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 MG 2000Galiza - Diário Liberdade - No meio-dia da quarta-feira 11 de março, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras do aeroporto Sá Carneiro do Porto (Portugal) detinha o independentista galego Heitor Naia e retinha o cidadao galego-venezuelano Jorge Milhor, para proceder à verificaçom da sua documentaçom. 


Jorge Milhor ficou finalmente em liberdade e do Diário Liberdade falamos com ele sobre o acontecido no Sá Carneiro, sobre a sua militância no Colectivo Alexis Vive e sobre a situaçom que se está a viver atualmente na República Bolivariana da Venezuela.

Diário Liberdade.- No meio-dia da quarta-feira 11 de março foste retido no aeroporto Sá Carneiro do Porto, junto com o independentista galego Heitor Naia. Como foi a detençom?

Jaime Milhor.- Eu coincidim com Heitor no aeroporto, falamos algumhas cousas e ele foi faturar a sua bagagem enquanto eu estava na casa de banho. Quando voltei ao balcom, deparei-me com a realidade: Heitor estava detido. Ia preso polos colegas da senhora que revisara a documentaçom dele, que o levárom desde onde eu estava até o andar de baixo. Eu só podo dizer que nom sabia em que situaçom legal estava, se podia sair ou nom. Tampouco perguntei.

D.L.- Também tu foste retido polo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Como foi o teu caso pessoal?

J.M.- Quando fum perguntar polo Heitor, a polícia perguntou-me se o conhecia. Eu respondim que sim e fiquei com eles para um processo de verificaçom documental "rotineiro", tal e como eles dixérom, para saberem se eu tinha também documentaçom falsa. Cabe destacar que eu conhecia o Heitor por outro nome, eu conhecia a pessoa que estava ali com outro nome, pola relaçom humana, mais do que militante de nengum tipo. É umha pessoa com quem tivem relaçom amigável durante aproximadamente 7 ou 8 meses em Vigo. Isto foi o que dixem à Polícia portuguesa e é a verdade.

D.L.- Finalmente foste posto em liberdade sem acusaçom de nengum tipo, umha vez que os teus documentos eram perfeitamente legais, mas quanto tempo estiveste em maos da Polícia portuguesa?

J.M.- Aproximadamente 8 horas.

D.L.- E como foste tratado?

J.M.- Pois completamente distinto ao que reflete a minha experiência em relaçom ao Estado espanhol. Nem eu nem o Heitor Naia, nesse momento, recebemos nengum tipo de maltrato, nem fomos tratados de forma despótica. Fomos incomunicados entre nós, por razons óbvias, mas nom foi um processo como os que há aqui, de nom sei quantas horas de incomunicaçom nem nengumha dessas violaçons dos Direitos Humanos que som reiteradas e que se permitem no Estado espanhol.

D.L.- Durante as 8 horas que durou a tua retençom, tiveste algum tipo de contato ou comunicaçom com Heitor Naia?

J.M.- Quando eu começo a estar consciente do que está a acontecer, de que ele é Heitor Naia e nom a pessoa que eu achava que era, pensei que poderia estar a sofrer algum tipo de tratamento diferente ao que eu estava a sofrer e aí eu pedim à Polícia portuguesa que por favor me permitissem ver que nom estava a ser maltratado nem torturado. A Polícia portuguesa acedeu e dirigiu-me até ele para que me certificasse com umha frase que nom vou esquecer: "Isto é umha República civilizada, aqui nom costumamos torturar nem bater nas pessoas, o teu amigo está bem e podes ir vê-lo, mas nom mantenhas comunicaçom". Excedim-me um pouco, porque pisquei um olho ao Heitor e reparei que estava triste, obviamente, mas em boas condiçons. Nom tinha recebido nengum maltrato.

D.L.- Após a tua libertaçom, tivo a Polícia espanhol algum contato contigo?

J.M.- Nom, de nengum jeito. De facto, nom só nom me contatárom, como o único que podo reportar é que me seguem ao sítios, que a polícia secreta continua a fazer o seu trabalho de secreta com a "discreçom" que os carateriza.

Militância internacionalista do Coletivo Alexis Vive

D.L.- És membro do Coletivo Alexis Vive. Poderias explicar-nos como se organiza e que atividades desenvolve o Colectivo?

