão era proibido nas salas e os professores obrigavam ao uso do espanhol durante as aulas, os alunos tentavam falar em catalão durante os intervalos. Agora, que o catalão é a língua do ensino na Catalunha, há muitos alunos que passaram a falar em espanhol nos intervalos — imagino que alguns deles com aquele gostinho especial de quem está a irritar os professores e os pais que defendem a língua catalã. A nossa relação com as línguas — e com os mais velhos — é complicada…)

Voltando à Ucrânia: já todos sabemos que temos uma questão linguística complicada na Ucrânia: uma parte da população fala ucraniano, outra parte fala russo — e esta é uma das facetas da guerra que assola o país. Falámos disto há uns tempos («Mas afinal que língua se fala na Ucrânia?»).

Ora, a língua é muito mais do que uma forma de comunicação: é também uma forma de nos identificarmos com este ou aquele grupo. A língua é uma forma muito prática de nos distinguirmos entre «nós» e «eles». Por outras palavras, a língua serve como pintura de guerra, como marca tribal — e quase todos desejam fazer corresponder a língua à nação (tribo). Como?

 

  • Para uns, o ideal seria conseguir a independência da sua comunidade linguística (catalães, bascos, quebequenses, etc.).
  • Já outros tentam redesenhar fronteiras para «limpar» as comunidades linguísticas e fazer corresponder a fronteira política à fronteira da língua (rebeldes russófonos, irredentistas de todo o tipo).
  • Por fim, temos aqueles que desejam mais ou menos secretamente que os seus concidadãos se deixem de manias e passem a falar a língua mais importante (que é sempre a sua) — sim, estou a falar, por exemplo, de alguns espanhóis mais centralistas.

É verdade que há países que conseguem ultrapassar a questão e criar uma identidade nacional que ultrapassa as divisões linguísticas — a Suíça é o caso mais óbvio.

Mas, em quase todos os outros casos, a questão não se resolve bem. Mesmo em países tão pacíficos como o Canadá, a questão nunca se resolve por completo: há sempre sectores importantes da população que continuam a desejar qualquer coisa que simplifique a situação.

Há quase sempre uma identificação mais ou menos consciente entre a tribo (a nação) e a língua. A língua é quase a manifestação física (sonora, neste caso) da identidade e isto é tão natural que nem percebemos. Confiamos em quem fala a nossa língua, desconfiamos de quem não fala a nossa língua, principalmente se achamos que devia falar a nossa língua (como acontece em Espanha e na Ucrânia).

E no caso das línguas internacionais?

Quando uma língua é partilhada por vários povos, cada povo dá mais importante à sua identidade do que à identidade conjunta dos vários países que falam essa língua. Aliás, em muitos casos, há uma recusa activa e consciente dessa identidade conjunta — o que é natural, tendo em conta que muitos destes países falam a mesma língua porque foram colonizados por um deles.

Ora, a identidade vai alimentar-se daquilo que distingue os vários povos uns dos outros: o sotaque, o vocabulário ou mesmo a ortografia (e, nalguns casos, o importante é o nome da língua). A Escócia fala pacificamente inglês (pelo menos, fora das Terras Altas, onde ainda se fala gaélico) — mas ai de quem disser que têm de falar com sotaque inglês. A Áustria insiste na utilização de algum vocabulário próprio na União Europeia. Os galegos têm uma questão ortográfica complicada (já lá chegamos). Alguns valencianos começam a subir pelas paredes se alguém disser que a sua língua própria se chama catalão: pode ou não ser a mesma língua, mas o nome é valenciano, ponto final.

Tudo depende de quem cada povo quer fugir, digamos assim. Os valencianos que insistem num valenciano «independente» sentem-se espanhóis, mas nunca por nunca catalães. Os escoceses insistem num sotaque próprio porque são britânicos, mas não ingleses. Os brasileiros não se importam de chamar «português» à sua língua porque o importante é distinguirem-se dos vizinhos que falam espanhol.

Bem, voltemos à Rússia e à Ucrânia. Tudo isto que dissemos é fácil de perceber — e há quem não tenha qualquer problema em usar este animal adormecido que é o tribalismo linguístico para fazer valer os seus objectivos estratégicos.

O imperialismo linguístico de Putin — e Portugal Maior

Vladimir Putin usou a identificação linguística do seu povo com os falantes de russo da Ucrânia para justificar as suas acções militares dos últimos tempos: ele tinha de invadir a Crimeia e ajudar os rebeldes do Leste ucraniano porque estas pessoas falam russo e ele tinha de os socorrer (faziam parte da tribo russa, se quisermos).

