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141114 hectorGaliza - Tercera Información - [Tradução do Diário Liberdade] Entrevista com o ex-preso e vizinho viguês acusado pela Justiça espanhola de integrar a suposta "organização terrorista" Resistência Galega.


Pergunta: Como consideras o presente da repressão no Estado espanhol?

Resposta: O governo do PP está a dar os seus últimos passos e sabem-no, daí que utilizem o argumento do medo, de que a ordem e o Estado de providência estão em risco. A intensidade da repressão aumentou e aumenta de dia para dia e, tentando demonstrar que isto é assim, detêm qualquer um que tenha ligações "revolucionárias" durante qualquer tipo de protesto ou simplesmente por alçar a voz ou colaborar com trabalhos solidários, e manipulam os media para criminalizar pessoas e movimentos.

Obviamente que ninguém com dois dedos de testa acredita em todo esse lixo, mas infelizmente nesse país, ainda padecemos as maleitas da herança do medo impressa nos ossos da sociedade que nos deixou o senhor este careca de Ferrol, por isso sempre haverá alguém que possa acreditar.

No caso da Galiza em concreto, a repressão centra-se no independentismo e os estudantes vinculados a este movimento, direta ou indiretamente; além disso, qualquer opinião ou opção política crítica com o regime e as suas políticas em qualquer matéria e que se enquadrem em opções rupturistas é imediatamente reprimida ou censurada, riscada de "pró-etarra" ou "terrorista", o qual ficou na moda para o PP, tanto aqui, na Galiza, como no resto do Estado. É claro que nos consideram um inimigo e se não o somos, tentam enquadrar-nos na periferia dos inimigos que já têm.

P: Sentiste indefensão jurídica durante o procedimento até o momento?

R: A pergunta correta seria sim me senti protegido em algum momento. Desde o primeiro momento, os meus direitos foram vulnerados sistematicamente, tanto pela Guarca Civil, como pela Audiência Nacional e por Instituições Penitenciárias. A aplicação da lei antiterrorista, que se denunciou já tanto pela ONU como pela UE como ilegal, e que se aplica sem olhar a meios a qualquer "suspeito", vulnera praticamente todos os direitos humanos. Desde a minha detenção num bar de Vigo onde passava a noite com os meus amigos, a minha condução a Madrid e a incomunicação durante 4 dias sem poder ver um advogado nem informar a minha família sobre a minha situação (ainda bem que tinha sido detido com testemunhas), o meu ingresso e permanência em prisão, que me levou a conhecer 6 prisões diferentes em 89 dias baixo o regime FIES-3.

Após a minha saída de prisão, as pressões mediáticas foram constantes, sobretudo por parte do ABC, e até "funcionários do Ministério do Interior" a assediar-me, a mim e a pessoas próximas, para que "colaborássemos", ameaçando-me a mim e aos meus com provas falsas ou a criação das mesmas. Isto custou-me problemas em trabalhos e habitação, e se não fosse pela solidariedade desinteressada de pessoas vinculadas ou não políticamente a mim, ter-me-ia visto numa situação extrema de exclusão social"... quer dizer, na "puta rua".

Juridicamente, o processo prolongou-se mais de 2 anos, sob medidas cautelares, com os meus advogados sem poderem apresentar provas a meu favor e a procuradoria agindo até o ultimo momento (incluído minutos antes do início do julgamento oral) para apresentar supostas provas contra. Por outra parte o ministério fiscal dedicou-se a criar uma rede, com a colaboração de um outro processado, na minha causa (daí que ele visse reduzido de 17 para 3 anos o pedido de prisão graças a isso), para me envolver a mim e outras pessoas na rede "terrorista de Resistência Galega".

Depois de apresentar em tribnal e comprovar (como supunha, já que estou inocente e não deixarei de o dizer) que só e unicamente têm como prova de acusaçom da minha participação em atos delitivos o testemunho de um outro acusado (com um óbvio conflito de interesses), a estas alturas, só posso dizer que em todo o momento senti indefens¡ao jurídica; o respeito pelos direitos individuais não é o forte do sistema judicial nem policial espanhol.

P: Notaste a solidariedade dos companheiros diante da tua situação?

R: Gostava de te comentar que antes de que me passasse isto eu não era militante de nenhum tipo de organização política ou social, legal ou ilegal... A solidariedade veio-me por parte dos meus amigos, mas também por parte de organizações políticas e antirrepressivas e dos seus militantes.