J.M.- Vamos fazer umha história que é muito longa o mais curta possível. O Coletivo Alexis Vive tem a sua origem numha experiência do ano 92, na Coordenadora Simón Bolívar de Caracas. Lá, muitas organizaçons políticas que estavam perseguidas pola repressom daquela época unírom-se numha campanha política para recuperar Caracas como bastiom da revoluçom, porque Caracas historicamente sempre foi umha cidade com umha propensom revolucionária e à esquerda muito forte, mesmo durante os governos da 4º República. A Coordenadora Simón Bolívar surge como umha expressom da capacidade de articular as luitas de distintas organizaçons revolucionárias de esquerdas do período.

No seio da Coordenadora, havia muitas tendências e dentro dessas tendências estava a nossa, que se chamava Travesía naquela altura. O comandante indiscutível dessa linha política e de pensamento seria Alexis González Revette e alguns outros camaradas que hoje som a direçom do Alexis Vive. Historicamente, desprendemo-nos da Coordenadora, que tem umha definiçom estratégica mais bem político-cultural, e evoluímos para umha experiência político-social que tem umha abordagem militar integral para a defesa da naçom, umha abordagem socioprodutiva de cara ao socialismo e um contato com as massas destinado a gerar as próprias experiências de auto-organizaçom que a gente necessita para sair do sistema capitalista.

Quando essa divisom com a Coordenadora, num início definimo-nos como umha organizaçom marxista-leninista de tendência guevarista e bolivariana. Isso foi evoluindo para um marxismo-leninismo que, fundamentado na própria experiência de análise dialético de Alexis Vive, é umha experiência que poderíamos chamar "marxismo-leninismo-alexisvivismo", como expressom do que é a adaptaçom das nossas abordagens políticas à realidade e exigências concretas da massa venezuelana.

Podemos situar a fundaçom do Coletivo no momento em que se dá o combate por defender o governo legítimo da República Bolivariana de Venezuela e nós perdemos Alexis González em combate. Entom, o Coletivo decide que esse é o nome que nós queremos. Quanto ao nome de 'coletivo', surge da nossa necessidade de demonstrar que a prática do centralismo democrático, no seu sentido mais amplo, é umha prática que conduz à direçom coletiva do movimento popular. Assemblearmente, pode dar-se umha prática de centralismo democrático que permita as massas conduzir a organizaçom polo caminho que lhe corresponde e o trabalho do quadro nom é definir a linha política, mas aplicar e sistematizar a linha política que as massas originam. Nós invertemos o processo da criaçom da linha política.

A nossa prática definiu certos pontos ideológicos próprios. Nós temos umha teoria que se chama Pedagogia da Insurgência: como criar o caráter insurgente nas massas, através dum processo sistemático de crescimento ideológico. Como processo revolucionário histórico, o chavismo ensinou-nos que é possível construir um mínimo de acordo entre todas as forças de esquerda patrióticas e anti-imperialistas dum país para desenvolver a luita revolucionária. Mas a coexistência dessas diferentes tendências vem marcada por umha dinâmica de contradiçom. É umha prática de respeito e dum manejo correto das contradiçons no seio do povo o que permite às organizaçons que levam a linha política certa desenvolver essa linha e estruturar o seu pensamento em funçom dos avanços. Nós nom queremos umha confrontaçom entre os campos populares, nós necessitamos que os campos populares elaborem umha linha conjunta de açom que nos permita construir o desenvolvimento político da organizaçom. Isso é a Pedagogia da Insurgência.

Por outro lado, em termos internacionais, após termos estudado muitíssimo sobre as experiências de internacionalismo nas distintas organizaçons comunistas, nós mantemos a essência do ideal guevariano com a participaçom e implicaçom dos quadros na luita revolucionária lá onde se deslocarem, mas partindo da base da construçom dumha solidariedade orgánica. No momento atual que vive o mundo, sabemos que o máximo inimigo de todos os povos do mundo é o capitalismo e o imperialismo, com o qual um combatente do Alexis Vive, em qualquer cenário do mundo, tem o mesmo inimigo que o povo oprimido nesse lugar do mundo. Nesse contexto, o fundamental é compreendermos que a realidade da luita nom é exatamente a mesma em todos os lugares, mas o inimigo mostra muitas caraterísticas semelhantes precisamente porque som expressons do mesmo flagelo.

D.L.- Entre os projetos do Coletivo Alexis Vive destaca o da Comuna El Panal 2021. Em que consiste?

