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Mário-Herrero-Valeiro-2 optGaliza - PGL - Mário Herrero Valeiro nasceu na Corunha em 1968.


É Licenciado em Filologia Hispânica pela Universidade de Santiago de Compostela e Doutor pela Universidade da Corunha. É autor de vários livros de poesia: No limiar do silêncio. Poemas da estrangeirice (Ed. Espiral Maior, 1999), Cartografia da Atrocidade (Lisboa, Edições Tema, 2001) e Outra vida (22 poemas, uma confissão e um esclarecimento) (Através Editora, 2013). Ainda, no campo da sua especialidade como linguista e investigador, publicou numerosos trabalhos sobre temas de sociolinguística galega, entre os quais se deve destacar o livro Guerra de grafias, conflito de elites (Através Editora, 2011).

A meados do verão foi designado académico da AGLP e neste mês de outubro vê a luz a sua mais recente criação, Da vida conclusa, obra ganhadora do II Prémio de Poesia que organiza O Figurante Edicións. Dupla dose de razões, portanto, para conversarmos com ele: saber do seu labor na Academia Galega da Língua Portuguesa e conhecer melhor as vicissitudes do protagonista desta Vida conclusa.

A vida extremaOutra vida, agora Da vida conclusa. Há algum laço que vincule estes três trabalhos além da insistência na ‘vida’?

Sim, a insistência na morte. Que é outro dos nomes da vida. Que é o outro nome da vida. Talvez ninguém acredite, mas reparei na utilização da palavra “vida” no título dos três livros pouco depois de concluir o último… É o problema de escrever biografias. Só sabes escrever sobre a vida. Sobre a tua vida. Sobre a real e sobre a falsa. Os dous primeiros livros que publiquei, No limiar do silêncio e Cartografia da atrocidade – este último publicado de forma bastante deficiente, mesmo omitindo o texto final – eram fundamentalmente poesia social, épica urbana, política e filosofia simples, essencial, desejo grupal com algumas concessões ao intimismo, ao desastre interno. Era outro tipo de biografia. Mas depois surgiram três livros que falam basicamente de mim e da minha memória. Do real e do imaginado. Do vivido e do sonhado. Tudo é catarse. Falsa medicina. Palavras e mais palavras sobre a doença. Podia ter escrito um só livro. E não o mesmo livro três vezes. Prometo que o próximo será muito diferente. Preparo um ajuste de contas.

Da vida conclusa finaliza com uma lembrança a Clement Rosset. Em Le réel, traité de l’idiotie, o francês, partindo de uma renovada definição etimologista do termo, assinala que a idiotice é uma qualidade inerente ao ser humano e única em cada um de nós…

Não li esse livro. Realmente tenho lido muito poucos livros na minha vida. Privilégios que temos os farsantes. Lembro agora Clement Rosset – lembro-o sempre – através de uma leitura transversal, intensamente parcial e interesseira, de La Logique du pire, um livro extraordinário, quase ilegível para um ignorante como eu. Nele li aquilo que escreveu Bergson: “um nunca está obrigado a fazer um livro”. A melhor definição da prática literária que sempre li. A sua desnecessidade. Logo a sua necessidade perentória. Tenho dedicado a minha vida a tentar compreender a tragédia, mas não em termos filosóficos, nem sequer literários, senão físicos. Estritamente físicos. Dolorosamente físicos. Para a sua expressão, aprendi mais nas minhas leituras parciais de Deleuze. Rosset e Deleuze, dous terroristas. Os Nietzsche do século XX.

O pouco que posso dizer sobre a idiotice (no sentido vulgar e no menos vulgar) é que tenho comprovado que o único que varia de uma pessoa para outra é a sua expressão estética. A sua materialização. Suponho que Rosset terá razão. Não penso ler esse livro. Todos somos idiotas. No sentido de que todos somos néscios. A necedade é outro dos meus tópicos favoritos. Neste livro escrevo alguns poemas sobre a necedade na minha relação com as mulheres. Nisso eu sou perito.

O protagonista do poemário vive numa «sociedade decadente». Vive mesmo na nossa sociedade?

Os seguidores do pensamento trágico observamos decadência por toda a parte. É a nossa condição. Somos escravos da nossa particular tragédia. A nossa sociedade é decadente e opulenta em simultâneo. É provável que o mesmo aconteça com qualquer outro modelo social. Decadentes e opulentas são as nossas vidas de ocidentais bem mantidos. A decadência é, provavelmente, uma necessidade das sociedades complexas. É uma outra forma de distinção. A decadência é essa maravilhosa música de Jacques Brel (há em castelhano uma versão magnífica de Gabriel Sopeña):

Mas sem esperança, sem esperança. Não nos confundamos. Sem esperança. Quem precisa da esperança para viver?

