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Paulo Marçaioli

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O diabo revisitado

“Sandino – Vida e Obra” – João Pedro Stédile e Mônica Baltodano (Org.)

Paulo Marçaioli - Publicado: Quarta, 09 Março 2016 06:40

Resenha do Livro - “Sandino – Vida e Obra” – João Pedro Stédile e Mônica Baltodano (Org.) – Ed. Expressão Popular.


ALGUSTOSANDINO1“O patriotismo a que você apela é o que me tem mantido rechaçando a força com força, desconhecendo em absoluto toda intromissão do seu governo nos assuntos interinos de nossa nação, e demonstrando que a soberania de um povo não se discute mas se defende com as armas na mão. Firmado nisso é que respondo a você que, para chegar a esse acordo de paz efetivo com o general José María Moncada, impomos como primeira condição, absolutamente indispensável, a retirada das forças estadunidenses sob seu comando de nosso território. Não acredito ser demais informar a você que as propriedades estrangeiras ficarão garantidas por nós, nicaraguenses, que por forças de um governo estranho, porque toda intromissão estrangeira em nossos assuntos só traz perda da paz e ira do povo”. Augusto César Sandino. 

O nome de Sandino é frequentemente remetido à revolução sandinista de 1979, às jornadas de lutas que derrotou a ditadura sanguinária de Somoza que durante 40 anos governara aquele país. A Frente Sandinista de Libertação Nacional, todavia, é uma solução de continuidade de lutas guerrilheiras das quais Sandino serviria como uma espécie de ícone, de referência política. Coube ao principal dirigente político da Revolução Sandinista de 1979, Carlos Fonseca, um trabalho primordial de resgate daquele guerrilheiro camponês que atuou entre os anos 1920-30 num movimento contra a intervenção imperialista norte-americana no país, pela autonomia nacional e contra a espoliação das oligarquias e em defesa dos mais humildes. 

Há de se ter em mente que a posição geográfica da Nicarágua implicou desde os momentos coloniais numa acirrada disputa entre as nações imperialistas sobre o pequeno país– localizado na América Central fazendo divisa ao sul com a Costa Rica e ao norte com Honduras, sua posição possibilitava uma passagem entre os oceanos atlântico e pacífico e seria objeto, principalmente pelos EUA, de debates para construção de um canal aos moldes do canal do Panamá. A economia do país inicialmente se dava em torno do gado em latifúndios até uma revolução que transformou a economia com as plantações de café. 

Sua independência em relação à Espanha deu-se em 15.09.1821 e de certa maneira pode ser comparada a do Brasil: nos dois países a emancipação política foi antes um processo dirigido e acertado pelas elites e, mais importante, não implicando uma real autonomia da nação. Enquanto no Brasil, a independência em relação à Portugal transferiu a dependência econômica do país em relação à Inglaterra, na Nicarágua, os espanhóis saem de cena para uma intervenção decisiva e direta dos norte-americano na vida política e econômica. 

Não se pode esquecer neste contexto a chamada Doutrina Monroe (1823) que formalmente estabelecia a noção de “América para os americanos” mas que na prática busca criar uma justificativa ideológica para imperialismo do norte junto aos países latino americanos – com a revolução industrial do norte dos estados unidos e especialmente após a guerra de secessão, os EUA se estabeleceriam como uma potência econômica em busca de mercados diante de sua indústria, o que envolvia o engajamento mesmo de forças militares e intervenção direta diante da política interna dos países, especialmente daqueles que despertassem interesses estratégicos. 

Qual é o ponto de partida para o início da militância de Sandino? Podemos situá-la desde fins do séc. XIX. Assim, diz no prefácio, Mônica Baltodano

“Nos fins do séc. 19, o regime econômico feudal dá mostras de esgotamento. Os setores populares aparecem com força na guerra dos índios de Matagalpa em 1881, o que favorece as ideias liberais. Em 1893, triunfa a revolução liberal dirigida por Zelaya que empreende algumas reformas inspiradas na Revolução Francesa, o que lhe proporciona certa autonomia. Os Estados Unidos impõem a renúncia de Zelaya por meio da nota Knox e, a partir daí, se inicia a intervenção aberta na Nicarágua, o país passou a ser um protetorado  estadunidense”.