J.M.- É um eixo comunal. Temos comunas em todo o País. As comunas som experiências onde os trabalhadores das comunidades se organizam para produzir os seus próprios bens de consumo de forma que há umha espécie de economia comunal que permite que as comunas sejam praticamente autárquicas sem necessidade da participaçom doutras entidades. É umha experiência incipiente que ainda estamos a desenvolver com numerosas limitaçons, mas chegará um momento em que a economia comunal seja capaz de substituir a economia capitalista.

 MG 2003Quando um povo como o nosso estivo em resistência contra umha ditadura encoberta como a que tivemos, muito parecida com o que aqui acontece depois da chamada Transiçom, este povo organiza as formas de luita que necessita para a sua própria subsistência e tem umha focagem destrutivo-rupturista com o Estado como abordagem. Nós tivemos esse enfoque rupturista até que o processo revolucionário bolivariano de Chávez nos demonstrou que o Estado pode ser um aliado na construçom da revoluçom se o Estado é revolucionário, quer dizer, o Estado fai parte do sujeito histórico-social que na Venezuela está a dar a mudança. Nós passamos de entender o Estado como inimigo, de enfrentá-lo e querer destruí-lo, a aperceber-nos de que, se o Estado é um aliado na transiçom para um modelo socialista, o nosso trabalho é construir o outro poder e dotá-lo das ferramentas necessárias para que poda substituir o velho poder. Houvo um tempo em que as teses maoístas mantinham que havia que derrubar o Estado enquanto se construía o novo poder. Nós agora, em termos de prática política, nom temos nengum interesse em confrontar o Estado, mas o contrário: queremos dotar o Estado da capacidade de que o seu governo seja realmente popular.

D.L.- Nessa linha de atuaçom em que o Estado é um aliado, que relaçom mantém o Coletivo Alexis Vive com o governo do Presidente Maduro?

J.M.- Nós, como marxistas-leninistas, temos umha postura a respeito do que deve ser o desenvolvimento do socialismo, e o Estado encontrou umha série de obstáculos tanto na própria capacidade subjetiva das massas para entender o processo de transiçom como nos próprios inimigos reais para desenvolver a sua política.

Em fevereiro do ano 2013, nós tínhamos umha posiçom de alarme e crítica relativamente ao que estava a acontecer na Venezuela e as posturas que estava a tomar o governo. Mas naquela altura o que agora som ameaças reais apenas eram ameaças incipientes e os nossos problemas eram outros. É muito provável que se a resposta do Estado tivesse sido mais rápida nesse momento com algumhas cousas, nom estaríamos neste nível de ameaça agora mesmo, e o imobilismo dalguns setores do governo é praticamente umha forma de cumplicidade com os interesses do inimigo.

Todas as experiências de luita exitosas dum povo pola sua soberania e pola sua revoluçom contra o imperialismo passam por ter umha voz forte de vanguarda na defesa do processo revolucionário a nível internacional. Nós, como "alexisvivistas", temos um destacamento na Galiza e estamos a executar a tarefa segundo os princípios que achamos corretos para desenvolver essa tarefa. E podemos dizer, com muito orgulho, que estamos a executar labores de vanguarda quanto ao que som as tarefas de defesa estratégica da Naçom. Porque se nós nom pudéssemos descobrir ao mundo a enorme mentira tecida em torno da democracia espanhola, o mundo continuaria a acreditar que na Venezuela se violam os Direitos Humanos e que nos "estados civilizados capitalistas" isso nom acontece. É todo umha arquitetura que, se nom for confrontada com umha voz política correta, unificando com solidariedade orgánica como princípio "alexisvivista" de luita, os inimigos em comum que temos com os povos do mundo, vamos fracassar em qualquer possiblidade de defesa integral da naçom que tenhamos.

A linha internacionalista do Alexis Vive é umha linha internacionalista do comunismo, e a nossa intençom em todo o caso é demonstrar, como já fijo o Vietname, como fijo a Nicaragua, que é na opiniom pública dos países imperialistas, nas grandes massas desfavorecidas desses países imperialistas, onde temos que construir umha alternativa solidária entre o povo das naçons oprimidas e o nosso para responder o imperialismo que no Estado espanhol, além do mais, se comporta como um exército de ocupaçom.