O termo esperança procede do verbo esperar, que remete para uma atitude passiva. A decadência, a que te referias como «necessidade das sociedades complexas» tem a ver com a presença ou ausência da esperança?

A decadência é a forma esteticamente mais admissível de suicídio. Em termos de tempos longos (não sei se também em termos da longue durée). Nesse sentido, é uma forma, burguesa, de esperar. De esperar a morte. Presença da espera. Ausência da esperança. Provavelmente niilismo, no sentido menos filosófico do termo. Perder-se nos bares, nos antidepressivos ou nas máquinas de moedas. Cobardia ou escapismo. Evitar a política. É o hedonismo dos suicidas perante um mundo incompreensível. Há demasiado ruído no mundo. E o ruído oculta as maravilhas. O ruído oculta tudo. E é por isso que alguns somos passivos. Admitimos a derrota. Fomos vencidos. E nem sequer lutamos. Porque foram os nossos quem nos derrotaram. Ou porque talvez já nos nasceram vencidos. Nunca descreverei os factos da minha vida. O porvir concluiu há anos. Mas sei que, como dizia antes, terei de ajustar contas. Algum dia. No entanto, espero e tento compreender o que não pode ser compreendido.

Do protagonista vamos conhecendo também o relacionamento com o pai, as mulheres… São tão marcantes ou determinantes quanto para qualquer um de nós?

Da vida conclusa fala do pai e das mulheres, que são os dous grandes tópicos sobre os quais gira a escrita de qualquer varão heterossexual que pretenda fazer poesia não telúrica. Não, não é umaboutade. Afirmo-o e reafirmo-o. Da miséria e da pele é, portanto, do que fala este livro. Depois de matar o pai, o único que podemos esperar é que nos mate uma mulher. Antes que nos mate o nosso próprio filho. Tanto um como outras são componentes essenciais da tragédia. E, é bem certo, de qualquer comédia.

O primeiro ato de lançamento será a 31 de outubro no Linda Rama, local que recentemente abriu na Corunha. Tiveste já ocasião de conhecer ao vivo o seu projeto?

Não conheço ainda. Está num lugar privilegiado e já me falaram muito bem, também no puramente estético. Faço pouca vida cultural. A cultura dificulta a vida. Espanta-me que haja pessoas que ousem construir projetos assim. Eles são heróis. Eu sempre fui da tribo dos cobardes.

Quase ao mesmo tempo que ganhavas o prémio de O Figurante, conhecíamos a tua designação mais a de Maria Dovigo como novos membros da Academia Galega da Língua Portuguesa. Surpreende um bocado que ainda não formásseis parte da instituição…

É o que tem o de ir fazendo anos e acomodar-se à vida burguesa. Que te tornas, quase sem querer, num conservador. Olha, sempre pensei que isso da Academia era começar a casa polas vistas. Expressão que acho que ouvi ao José Ramom Pichel numa Assembleia da Língua nalgum século passado. Ou errei na altura ou erro agora. Entro na AGLP por dous motivos: por respeito e agradecimento a quem mo pediu expressamente e porque penso que é o melhor mecanismo para projetar a nossa tragédia grupal – que é, essencialmente, o extermínio, exógeno e endógeno, democrático de uma cultura – para o mundo, e, também, de nos organizarmos adequadamente para uma melhor resistência interior. A AGLP é expressão magnífica de uma sociedade civil organizada. O problema é que essa sociedade civil não existe. E juro que não acabo de incorrer numa contradição nos termos.

Participaste já nalguma reunião de trabalho da Academia? Vais centrar a tua participação nalgum labor concreto?

Não, ainda não participei em reuniões na qualidade de académico. Tenho participado em reuniões da Fundação Academia Galega da Língua Portuguesa, da qual sou patrono, e como observador sem voz nem voto em reuniões da própria Academia. Temo que a minha colaboração em labores concretos será escassa. Tentarei colaborar no pouco tempo que me deixa a vida real: sou trabalhador autónomo e tenho dous filhos.

Em 2011 publicaste na Através Editora Guerra de grafias, conflito de elites, que se correspondia só a uma parte da tua tese de doutoramento. Haverá a possibilidade de conhecermos o resto do trabalho proximamente?

Haverá, sim. O trabalho está muito avançado. De facto, deveria ter sido concluído há meses. Porém, novamente a falta de tempo impediu-me finalizar o trabalho. Espero que antes do final do ano possa ter o livro pronto para publicar. Talvez possa sair do prelo nos primeiros meses do próximo ano. A culpa é minha, exclusivamente. A culpa é da vida. Sempre é da vida.


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