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cuba robertoCuba - Diário Liberdade - [Roberto Bitencourt da Silva] Cheguei essa semana de viagem à Cuba. Trata-se de um país sensacional, com um povo tão simpático e acolhedor como o brasileiro, que revela traços culturais muito semelhantes, na música, na alimentação, no jeitão descontraído.


Foto: Bitencourt em visita a Cuba, ao fundo a Praça da Revolução. Por Denise Felipe Ribeiro.

Em função das imagens depreciativas e preconceituosas a respeito da nação coirmã da América Latina, que grassam nos principais meios de comunicação brasileiros, me vejo impelido a tecer algumas observações sobre o que vi, li e ouvi no belo país caribenho.

Privilegio impressões que tive do cotidiano, especialmente da cidade de Havana e em conversas com moradores, trabalhadores e estudantes.

Assim, essas observações possuem um caráter fragmentário, mas que procuram destacar algumas características, virtudes, problemas e dilemas vivenciados pelo povo cubano.

Está aí um povo conversador. Os cubanos gostam, realmente, de uma prosa, em nada devendo à nossa boa gente, em particular da querida Minas Gerais.

Um povo curioso com o que se passa em outros lugares, inclusive o Brasil, apresentando-se bastante compreensivo com as diferenças políticas e culturais dos países. Tem muito o que ensinar, mas gosta bastante de aprender.

Uma nação marcada por grande tranquilidade e segurança nos espaços públicos. Subproduto do acentuado igualitarismo social e econômico e da expressiva assistência social e educacional concedida às crianças e aos jovens.

Dá bastante gosto ver a criançada e a juventude com seus uniformes arrumadinhos nas escolas. A educação é oferecida em regime de horário integral. Não existem menores abandonados nas ruas.

À noite os adolescentes circulam tranquilamente nas praças e demais áreas públicas, desfrutando o sabor da idade. Não existe a lastimável condominização da vida urbana, que conhecemos em nossas metrópoles.

Os cubanos são fãs das telenovelas produzidas pela Rede Globo. Ao saberem que sou brasileiro, sempre disparavam ansiosas perguntas em relação ao final da novela “Império”. Demonstram um verdadeiro encantamento com a técnica, a capacidade artística, o humor e certa imagem de prosperidade do Brasil.

Por via das novelas, as questões da violência e da falta de assistência aos jovens e às crianças em nosso país chamam demasiadamente a atenção dos cubanos. Compreensível, já que, entre os países que integram a periferia do sistema internacional, difícil encontrar nação que ombreie com Cuba na importância concedida à infância e à adolescência.

Cumpre destacar que se trata de um país dotado de contradições, menores que as brasileiras, nem por isso mais fáceis de serem resolvidas. O embargo norte-americano e a tímida base técnica e industrial da nação cubana são fatores problemáticos.

As estreitas – e possivelmente inevitáveis – relações comerciais estabelecidas no passado com a Rússia socialista não propiciaram diversificação das atividades produtivas. Um fenômeno que há muito preocupava a Ernesto Che Guevara, um extraordinário ícone político local.

Sob o ponto de vista da base produtiva, o país revela algumas características que tipificam as nações dependentes e periféricas. Suas atividades principais são o açúcar, o tabaco, o rum e o turismo. Contudo, possui grande domínio técnico-cientifico em tecnologias associadas à saúde.

Restringindo o comércio exterior cubano, o bloqueio econômico norte-americano implica em encarecimento dos bens e insumos importados. O governo dos EUA, entre 2009 e 2016, aplicou significativas multas às empresas norte-americanas que fizeram negócios com Cuba, alcançando soma superior a 14 bilhões de dólares (Granma, 30/01/2016, pág.5).

Um problema que eleva demasiadamente os preços de diversos bens de consumo pessoal e familiar. Fonte de descontentamento entre diversas pessoas com as quais tive a oportunidade de conversar, que não possuem acesso a produtos tidos como triviais para os parâmetros brasileiros, mesmo para um trabalhador humilde do nosso país.

Visando superar tal dificuldade, o governo cubano tem implementado políticas de atração do investimento externo, principalmente por meio da criação de joint ventures com empresas espanholas e francesas.

Segundo notícia do jornal Granma (30/01/2016, pág.1), o Partido Comunista de Cuba, em 2011, decidiu “fazer da inversão” estrangeira “uma base principal do desenvolvimento”, com o objetivo de construir um “socialismo justo, sustentável e próspero”.

Todavia, há distorções sociais claras, estimuladas pelo incentivo ao turismo enquanto fonte de divisas. Obter CUCs (a moeda conversível ao dólar e, principalmente, ao euro) permite a aquisição de bens de consumo iluminados pela propaganda das corporações multinacionais e que propiciam mais conforto individual e doméstico.

Com isso, não foram poucos os casos em que me deparei com profissionais altamente qualificados, que deixaram setores como o ensino e a saúde, para dedicarem-se ao setor de turismo. A contradição gerada não é pequena, pois causa certa insatisfação com o que alguns disseram tender à promoção de um rebaixamento da qualidade da educação e da saúde.

As distâncias sociais não são pronunciadas, variando ao redor de 6 a escala entre os menores e os maiores rendimentos da população. Estes, alcançados por médicos, dirigentes de empresas estatais e professores com titulação mais alta.