Sandino vem de origem humilde e trabalha com pai como comerciante de grãos durante a  juventude. Sai da Nicarágua em 1921 e passa por diversos países até chegar ao México onde trabalha como mecânico em companhias petroleiras transnacionais. Desde o México recebe notícias de novas intervenções dos yankees e é motivado a regressar à Nicarágua em 1926. Trabalha como operário na mineração e de lá organiza um grupo de companheiros que retira dinamite dos armazéns e toma as armas para se incorporar à luta. Trata-se inicialmente de uma luta entre liberais e conservadores, tendo os liberais como liderança José María Moncada. Em 4 de maio de 1927, como é previsível, uma solução pactuada é feita sob o nome emblemático de “o pacto do espino negro” ou “traição do espino negro” – Moncada aceita render-se com a promessa de eleições vigiadas pelos Estados Unidos e chama os rebeldes a depor as armas. 

Aqui está o início das forças rebeldes sandinistas: Sandino decide não se render, viaja a Segovias, escolhe os mais decididos combatentes (não mais do que 30) e dará início a seu movimento guerrilheiro nas montanhas que perdurará pelos próximos anos culminando na expulsão dos norte-americanos em 1933. 

“Não sou nem sequer militar, nada mais do que um camponês que luta pela autonomia de seu povo

Que haja trabalho e atividade para todos. Sou partidário de que a terra seja do Estado. Nesse caso particular de nossa colonização no coco, inclino-me por um regime de cooperativa.

(....) a natureza inspira e dá força. Tudo nela nos ensina. A cidade nos desgasta e nos reduz. O campo: não para encerrar-se egoisticamente nele, mas para marchar para a cidade e melhorá-la”. 

Sandino representa o início da guerra de guerrilhas rurais e as derrotas que infringiu à Guarda Nacional (que contava com todo apoio do aparato repressivo estrangeiro) expressa a superioridade moral do Exército Defensor da Soberania da Nicarágua. A justeza da causa sandinista diz respeito à forma como a luta nacionalista imbricava questões concretas – a defesa da soberania era do interesse dos mineiros e dos camponeses sem terra. Um outro aspecto a ser tomado em consideração é que a Nicarágua de então não possuía classe operária e sua burguesia ainda era muito residual. Não houve imigração de trabalhadores europeus portadores de ideias socialistas como no Brasil e outros países, fazendo com que as orientações políticas liberais ou conservadoras fossem as únicas que estivessem preponderantes dentre as classes dominantes. Quanto aos oprimidos, constataram de maneira bastante objetiva as interfaces entre a dominação interna e a espoliação imperialista, passando a uma política patriota – o socialismo viria a influenciar mais detidamente o movimento na Nicarágua a partir da influência da revolução cubana de 1959. 

José Martí, Augusto César Sandino e Carlos Fonseca são três representantes da luta pela autonomia da América Latina que se serviram do repertório político de seu tempo. Um traço distintivo de Sandino é sua dignidade, sua moralidade revolucionária, seu ascetismo, sua personalidade incorruptível. 

“Se por força do destino perdesse todo o meu exército, no que não acredito, fique o senhor sabendo, meu estimado amigo, que em meu arsenal de guerra conservo cem quintais de dinamite que acenderei com minhas próprias mãos, colocando-me no centro; e, no cataclismo que produzirá esta explosão, a detonação será ouvida à distância de 400 quilômetros, e aqueles tenham a ventura de ouvi-la serão testemunhas de que Sandino morreu, mas que não admitiu que mãos profanas de traidores e invasores profanassem seus despojos, pois só Deus onipotente e os patriotas de coração saberão julgar minha obra”


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