Como bem descreve The Economist, Putin trouxe à liça das relações internacionais desta segunda década do século XXI uma doutrina que tenta identificar à força a língua com uma comunidade política. Se a levássemos a sério, teríamos de redesenhar o mundo à medida das línguas. Assim, lá apareceria um Portugal Maior, pluricontinental:

 

PORTUGAL MAIOR

 

Ou seja, Putin está a ser, de forma muito concreta e literal, imperialista.

Para lá das ironias, a verdade é que esta doutrina é de aplicação impossível.

Parece possível no caso da Rússia, porque a União Soviética acabou há pouco tempo. Aqueles ucranianos de língua russa ainda se lembram do tempo em que faziam parte dum grande país em que a língua era o russo. Nunca se sentiram particularmente atraídos pela independência da Ucrânia. O que sentem, acima de tudo, é saudosismo pela União Soviética, o seu grande país de língua russa. Era mais simples: a sua língua era a língua do seu país. Agora, sentem-se cidadãos dum país que valoriza, em primeiro lugar, outra língua.

No fundo, sentem-se como os catalães numa Espanha que dá primazia ao espanhol. Estão também na mesma situação em que estariam os catalães de língua espanhola no caso hipotético de independência da Catalunha…

Da mesma forma, o tal Portugal Maior (construção que deixará os brasileiros a rir-se a bom rir) é um disparate, porque a identidade nacional dos povos lusófonos está ligada, acima de tudo, à forma específica de português e não à Língua Portuguesa como um todo internacional.

Prometi-vos uma passagem pela Galiza…

Andar aos socos na Galiza por causa da ortografia

Voemos então até à Galiza, onde estas questões identitárias parecem estar muito vivas em redor da questão da ortografia.

Há uns meses, à saída da aula que descrevi aqui, pus-me a conversar com Emilio Gambeiro, um antigo professor de galego da FCSH que também foi assistir à aula.

Perguntei-lhe se a discussão sobre qual é a melhor ortografia para a língua galega está ou não muito presente na vida dos galegos.

(Já agora, ele fala-me naquela forma de falar dos galegos que, aos ouvidos portugueses, é muito curiosa e muito mais fácil de compreender do que pensamos.)

Contou-me ele que, há uns tempos, a conversar com um professor civilizadíssimo, calmo e ponderado, viram ambos passar outro professor — que tinha a característica de apoiar a outra ortografia. Pois, só o simples contacto visual descambou em insultos e gestos indecorosos. Não conseguiam partilhar sequer o mesmo espaço.

Bem, é fácil imaginar que o que se passa nos corredores das universidades não será representativo de toda a sociedade, mas mesmo assim fiquei impressionado com a intensidade da questão — tudo por causa da ortografia!

Para quem não tem andado atento, o que se passa é o seguinte: a língua galega tem uma ortografia oficial, que a aproxima do espanhol (usa o «ñ», por exemplo) e outra, reintegracionista, que a aproxima do português (usa o «nh», por exemplo). A questão ainda é mais complexa, porque há outras opções entre os dois extremos, para, de forma geral, é esta a discussão: ou o galego é visto como língua muito separada do português, com uma ortografia adaptada da língua principal de Espanha ou é visto como uma língua relacionada com o português, com consequências ortográficas. Os argumentos são imensos e vividos de forma espectacularmente emocional de um lado e do outro. Às questões técnicas e históricas, junta-se a relação emocional de cada um com a Galiza e a sua opinião pessoalíssima sobre o encaixe desta em Espanha.

A bem da verdade, diga-se que grande parte da população usa a ortografia que aprende na escola, ou seja, a ortografia oficial, com o «ñ» a lembrar que a Galiza é uma comunidade espanhola. Mas os reintegracionistas lá continuam a lembrar que, ao aproximarem-se do português, abrem as portas a uma segunda língua internacional, o que expande os horizontes dos galegos. Muitos outros galegos ficam horrorizados: mas haverá língua mais internacional do que o espanhol? Que se fale galego na Galiza e espanhol no mundo, que isso do português não pode interessar a espanhol que se preze. Enfim, podia continuar a descrever a situação dum lado e do outro, mas acho que dá para ter uma ideia.