Os salários variam, aproximadamente, entre 250 e 1500 pesos cubanos (moeda não conversível), o que corresponde a cerca de 10 a 60 euros.

A moradia é assegurada a todos, que detém uma espécie de propriedade familiar. A alimentação é subvencionada pelo Estado, assim como a educação e a saúde são gratuitas. Artes e entretenimento, em boa medida, também subvencionados, com amplo acesso.

O calcanhar de Aquiles, como mencionado anteriormente, é o acesso a bens elaborados não produzidos no país. Aí o CUC torna-se um atrativo especial. O contraste com o padrão de consumo dos turistas e com conhecidos e familiares de Miami também reforça certo descontentamento em face do escasso poder de compra de bens importados.

O “jineterismo”, isto é, práticas que vão de pequenas, mas não violentas, malandragens à prostituição é visível, particularmente em alguns trechos na área turística de Habana Vieja. Diga-se, fenômeno que, de forma alguma, envolve crianças e jovens.

Outra variável que suscita distorções na sociedade cubana é a estratégia norte-americana de estímulo à imigração, por intermédio da política dos “pés molhados” (Granma, 29/01/2016), em que são reservados direitos que nenhum latino-americano possui ao emigrar para os Estados Unidos.

Ademais, há lei norte-americana especialmente voltada à emigração de médicos cubanos, nos países em que atuam por conta das parcerias com o Estado cubano. São fortes atrativos, que guardam o potencial de minar os laços de solidariedade coletiva.

O poder do dinheiro, do comércio, como diriam Marx e Engels, são vetores poderosos para derrubar qualquer muralha da China. Afetam, precisamente, a vida cotidiana, implicando na disseminação de possíveis hábitos, costumes e expectativas das pessoas.

No entanto, para mobilizar categorias do antigo debate promovido por Che Guevara, não são apenas os “estímulos materiais” que marcam o horizonte dos cubanos. O idealismo, ou o guevarista “estímulo moral”, também se encontra presente e com força.

Foi bastante perceptível no evento promovido por estudantes da educação básica e universitária em homenagem a José Martí, personagem merecedor de enorme reverência em diversos lugares de memória nos espaços públicos.

A Marcha de las Antorchas, em que ocorre um desfile estudantil em homenagem ao ícone que simboliza o ideal de soberania e libertação nacional, ocorrido ao final de janeiro, foi emocionante. Uma multidão que ecoava cânticos a favor da Revolução socialista e da defesa do interesse nacional.

Senhores com idade mais avançada bradavam, com empolgação nas ruas, o nome do Comandante Fidel.

Estudantes do curso de História da Universidade de Havana, com os quais tive a satisfação de trocar ideias, exaltavam a Revolução, afirmando que “antes os negros não tinham acesso à universidade”.

Os negros, me informaram, inclusive, eram proibidos de circular no bairro cujo nome é autoexplicativo: Vedado. Uma localidade aprazível, que antes da Revolução liderada por Fidel Castro era habitada somente por ricos. Hoje, nele moram trabalhadores, também, negros.

Ademais, simpático e erudito médico, com quem tive a oportunidade de conversar mais longamente, explicou-me haver certos contrastes geracionais, particularmente envolvendo os adultos entre 30 e 50 anos, de um lado, e os mais velhos e mais jovens, de outro.

O referencial civilizatório norte-americano na geração que passou pelo duro “período especial” dos anos 1990, disse-me, é forte. Mas, de acordo com o médico, ele não sai do país porque gosta do que faz, se sente importante e prestigiado, apesar de receber muito menos do ganharia se emigrasse.

Reforçou sua opinião, bem ao estilo preconizado pelo ideário guevarista, que o “importante na política, veja, não se esqueça, é a igualdade. A igualdade sempre”.

Em franca convergência com esta dimensão moral, no período em que lá estive, encontrou-se em visita à Cuba o ex-presidente e senador uruguaio, Pepe Mujica. Em conferência na Casa de las Américas, assim como na televisão, Pepe ressaltou a necessidade de as esquerdas e os povos valorizarem aspectos da vida não submetidos ao universo do consumo material.

Em resumo, o que se pode dizer é que a dialética entre os estímulos materiais e morais reflete com certa nitidez as contradições sociais e econômicas do país. Só o povo e o governo cubanos têm capacidade e autoridade para definir como combiná-los, ou o que deve ou vai prevalecer com o tempo.

Encerro essas ponderações com a lembrança de diálogo travado com um garçom, que demonstrava bastante curiosidade sobre o nosso país.

Ao dizer-lhe que o Brasil era um país diversificado, cultural, étnica e geograficamente, salientando que era territorialmente imenso, aproximadamente do tamanho da Europa menos a Rússia, ele silenciou e ficou pensativo. Não disse mais nada. Não sei em que pensava.

Mas, hoje, posso afirmar que, ao visitar Cuba, um país pequenino, com poucos recursos, que fez e faz muito, também fico muito pensativo sobre nossas enormes possibilidades enquanto sociedade mais justa, solidária e soberana. Igualmente sobre as inconsequentes, conservadoras e subalternas escolhas que há décadas temos feito.

Roberto Bitencourt da Silva é historiador e cientista político brasileiro. 


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