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am1Galiza - Diário Liberdade - Muitas ouvimos falar do 'Jogo do Pau' ou da 'Luita Tradicional Galega', mas desconhecemos o resto do universo das Artes Marciais Históricas Europeias. Denis Fernández, da Gallaecia in Armis apresenta-o. 


O Diário Liberdade entrevistou Denis Fernández. Ele foi um dos impulsores da Gallaecia in Armis, associaçom baseada em Compostela (Galiza) e dedicada à prática das Artes Marciais Históricas Europeias.

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Embora desconhecidas para o grande público, qualquer pessoa que se interessar por elas encontra nos primeiros cinco minutos multidom de curiosidades e conhecimentos que nom teria imaginado antes (ou, polo menos, nom através da Esgrima Histórica, o outro nome para estas Artes).

Com anos de prática já na Galiza e Portugal, também no Brasil há interesse por estas disciplinas nos últimos tempos. Sobre isso, e sobre muito mais, fala-nos Denis. 

Diário Liberdade – Para alguém que nom conheça, o que som as Artes Marciais Históricas Europeias?

Denis Fernández – É umha área que combina atividade física – a prática de Artes Marciais – junto da investigaçom histórica – descobrir essas Artes Marciais nos tratados de diferentes épocas históricas.

Estamos a falar de disciplinas 'reconstruídas' e isso é que fazemos cá na Gallaecia in Armis de Compostela.

DL – Reconstruídas?

DF - As técnicas 'de guerra' deixárom de se usar e de ser conhecidas pola maioria social, mas chegárom de diferentes formas ao nosso tempo: como desporto – pugilismo, esgrima, luita greco-romana, tiro com arco... no entanto, o desporto é pensado para 'fazer ponto', enquanto na Arte Marcial o prioritário é preservar a integridade própria. Isso conservou-se, no caso das Artes Marciais Históricas Europeias, principalmente na escrita.

am2DL – E qual foi a motivaçom para essa reconstruçom?

DF – A pergunta inicial foi “Nom temos cá artes marciais como no Japom ou na China?”. Na verdade, embora maioritariamente se associem as Artes Marciais à cultura oriental, estamos a falar de técnicas de combate – o nome vem das 'Artes de Marte', o deus da guerra – e infelizmente na Europa temos umha longa tradiçom nisso.

As primeiras linhas estruturadas de trabalho tivérom inicio há 25 anos, embora tenha havido precursores sem continuidade no início do século XX. Em finais do século passado, a internet torna viável conetar as pessoas interessadas nas Artes Marciais Históricas em diferentes pontos do mundo.

Estamos a falar de disciplinas reconstruídas e, portanto, precisamos de ter acesso a fundos bibliográficos dos séculos XIV, XV ou XVI em diferentes bibliotecas de todo o mundo. A internet facilita muito o nosso trabalho, pois parte desses recursos estám digitalizados. Outros nom, mas nesse caso também podemos entrar em contato com outras pessoas interessadas nas disciplinas para que se acheguem fisicamente à biblioteca para tentar negociar cópias digitalizadas desses textos.

DL – E na Galiza?

DF – O trabalho na Galiza começou há cerca de dez anos, graças a pessoas interessadas na História e nas artes marciais. Foi com muitas dúvidas, pois nunca se tinha feito nada assim no País.

No caso da Gallaecia in Armis, duas pessoas que organizárom aulas no CS do Pichel de Compostela conduzírom à confluência de um grupo mais numeroso e à fundaçom da nossa associaçom em 2008. O crescimento foi lento, mas agora somos na Gallaecia in Armis cerca de 30 pessoas, com três treinos semanais de diferentes disciplinas. Na Galiza há sete associaçons – na Corunha, Vigo, Compostela, Narom, Ourense, Lugo, Ponte Vedra, das quais a nossa é a maior, e que entre todas somam cerca de 150 membros.

Sinceramente, acho que se fijo um trabalho de qualidade e aberto que, junto doutros fatores, tem ajudado à realidade galega de a Esgrima Histórica se tornar bem conhecida internacionalmente. Principalmente no palco lusófono, em que a Galiza é a referência principal.

DL – Precisamente há um evento importante relacionado com isso neste fim de semana, nom é?

DF – Neste fim de semana, vai-nos visitar umha delegaçom da Federaçom Portuguesa de Artes Marciais Históricas Europeias. Venhem para conhecer o nosso local, participarmos numha troca de ideias conjunta e para celebrar umhas jornadas técnicas. Ministraremos aulas de combate com espada longa, com espada roupeira e com espada de mao e borquel.

Há naquele país oito salas que juntam cerca de 200 participantes, e está a haver um trabalho intenso e focado à padronizaçom da disciplina.

am3DL – Para além da relaçom com Portugal, também mantedes umha relevante relaçom com o Brasil.

DF – Temos umha excelente relaçom com o pessoal do Brasil, que está a se iniciar nas Artes Marciais Históricas Europeias. Estám a agir com grande força e já há cinco coletivos federados na recém criada HEMA-Brasil.

Da Galiza estamos a ser um apoio principal para os seus primeiros passos na área, graças ao trabalho cá feito nos anos passados e, claro, graças ao idioma que compartilhamos.

DL – Portanto, a Galiza tem um personalidade internacional bem definida e relevante, com destaque para o ámbito lusófono.