D.L.-  Na conferência de imprensa convocada por Ceivar após os acontecimentos no aeroporto Sá Carneiro, declaraste estar documentando a vulneraçom de Direitos Humanos contra ativistas políticos desde há quase um ano. Em que consiste este trabalho e que conclusons podes adiantar agora?

J.M.- Nós chegamos a ter informaçom sobre muitíssimos casos. Temos um destacamento entre Ferrol e o Porto, polo que as nossas relaçons vam desde a Galiza ao Estado português, e documentamos como é a perseguiçom política, como é o sistema repressivo contra a militáncia revolucionária galega e como é a estrutura judicial que se tece em torno disto para prejudicar estes militantes.

Este é o caso de Heitor Naia, um militante que é julgado pola Audiência Nacional espanhola por uns supostos petardos que explodírom no monte Sam Paio causando danos a umha antenas de radiofonia. O próprio tribunal fixa os supostos danos num valor de 11.000 euros. Nesse processo concorrem três argüidos, dos quais dous chegam a pactos com a Produradoria do Estado, conseguem suculentos benefícios processuais e, em vez de estarem condenados a onze, doze ou treze anos, estám condenados a três. Entretanto, a única pessoa que nom só nom reconheceu ter participado em nada, mas que um dos juízes que escreve a sentença reconhece que nom há nengumha evidência conclusiva, enfrenta a condena mais elevada de todas, porque nom aceitou um pacto com a Produradoria onde ele se reconhecesse culpável.

Portanto, violam-se umha série de princípio jurídicos universais, como o direitos à contradiçom de provas, o direito de concurso e habilitaçom e de acesso da defesa às provas que vai apresentar a Procuradoria, todo isso recolhido documentalmente polo sentença de parte deste juiz que se abstém de pronunciar-se a respeito do caso. Mas há dous juízes que utilizam estes mesmos argumentos para ratificar a sua posiçom de condenar esta pessoa a 11 anos de prisom. Assim, os mesmos argumentos, a mesma jurisprudência, para umha pessoa é umha cousa e segundo duas pessoas é outra. E, eventualmente, um dos juízes que assina a sentença de Heitor di aos advogados, e é de conhecimento praticamente público, que nem sequer a leu. Entom, estamos a falar dum sistema metafísico, improvisado, destinado à perseguiçom e criminalizaçom do movimento popular e, neste caso, da militáncia independentista.

O sistema chega a isto como última fase e última expressom do desenvolvimento político da perseguiçom. Desde as lei de "doma e castraçom", há umha perseguiçom política e cultural contra o movimento de libertaçom nacional galego, contra a sua política, contra a sua resistência e contra a sua necessidade de existir como povo. E, após 500 anos de políticas genocidas sistemáticas, é muito mais fácil para o estado central marginalizar os resquícios dessa luita política de tam longa data. Isto passa por impedir que acedam a bons postos de trabalho e à educaçom, ao ponto de eu poder dizer que as principais vulneraçons dos Direitos Humanos que se cometêrom contra Heitor Naia num início nom tenhem nada a ver nem sequer com essa sentença judicial, que já é bastante. Tem a ver com a sua carência de oportunidades, a sua falta de acesso a umha vivenda digna, a umha formaçom mais apropriada da que já tivo... de maneira que a luita do Estado é também por nos manter na pobreza marginal e na indigência.

O resultado final é o caldo de cultivo para a desesperaçom da gente que eventualmente chegou a cometer este tipo de factos, ainda que nom seja o caso do Heitor, pois neste caso particular nom sabemos se o fijo ou nom e ele nom reconhece te-lo feito. Mas, em qualquer caso, se a gente é condenada à marginalidade perpétua, nom tem acesso a nada, nom tem oportunidades, obviamente a desesperaçom leva-os ali. E se um pequeno setor da burguesia agora mesmo se está a queixar da depauperaçom das suas condiçons, da miséria, imagina entom o que som as camadas inferiores da sociedade e as condiçons que estamos a enfrentar atualmente, que som ainda mais bestiais.

D.L.- Nas circunstâncias que acabas de descrever, como vês o panorama da luita da Galiza pola sua libertaçom nacional?

J.M.- Partamos da base de que umha das principais ferramentas de criminalizaçom de todo o movimento de libertaçom nacional é o uso do termo "terrorismo". Nom é umha questom que fosse inventada para a Galiza, é umha questom que foi inventada consuetudinariamente para reprimir os comunistas conseqüentes, para reprimir o movimento de libertaçom nacional basco, catalám, galego e qualquer povo que reivindicar a sua existência como naçom oprimida dentro do Estado espanhol.