Curiosamente, quando os galegos falam, é impossível (pelo menos para mim) perceber que norma escrita usam. Tudo isto é uma questão ortográfica — e na ortografia conseguimos ver as sensibilidades identitárias de cada um…

E, nós, Portugueses, que temos com isto? Pelo interesse que temos na questão, pouco ou nada. Alguns dirão até que estas discussões são um tanto quanto ridículas. E, no entanto…

…somos mais parecidos com os Galegos do que pensamos…

Ah, pois… Ao ouvir a descrição do violento encontro entre dois professores universitários numa universidade galega, tive vontade de me rir do exagero verbal e da violência por causa de ortografia, mas depois lembrei-me que nós, portugueses, andamos às turras virtuais por causa do acordo.

Como já expliquei noutras ocasiões, encontro um argumento contrário ao acordo que me parece suficiente e mortal: o acordo não serve rigorosamente para nada. Mas, para muitas pessoas, este argumento não basta: é preciso carregar as tintas com retórica que, às vezes, roça a má-educação, cheia de extremismo desnecessário e, nalguns casos, xenofobia (mal) encapotada. Tremo ao ouvir alguns dos defensores da minha própria posição…

Mas, olhando friamente para as coisas, entendo a desmesura das reacções. Os Portugueses, como todos os povos, identificam a sua identidade com a sua língua.

Ora, como a sua língua é internacional, o nosso coração tribal dá muita importância às diferenças que nos distinguem no âmbito dessa mesma língua: temos algum medo de ser confundidos com os outros povos.

Como muitos povos, sentimos uma certa insegurança identitária, o que nos leva a achar que o mundo está todo convencido que somos uma província de Espanha.

Também no que toca ao Brasil, há por cá algum medo que a antiga colónia nos invada culturalmente (será que isto ainda virá dos traumas desses anos em que o nosso rei viveu no Brasil?) O pânico com as telenovelas brasileiras, com o português abrasileirado, com as palavras que não são nossas — tudo isso se explica se percebermos que temos esse tal coração tribal a bater no nosso peito.

Neste cenário, venham lá dizer que vamos apagar as consoantes que nos ajudam a distinguir os nossos textos dos textos brasileiros! Podemos argumentar que é só ortografia, que não nos vamos tornar brasileiros (e eles, afinal, também mudam umas quantas coisas) — o medo não desaparece, o horror é intenso.

Como vimos no caso da Galiza, a ortografia pode valer muito neste campeonato da identidade.

Argumentam-nos com o valor duma língua de 200 milhões, que merece uma só ortografia. O nosso coração tribal irá sussurrar-nos: «De que vale o número de falantes, se ficarmos menos portugueses?»

Não estou a dizer que concordo com estes sentimentos. Estou apenas a descrevê-los. Reparem no simples facto de os dinamarqueses falarem uma língua de poucos milhões sem que tal lhes seja minimamente incomodativo. E os malteses? Os galeses? E por aí fora… Dizem-nos: «Mas a nossa língua não é galês! É falada por 200 milhões!» E o nosso diabo tribal lá volta a dizer: «Mais valia ser falada só por nós, se assim nos deixassem as consoantes sossegadas.»

Mais uma vez vos digo: não me parece a mim, racionalmente, que o acordo ponha em perigo a nossa identidade, nem de perto nem de longe. Mas esse exagero retórico do campo anti-acordo vai beber ao tal tribalismo linguístico, que é algo muito real e muito forte.

A atracção da simplicidade: a cada tribo, uma língua

Admitam que esta viagem entre a Ucrânia e o nosso país aponta num sentido: os seres humanos tendem a querer que a relação entre a tribo (ou nação) e a língua seja simples e sem qualquer ambiguidade.

Se somos ucranianos, temos alguma dificuldade em aceitar que outros ucranianos falem a língua do vizinho.

Se somos falantes de russo na Ucrânia, não gostamos de ser obrigados a falar outra língua e, de qualquer forma, era mais simples se ainda vivêssemos num país em que a nossa língua era a principal.

Se somos galegos, ou bem que nos acomodamos em Espanha e usamos uma roupagem que admite essa acomodação, ou sonhamos com outras ideias — e a forma como vemos e pensamos a língua segue essas nossas tendências.

Se somos portugueses, queremos falar português e que ninguém diga que a nossa língua «é de todos». Não: é nossa! Por isso mesmo alguns de nós até dizem que seria mais confortável se os brasileiros dissessem que falam «brasileiro»…

O coração tribal do ser humano bate muito forte. E conseguimos ouvir esse bater com facilidade se olharmos para esta questão das línguas…

(Uma pergunta importante: será que devemos ou podemos mudar esta característica do ser humano? Veremos num próximo artigo, que este já vai longo. Mas o certo é que não serve de nada espicaçarmos o bicho de forma gratuita, sem razões muito fortes. É também por isso que o acordo foi um erro.)

 


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