Com certeza. A Galiza tem-se mantido internamente coesa e projetada no ámbito internacional de forma muito potente. No Estado espanhol, há atualmente três organizaçons que juntam os diferentes coletivos: umha é a Federaçom Espanhola de Esgrima Histórica (FEEH), a outra a Associaçom Espanhola de Esgrima Antiga (AEEA) e a terceira é de facto a Federaçom Galega, que junta seis das sete agrupaçons do país. Isso todo fai com que nos principais eventos do mundo a Galiza seja reconhecida como umha entidade diferenciada.

Por outro lado, elaboramos cá os manuais sobre a tradiçom de Artes Marciais no território galego e português. Dado que os textos históricos som complexos, incluem noçons de filosofia, matizes, etc… apenas falantes nativos de galego-português poderám analisar criticamente os documentos históricos. Isso nom estava a ser feito em Portugal ou noutros países lusófonos e entom decidimos fazer nós, galegas e galegos. Um exemplo do trabalho feito cá na Galiza nessa área foi o estudo da escola da Verdadeira Destreza, do Barroco – umha explicaçom vocacionalmente científica do combate.

Na Galiza estamos bastante envolvidos e envolvidas nas atividades organizadas em Portugal e, fruto disso, é o encontro desta semana com o pessoal daquele país. Umha das principais referências galegas nas Artes Marciais Históricas Europeias, Ton Puey, ministra aulas há alguns anos naquele país. Da Gallaecia in Armis, fômos o ano passado e este ano, entom, o encontro é em Compostela.

DL – Existem disciplinas próprias do território galego?

Há polo menos duas: a luita tradicional galega – que chegou como um jogo lúdico até hoje – e o jogo do pau – que tem um aspecto lúdico importante, mas também umha componente de confronto forte.

Embora nom tenhamos um estudo exaustivo sobre estas disciplinas, sim detetamos registos destas disciplinas em pessoas ainda vivas nas comarcas de Compostela, Arouça ou Ourense, de forma que é provável que apareça por todo o território nacional e, aliás, existe em toda a Europa. Na Irlanda, no País Basco, no atual território da Alemanha – em que há tratados medievais em que aparecem técnicas praticadas por pessoas hoje idosas na Galiza. Fai sentido, pois o pau é umha ferramenta acessível a todo o mundo, que nom se pode proibir... qualquer pessoa tinha acesso a esse tipo de arma.

 1090768DL – Há um grande peso da pesquisa histórica.

DF – Pois. E fazemos também estudos de tratados da tradiçom germánica – a mais praticada no mundo, por razons históricas derivadas da enorme releváncia do Sacro Império Romano-Germánico.

Encontram-se cousas muito interessantes quando aprofundamos nos textos antigos sobre as Artes Marciais. Por exemplo, encontramos homens negros a praticar essas disciplinas na Europa ou mulheres a aprenderem a combater com espada e escudo como alunas de frades, o qual aparece nada menos que no manual mais antigo que temos de umha Arte Marcial Europeia – o manuscrito I-33, de finais do séc. XIII ou começos do XIV.

DL – E alguns séculos depois, qual o envolvimento de mulheres nesta atividade?

DF – Francamente, a proporçom é baixa, de cerca de 25% cá na Gallaecia in Armis. Acontece na maior parte das Artes Marciais, ao atuar a ideologia do patriarcado que as vincula aos atributos alegadamente masculinos. Da nossa parte, tentamos trabalhar nisso com diferentes medidas.

Internacionalmente existe umha associaçom dedicada exclusivamente às mulheres nas Artes Marciais Europeias, chamada Esfinges, e no ámbito mundial existe umha atitude muito positiva, acho eu, para favorecer a entrada de mulheres nas Artes Marciais Históricas Europeias. Já de início, foi assumida a sua entrada em igualdade. Assim, a maior parte dos torneios som mistos.

DL – Precisamente sobre torneios e eventos: quais há na Galiza?

DF – O Torneio Torre de Hércules, na Corunha, que inclui aulas com instrutores de diferentes países, constitui também o grande encontro nacional galego. No entanto, também há participaçom de entidades estrangeiras, como portuguesas, catalás ou castelhanas. Um outro torneio é o realizado em Narom na altura do Natal, muito orientado para as pessoas que se estám a iniciar. Existem ainda os encontros galegos, de caráter mais interno, e nos quais os diferentes coletivos do País coesionam técnica e compartilham conhecimento.

Há também eventos potentes noutros países das redondezas, principalmente nos Países Cataláns, o País Basco ou Castela.

DL – Quais planos tendes para o futuro na Gallaecia in Armis, Denis?

am4DF – Queremos consolidar a linha na qual estamos. Este ano abrimos um local dedicado, umha aventura muito exigente para nós. Graças a isso, agora somos um dos poucos locais do mundo dedicados em exclusivo às Artes Marciais Europeias ou, simplificadamente, como dizemos nós às vezes, Esgrima Histórica.

No que di a respeito às disciplinas, queremos assentar as que já praticamos, que som quatro: a Espada de Mao e Borquel – a disciplina mais antiga, a Espada Longa, a Espada Roupeira e o Jogo do Pau.

E embora nom haja previso a abertura de novas linhas, sim queríamos era organizar seminários pontuais de Artes Marciais Europeias diferentes destas. Por exemplo: a defesa pessoal de finais de século XIX, umha disciplina muito interessante que usava guarda-chuvas, bastons e chapeus-coco como elementos de autodefesa; a esgrima cénica... Também queremos abordar a defesa pessoal para mulheres como forma de empoderamento.

Mas o projeto que temos grande vontade de iniciar som as aulas para crianças.

DL – E se alguém quiger se juntar a esses planos de futuro ou conhecer mais de vós?

DF – Pode sempre entrar em contato através das diferentes vias de que dispomos, o coletivo está aberto.


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