O termo "terrorismo" é um termo muito acomodatício e agora mesmo representa um dos grandes negócios do sistema em maos do Estado espanhol. As polícias aqui, após viverem todo o processo onde a esquerda abertzale deu umha viragem da luita armada que durante anos mantivo ETA para umha luita política encaminhada à construçom de caminhos democráticos de participaçom, encontram-se com que já com tenhem um inimigo militar com que concorrer e sem ele muitos "benefícios laborais" (bónus salariais por perigosidade e outras cousas) desaparecem. Eles necessitavam com urgência construir um inimigo militar e deslocar essa gente nessas condiçons laborais a esse novo campo de guerra que podia existir ou nom. De facto, na Galiza nom existe, mas trouxérom para cá todos os corpos repressivos que num determinado momento desenvolvérom funçons antiterroristas em Euskal Herria, com a história dum suposto bando terrorista galego para cobrar os bónus de perigosidade aqui.

O que acontece é que há um paradoxo muito grande em toda esta circunstância: a polícia necessita esse inimigo terrorista para seguir conservando os seus benefícios laborais, mas por outro lado necessita validar a tese de que existe esse suposto bando armado. Para todo isto, eles conseguem um delator dentro da suposta organizaçom que valida toda esta versom em troca de muitos benefícios processuais e de cumprimento de condena. Quer dizer, conseguem umha testemunha à medida para justificar a versom policial que lhes permite continuar a cobrar os bónus de perigosidade.

Em funçom disso, constroem todo um imaginário tanto na imprensa como num setor do independentismo. Porque é paradoxal, mas há um setor do movimento de libertaçom nacional galego e um setor reduzido do independentismo que é funcional às necessidades da polícia, já que nom só reconhecem e convalidam as teses da polícia, mas tenhem vontade de existir em termos propagandísticos, em termos dumha sorte discursiva que valida a existência das necessidades da polícia como se fosse um orgulho. E nom reparam em que, por exemplo, um verdadeiro ato insurrecional é romper com essa cadeia de sofrimento e denunciar que a polícia está a cobrar gratificaçons por umha cousa que é mentira: aqui nom há sensaçom de terror, nom há um cenário de guerra, nom há um bando terrorista.

 MG 2001Certos níveis de violência som gerados pola desesperaçom das massas populares e, em todo o caso, a aposta é construir umha alternativa popular que canalize esse descontento para vias revolucionárias que permitam desenvolver a luita. Esse setor do independentismo que é funcional aos interesses da polícia é contrário ao desenvolvimento da luita do movimento de libertaçom nacional galego, é um dos primeiros inimigos que o movimento de libertaçom nacional galego deve destruir.

Esse é o negócio do terrorismo, que mesmo conseguiu que, dentro do movimento de libertaçom nacional galego, um ala política que na teoria executa os atos mais vanguardistas, seja a mais desvinculada da massa, e para o desenvolvimento da suposta luita convalidam, ratificam e melhoram cada dia a versom policial que permite a eles terem um benefício salarial. É claro que é um negócio que tem os seus derivados colaterais como a venda de jornais, como a facilidade para reprimir outro setores do movimento que sim estám a construir umha verdadeira alternativa e criminalizar todo o movimento em geral, ainda mais do que já está com o argumento de "todos som terroristas", "há um ámbito terrorista", "há um discurso terrorista" e "há terroristas à procura de emprego".

Alerta anti-imperialista na Venezuela

D.L.- Com intençom de desmontar as mentiras que estamos a receber através dos meios burguesas, conta-nos: que está a acontecer realmente na República Bolivariana da Venezuela?