Como já comentei, a solidariedade foi constante, tanto de uns como de outros, de pessoas individuais, amigos ou não, ligados políticamente ou não ligados, de organizações solidárias galegas como de outras partes do Estado, disso não me posso queixar em absoluto.

A solidariedade é necessária em todos os casos para os movimentos revolucionários, faz de nós o que devemos ser, sós não somos ninguém nem representamos nada.

P: Achas que os galegos conhecem os objetivos do independentismo e a sua realidade atual?

R: Primeiro haveria que concretizar sobre uma pequena diferença. O "independentismo revolucionário", e o "separatismo burgués". Para esclarecer, o segundo seriam as pretensões de grupos ou políticos como CiU e Artur Me as, ou certos setores do BNG ou Anova, de reclamarem a independência (ou não) do Estado guiados por razões económicas em muitos casos; se convém aos seus bolsos são "unionistas" e se não, são "independentistas". Esta gente não pensa nas necessidades e realidades dos povos, só nas dos seus interesses.

No entanto, a outra cara é o "independentismo revolucionário", que reclama o reconhecimento das realidades nacionais dos povos, a defesa cultural/linguística assim como a pedagógica e o fim do saque sistemático dos recursos e sectores produtivos por parte de empresas e governos forâneos, ademais da proposição de políticas de esquerdas derivadas hacia o socialismo...

A sociedade galega em geral, a gente do montão, não percebe os objectivos do independentismo devido à manipulação mediática constante, e à confrontação que estratégica e sistemáticamente mantém o governo central achacando aos "nacionalismos" todos os males do país, e pintando-os como senhores com cornos e rabo, o qual é inegável que levou a um estado de confrontação entre a própria cidadania, que vêem aos nacionalistas como o inimigo de "Espanha"; isto por uma banda e por outra e fazendo um pouco de autocrítica, acho que os colectivos e movimentos independentistas galegos não foram capazes em muitos casos de expressar-se adequadamente e fazer chegar a sua mensagem à gente da rua, ao grande conjunto da população galega que em muitos casos ainda têm certos complexos de inferioridade e uma mentalidade colonizada por tantos anos de desprezo hacia este povo e esta cultura. Contudo esse é o trabalho constante que se realiza dia a dia na Galiza por parte destes colectivos, o visibilizar as realidades nacionais e tentar transmitir os seus objectivos comuns à sociedade, com maior ou menor acerto, mas faz-se.

P: Achas que é possível que se esteja a utilizar alguns jovens como bodes expiatórios, como exemplificação ou punição a condutas indesejáveis na cidadania, por parte do governo?

R: Obviamente, condena-se duramente pessoas jovens e não tão jovens por participarem direta ou indiretamente em qualquer facto com que eles puderem qualificar de "violento" ou "subversivo", em muitos casos, com provas manipuladas e testemunhos falsos por parte das FSE [Forças de Segurança do Estado], que temo sejam a grande maioria sob ordenes diretas de delegados do governo ou altos funcionários ou cargos do mesmo. O seu sistema necessita um inimigo e dar uma mensagem à sociedade que transmita a sua falta de "piedade" com esse inimigo. A sociedade não se dá é conta de que em última instância eles mesmos são esse inimigo.

P: Crês que o presente político do Estado espanhol está a experimentar uma mudança política de importância, com as pistas do CIS?

R: O presente político segue sendo dos de sempre, mas o futuro em curto prazo acho que dará uma volta de 180º, ao menos nas próximas eleições autonómicas e gerais. Contudo a nível autárquico não o vejo tão claro, exceto nas grandes cidades governadas pelo PP. Em muitos lugares os votos autárquicos costumam diferir no seu sentido com os votos noutras eleições.

Contudo, o problema de fundo continuará sendo o mesmo, e é o próprio sistema. Por muito que um novo partido tome o poder, sejamos realistas, não se podem eliminar centos (ou milhares) de altos funcionários e burócratas, nem militares, nem muito menos aos bancos e mercados que o fim de contas são os que governam realmente. Será difícil mudar tudo isso e não acha-o que lhe o permitam a ninguém, ao menos, não lhes permitirão fazer mudanças nem reformas profundas. O problema deste país não é a "casta" política em sim, senon a económica que é a que dá as ordens à política, e será difícil retirar-lhes os seus privilégios. E ainda que tenho muito claro que para governar há que estar bem educado e ter uma boa formação, só o dia no que um grupo de pessoas saibam o que é passar fome e que se vejam no desespero de perder o seu fogar, só então, aqui poderão começar a mudar as coisas.

P: A um independentista, Interessa-lhe a evolução da política espanhola?

R: Com certeza, somos independentistas, não idiotas. Se Espanha funcionar bem beneficiamo-nos como todos; acontece é que quando funciona mal, os "povos periféricos" costumamos ser os primeiros a sofrê-lo, além de que se nos culpabiliza sempre dos males do Estado, sobretudo dos económicos; a culpa sempre é das autonomias e esses nacionalistas malvados e esbanjadores, nunca do governo central, nem das suas deputações provinciais, nem do seu senado decorativo nem certamente de deputados que viajam a Tenerife para dar uma queca financiada pelos cidadãos nem dos executivos exemplares que tivemos (benditos fundos reservados)...; não, eles não fizeram nada de mau, eles não viveram acima das suas possibilidades... viveram por acima das nossas (e continuam a fazê-lo).

Sejamos sinceros, Espanha não funcionou bem na vida e além disso, nenhuma organização política espanhola com sede em Madrid se preocupou nunca com o nosso futuro como povo. Contudo, o futuro dos povos que conformam o Estado espanhol, e não só o nosso, a nós sim nos preocupa.

P: Que opinião te merece a atual lei mordaça?

R: A Lei de Segurança Cidadã só é uma amostra mas das tantas políticas fascistas que pretende levar a cabo um partido político herdado da casta privilegiada no regime militar anterior para tentar manter os seus privilégios, coisa que conseguiram, por que aqui, sempre mandam os mesmos desde faz 75 anos.

P: Julgas que a sua aprovação poderá ter um efeito dissuassório real?

R: Alguma gente será dissuadida por este méio, obviamente, mas quando o povo já tem muito pouco que perder, há pouco mais que lhe possam tirar, por muitas coimas que ponham e por muito elevadas que sejam. Se não tenho casa, nem trabalho, nem quase não que levar à boca que mas me podem fazer? Terá um efeito dissuassório sobre a pequena burguesia, sobre esses que têm bons trabalhos, bons salários e boas casas, mas que de todas as maneiras não gostam de como estão das coisas.

P: Consideras que a juventude galega é combativa e reivindicativa, ou vês uma grande percentagem de conformismo?

R: A mocidade galega é como a do resto do Estado, em geral é conformista, busca uma saída individual aos problemas mas acutilantes da sociedade; a educação que receberam leva-os para o individualismo. Contudo cada dia a mocidade está mais asfixiada, a educação média e superior é menos acessível e o trabalho já nem falemos. Dia a dia os jovens galegos veem claro que sós não chegam a nenhuma parte, organizam-se e combatem contra o regime estabelecido dentro das suas possibilidades.

Que ocorre quando um jovem não tem opções? Que as busca, e só na confrontação contra quem oprime ao povo e a eles mesmos vêem uma saída. Mas isto último leva ocorrendo 30 anos; aos galegos faz muito que se nos estão acabando as opções.

P: Achas que as últimas contundentes condenações afastarão a mocidade da política?

R: Os jovens não se assustam por que condenem outros ainda que sejam os seus companheiros, todo o contrário, reafirmam-nos nas suas posturas. Numa organização juvenil da que algum membro seja represaliado e condenado, pode haver alguma "deserção" pontual, seguramente por pressões familiares mas, em geral, até tomarão mas força. Não é de cobardía do que peca a mocidade e muito menos a galega.

P: Cries que a cidadania conhece as condições reais das prisões?

R: Para a cidadania em geral o mundo prisional é totalmente desconhecido, são os esgotos do Estado, ninguém se interessa por ver o que há nela, só que funcione. Mas a realidade é que não funciona. Os cárceres não são centros de reinserção, mas de castigo e se nos referirmos ao âmbito da delinquência, se a rua é a escola, o cárcere é uma universidade. No âmbito político, os cárceres são submundos subumanos, centros de exterminio que exterminan a tua mente e sim não o conseguem, tentam exterminar-te literalmente. Os maus tratos e os abusos estão na ordem do dia. Além do direito à liberdade, retiram-te muitos outros, e tentam anular-te como pessoa para que te convertas numa ovelha mais.

Para o sociedade é mas cómodo moralmente não saber o que ocorre no interior dos muros.

P: Que opinas das políticas de dispersão penitenciária?