J.M.- Agora mesmo nós estamos a viver umha ofensiva do imperialismo brutal tratando de propiciar umha mudança de tempo numha América Latina que desde o surgimento de Chávez vem dando mostras inequívocas de querer exercer a sua soberania com base na decisom e na participaçom popular. A Venezuela foi ponta de lança disto e, além disso, é um dos países mais ricos e influentes da regiom, com o qual é o mais sedutor em termos políticos e militares para o imperialismo. Nesse quadro, a Venezuela é umha naçom que demonstrou um nível de maturidade muito grande, porque a pesar das grandes dificuldades impostas por esta guerra económica, polas ameaças, polo quadro constante de agressom, conseguir sobrepor a vontade de luita do povo para umha perspectiva estratégica de superaçom socialistas das formas de desenvolvimento capitalista. E, por ser umha república soberana anti-imperialista e anticapitalista, e termos políticos representamos umha ameaça para o império norte-americano, mas nom representamos umha ameaça em termos militares, porque somos um povo profundamente pacífico. Nós nom temos ánsias de expansionismo em termos militares, como o que implementa o imperialismo, nós temos ánsias de construir com a gente um grande panorama mundial de mercados alternativos baseados na solidariedade, no intercámbio das classes trabalhadoras do mundo, e aqui a grande desfavorecida é a burguesia mundial.

A ponta de lança da oposiçom nacional a respeito de toda a política implementada para facilitar os pronunciamentos norte-americanos de ameaça militar é a estratégia de utilizar os seus próprios supostos presos políticos como umha espécie de mártires em defesa dos valores democráticos que agora se encontram presos da revoluçom bolivariana. A verdade é que os supostos presos políticos que há agora na Venezuela, como o senhor Antonio Ledesma ou como o senhor Leopoldo López, som presos políticos que demonstrárom historicamente a sua verdadeira atitude como assassinos, genocidas, sendo de muitas maneiras partícipes de iniciativas de intervençom anti-pátria e anti-soberania da naçom, e som inimigos do povo venezuelano no desenvolvimento da sua Revoluçom Bolivariana. Um tipo como Leopoldo López é apresentado como um abandeirado da democracia, mas o mundo talvez desconheça que Leopoldo López, no dia 12 de abril de 2012, estava assaltando a Embaixada de Cuba no município que governava, tratando de conseguir supostos políticos chavistas para os eliminar com umha turba de linchadores, ameaçando funcionários públicos diplomáticos de Cuba e violando a Convençom de Genebra, junto com o outro candidato da oposiçom atual, Enrique Capriles.

Por outra parte, os que provimos do movimento estudantil venezuelano, que conhecemos a Venezuela desde os 90, sabemos que o papel que jogou Ledesma e a sua polícia na repressom do movimento estudantil revolucionário patriota que exigia a libertaçom de Chávez e sabemos a repressom que exerceu contra as grandes massas populares naquele momento. Entom, nom nos podem dizer que um tipo que tem umha trajetória de carrasco mudou durante ou últimos dous anos e se converteu num abandeirado da democracia, quando a República Bolivariana da Venezuela é a primeira que reabilitou as vítimas do "caracaço", quando é a primeira na história da Venezuela que está a fazer um trabalho de recuperaçom da memória histórica polos nossos desaparecidos, polos nossos torturados, porque também som parte da história.

Nom ter essa memória histórica seria umha crueldade por parte da revoluçom bolivariana, mas por outro lado seria a porta de entrada para que nós esquecêssemos o papel que jogárom certos senhores ao longo da história da naçom. O senhor Ledesma leva muitíssimos anos sendo repressor e antidemocrata. Que nos pretendam agora vender na opiniom pública internacional a imagem deste Ledesma luitador pola democracia e perseguido por umha revoluçom "totalitária" e "autoritária" quando ele mesmo era o chefe dumha polícia que torturava estudantes, é ridículo. Essa história pode ser contada a alguém a 8.000 quilómetros que nom esteja bem documentado, mas a quem o viveu nom se lhe pode contar essa história.

D.L.- Em relaçom à ingerência estadunidense, nos últimos dias o presidente norte-americano Barack Obama emitiu umha ordem executiva que qualifica a Venezuela de ameaça para a segurança nacional dos Estados Unidos. Quais som os seus interesses mais imediatos nesta intervençom?

J.M.- Eu acho que eles querem retomar a hegemonia sobre América Latina, e a Venezuela é a ponta de lança. Vam tenta-lo de todas as maneiras possíveis e, na medida em que lhes seja possível, o afogamento económico e financeiro do país é a primeira alternativa, mas o povo está a resistir valentemente a guerra económica. Embora o presidente obreiro Maduro tenha começado tarde a batalhar esta guerra, desenvolveu umha política no seio das massas que permite a estas massas confrontarem com inteireza esta situaçom de escassez e levantar a moral revolucionária do povo para enfrentar as vicissitudes que venhem sobre nós. Os Estados Unidos estám a notar que só essa alternativa nom é suficiente, e também estám a fazer contas de que a oposiçom venezuelana é umha oposiçom que se desmoronou a si própria, que nom tem capacidade de confrontaçom nem nengumha capacidade revolucionária "anti-bolivariana".

Nesse cenário, a aposta dos americanos vai decidir-se paulatinamente para pequenas agressons, atentados de falsa bandeira e eventualmente umha invasom. Eu penso que o que mais desejam os norte-americanos é encontrar um Benghazi em território venezuelano, e ainda desejam mais o dia em que poidam agarrar o presidente da revoluçom bolivariana que encabeça o seu povo na resistência e dar-lhe o mesmo final que lhe dérom a Kaddafi. Nós estamos certos, como organizaçom do movimento popular, de que somos capazes de confrontar essa ameaça. Mas também estamos certos de que, lamentavelmente, há muitos setores do governo que se estám a mostrar timoratos no exercício da defesa integral da pátria, no chamado à incorporaçom popular massiva consequente de todos os setores que confluímos no chavismo para essa defesa integral e ao desmascaramento da patranha imperialista.

Porque isto pode ter duas faces: ou um bloqueio, parecido com o que viveu Cuba durante tanto tempo, que permite estrangular a raiz económica do funcionamento socialista na Venezuela, ou umha intervençom militar em termos estritos como a que viveu a Iugoslávia, a que viveu a Líbia ou a que está a viver a Síria atualmente.

D.L.- Os meios de comunicaçom burgueses destacam também a escassez de alimentos e produtos básicos, culpando disso às políticas do governo do Presidente Maduro, mas que há por trás dessa situaçom?

J.M.- Nós temos um problema estratégico com as linha de abastecimento, porque nestes anos de socialismo nom construímos a suficiente força para que as linhas de abastecimento dependessem da organizaçom popular. O movimento popular comuneiro está a executar as suas tarefas com brilhantismo, com umha perspetiva estratégica socialista muito rápida, mas tivo que avançar com dificuldade. A guerra económica que apresenta a burguesia crioula ao serviço do capital transnacional é muito anterior a todo isto e propicia o desabastecimento com umha série de açons relacionadas com a cadeia de aprovisionamento que repousava em suas maos, porque a burguesia venezuelana é umha burguesia comercial que depende das divisas do Estado para comprar cousas no estrangeiro e vendê-las a melhor preço.

Entom, em termos de desenvolvimento, nós encontramos limitaçom no avanço das comunas para suplantar esse mercado. Agora mesmo estamos a viver o recrudescimento da guerra que apresenta a burguesia nesses termos e estamos a ver que o crescimento das comunas, se bem é o mais acelerado possível, nom está a dar todo o que necessitava o Estado socialista para subsistir. Porém, o desenvolvimento das comunas a este ritmo vai conseguir que, num período relativamente curto, suplantem definitivamente a intervençom da burguesia no processo de consumo venezuelano e entom já nom haverá necessidade de que as burguesias intervenham neste processo. Mas polo momento ainda falta umha batalha de mais ou menos um ano vista para que a produçom comunal poda suplantar o mercado e as linhas de suprimentos, que até agora demonstrárom ser o principal ponto de vulnerabilidade da nossa revoluçom e que as burguesias conseguírom atacar com tanto sucesso, pola nossa própria força. Nisso o Estado está a fazer umha reorientaçom dos seus esforços e nisso acreditamos firmemente.

D.L.- Nos últimos dias fôrom convocadas concentraçons em várias localidades galegas em apoio à Venezuela bolivariana. Na tua condiçom de galego-venezuelano, como avalias a solidariedade do povo galego?

J.M.- A solidariedade é a ternura dos povos, e penso que as mostras de solidariedade do povo galego em circunstáncias difíceis, onde estamos levantando a voz tanto pola Galiza quanto pola Venezuela, é a mostra fundamental de que somos um povo irmao, de que o povo é povo, nom importa a que distáncia se encontrarem uns dos outros, e de que o inimigo é o mesmo. Muitas forças políticas deveriam aprender da solidariedade dum movimento vilipendiado, perseguido, criminalizado e marginalizado sistematicamente como o movimento de libertaçom nacional galego para compreender também o momento histórico que estamos a viver como povo venezuelano e ir para a rua massivamente no nosso apoio.


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