R: A dispersão é outra forma de tortura... eu personalmente sofri-a em todo o seu "esplendor", visitando em 3 meses, 6 cárceres fora do território galego. Se acrescentamos o regime FIES como costuma acontecer, isto aumenta o desarraigo e isola o preso do mundo exterior, já que dificulta que te possam visitar, além das afinidades culturais com outros presos, e tudo isto no meu caso, como no de muitos outros, em prisão preventiva. Por outra parte, uma família que tenha que viajar 1500 km quase sem descanso para poder ver ao seu ser querido, expõem-se a mas que possíveis acidentes. Desde que se implementaron estas medidas faz 25 anos, 18 familiares de presos bascos e galegos morreram nas estradas, ademais de um sinfín de acidentes não mortais. Por outra parte também implica um gasto económico desorbitado para as famílias, em concreto com a soma dos 6 presos independentistas galegos que estão presos nos dias de hoje, as suas famílias e amigos gastam em média 4.700 euros cada semana para podê-los visitar durante quase não 40 minutos com um cristal pelo meio.

A dispersão é um castigo acrescentado às condenações, desenhada num princípio para a ETA, para impedir que os seus presos se pudessem organizar dentro das prisões, mas na atualidade aplicada a qualquer preso com capacidade organizativa. O governo define-o como medidas de segurança, eu defino-o como parte da VINGANÇA do Estado para quem se atreve a opor-se ativamente. Se s¡ao motivos políticos os que te levaram ao cárcere, todo o sistema penitenciário está desenhado como castigo e para a vingança contra ti.

P: Que opinas das recentes declarações de Beiras, que assevera que resistência galega é um invento do poder e não existe?

R: Não só são declarações de Beiras, há até juízes na Audiência Nacional que não identificam a "Resistência Galega" como uma organização armada. É questão do ponto de vista, se te interessar ou não vê-lo assim.

Se te interessar que exista, verás indícios por todas as partes, acreditarás o que dizem os meios (ou seja, o Ministério do Interior) e serão provas, mas se no fundo não tens interesses no assunto, como estes juízes da Audiência Nacional que comento, não qualificarias de organização terrorista uns quantos jovens que nem vão armados, nem estão organizados, nem mataram ninguém, nem danificaram ninguém, nem ameaçaram ninguém, nem nada similar.

Ocorrem ações com explosivos na Galiza? Sim, negá-lo seria mentir descaradamente, mas se me perguntas se esses atos estão organizados, supeditados a uma estrutura hierárquica e aos seus interesses "políticos", pois não, não engulo esse isco por muito que insistam desde as filas do PP e da Delegação do Governo.

Ao governo do PP interessa-lhes um inimigo, que haja terroristas", e se ETA não está ativa, que melhor que criar da nada uma organização terrorista que não pode negar nem confirmar a sua existência? Já dizem eles que existe e ponto, eles são a lei... O problema é que sim és um representante político e não aderes à sua opinião antiterrorista, logo te riscam de terrorista a ti também. Neste caso, Manuel Beiras e Yolanda Díaz tiveram o valor de se enfrentar ao PP negando-se a condenar a existência de um grupo terrorista que não crem que exista.

O "Manifesto pela Resistência Galega" que se deu a conhecer em 2005 não é como diz o Ministério do Interior o primeiro comunicado de uma organização, é não um apelo ANÓNIMO à resistência ativa. Se não nos alargássemos muito, poderia desmanchar um por um os argumentos do Estado para a existência desta organização, mas a melhor prova está na própria sociedade. Se perguntares a qualquer galego ou galega da pé, sem ligações políticas, pelo problema do terrorismo na Galiza, rirá-se da pergunta, porque aqui as pessoas não têm essa sensação de conflito armado como passava em Euskal Herria, que tanto interessa ao governo espanhol, nem se preocupa demasiado com que alguém ponha um engenho a um caixa automático de Abanca (ex Novagalicia Banco); preocupam-se mais com que lhes devolvam o dinheiro que Novagalicia lhes roubou, ou o que vão comer (ou não) ao dia seguinte, onde poderão trabalhar os seus filhos se nos tiram o mar, os estaleiros, o gado e toda a indústria "típica" de aqui, da qual vivia muita gente, ainda que sim, sempre podemos abrir um bar e ser empregados de mesa ou cozinheiros, mas não há turistas nem bêbedos para todos. Etc...

Centrando-nos um pouco, ainda que Beiras não seja santo da minha devoção, posso dizer que faz muitos anos que está na vida política galega e desde um princípio despertou em mim certo interesse e simpatia, e acho que é uma pessoa que não acede a pressões facilmente, e muito menos imposições e prefere que o risquem de "pró-terrorista" a dizer algo que acha que não é verdade; com o que estou de acordo com ele: antes preso, que ser livre por mentir... isso deixamo-los aos acusados (e não acusados) do PP.


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