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100915 annaPaísos Cataláns - El Diario - [Tradução do Diário Liberdade] Anna Gabriel (Sallent, 1976) é uma das pessoas que melhor conhecem a CUP por dentro, em várias de suas vertentes.


Pelo lado municipalista, a principal pata da formação, foi vereadora de sua vila desde 2003 a 2011, primeiro no governo e depois na oposição. Pelo lado parlamentar, Gabriel chegou com o desembarco dos primeiros três deputados da CUP no Parlament, em 2012, onde foi assessora do grupo. Com uma experiência de 12 anos, ocupa o número dois da lista de seu partido por Barcelona, em um momento em que a CUP terá que tomar decisões difíceis se, como se espera, tem as chaves do Governo.

Após 3 anos na retaguarda do Parlament, esta legislatura entrará como deputada. O que você aprendeu durante este tempo da insituição?

Em primeiro lugar, vi o triste papel que fazem as esquerdas no Parlament. A esquerda acumula informação especializada como garantia de se tornar imprescindível na instituição. Também sobre sua relação clientelar com as lutas e entidades sociais, o que me tem incomodado muitíssimo. A dinâmica parlamentar permite fazer a “carta aos Reis Magos” enquanto está na oposição, tenhas feito que tenhas feito quando estavas no Govern. Mas talvez a coisa mais clara sejam os limites de uma instituição como a Câmera catalã, com poucas atribuições e que, das que tem, todas executadas pelo Govern, sendo que o Parlament pode fazer pouco sobre isso.

Fala de "as esquerdas". Inclui a CUP aí?

Pois é, também tem caído nestes vícios. É mais uma lição importante: é fácil entrar nestas dinâmicas e nunca serão suficientes os alertas para não nos convertermos em tal coisa. Tem sido um braço de ferro que mantivemos durante toda a legislatura, mas certamente não o fizemos bem tudo.

Repetem que não vão ao Parlament para eleger um presidente. Mas um president vai ser eleito. A pergunta que faz todo mundo é se permitirão que Artur Mas (independentista de direita) governe.

Nos municípios já nos deparamos com situações assim e as soluções têm sido diferentes, mas o comum denominador tem sido decidirmos de forma coletiva, aberta e participada. Eis a proposta para 27 de setembro (data das eleições plebiscitárias). A análise da negociação será bem mais complexa do que um sim ou um não, terá muitas coisas que negociar e dependerá da força com que vá cada qual. Mas temos dito de forma repetida: não temos nenhuma intenção de eleger Mas, se tal supõe uma reedição das políticas que têm sido feitas até agora.

Mas para vocês, eleger Mas, é uma linha vermelha?

Sim, para mim é. É muito difícil julgar que todo este movimento popular e transbordamento dos partidos que tem havido acabe por servir para eleger Mas. Não faria sentido. Agora há um acordo fechado e me parece normal que digam que é o que farão, mas estou certa de que, chegado o momento, esse acordo de Junts pel Si também seremos capazes de o transbordar. Será largamente partilhado que uma pessoa identificada com as privatizações, a segregação na escola e não localizada em absoluto no ambito da desobediência institucional, como Mas é, não é o melhor president da Generalitat.

Também se falou na CUP de apoiar o Govern de concentração mas não entrar. Isso não é se esconder?

Mas de fato, o que quer dizer “governo de concentração”? Será um governo de uns determinados partidos. Ora bem, se for um governo para propor um não-pagamento da dívida, parar os despejos, para repensar as políticas públicas para fazer frente à quantidade de mulheres mortas, para devolver a previdência a mãos públicas... se for um Govern que está pensando nisso, evidentemente nos proporemos apoiar. O que não faremos será apoiar um governo que recupere as políticas que se fizeram até agora. Não é isto o que viemos fazer.

O que estão dizendo muitos independentistas é que todo isso que propõe não pode ser feito porque a Catalunha não tem um Estado.

A geopolítica está organizada a partir dos Estados, e isso lhes dá uma potência bestial. É evidente que há um monte de coisas que se fazem a partir dos estados, mas também que se fazem políticas públicas a partir de muitos outros espaços. A CUP acreditou historicamente no âmbito local e temos desobedecido desde aí para melhorar as condições de vida das pessoas. Isto demonstra, não só que pode ser feita política por fora do Estado, mas que pode ser feita por fora das autonomias, a partir de um terreno idôneo para fazer coisas que acham uma nova institucionalidade. Não estamos nem aí quanto ao que o Estado afirme, mas não só o espanhol, como também, se em um dia tivermos um Estado catalão que impulsione políticas que considerarmos ilegítimas, iremos desobedecer na mesma a partir de espaços como o municipalismo.

100915 agabA CUP estava disposta a fazer uma lista conjunta sempre que fosse sem políticos. Por que?

Todo este período posterior ao 9-N tem sido uma sucessão desordenada de ideias e propostas que não se acaba de saber se foram bem refletidas ou improvisadas. Falava-se era, de um lado, de fazer o referendo que não nos deixaram fazer, e doutro sobre essa obsessão de que tivesse reconhecimento internacional. Da CUP, a proposta era que, para fazer umas plebiscitárias, os partidos abandonassem e deixassem passagem a uma candidatura cidadã, como forma de dar o protagonismo a quem o devia ter. Suponho que para então as conversas sobre Junts pel Sim estavam muito avançadas.

Como encaixa o fato de se definir como uma formação asamblear e fazer umas primárias com uma "candidatura fechada" metida à última hora?

As pessoas podiam eleger entre a lista proposta pelo secretariado nacional ou pelas pessoas uma a uma. E de fato teve mais de 30% da militância que não elegeu a lista. O que se passou foi que no momento em que se viu que começava a se formular este espaço amplo que se chamou "Espai per a Ruptura", é o momento que estamos imersos no âmbito municipal, e nossa gente estava pendente disso. Para quando quisemos dar pelo processo das assembleias abertas em que se propunham os nomes de candidatos às eleições do Parlament estava muito avançado. Ali você podia ser proposto sem você saber. Quando fomos falar com eles um a um para lhes explicar que estavam em umas primárias, muitas pessoas disseram que não, por motivos diversos, e outros nos diziam que tudo bem, mas que com quem e a fazer quê. O que se começou a ver é que à hora de preparar equipes, este sistema não era o melhor. Corríamos o risco de que muita gente pulasse da lista eleita, e ante isso o secretariado nacional envia uma proposta consensualizada para que isso não acontecesse, mas se segue deixando que seja a militância a que considere se quer optar por esta lista ou por eleger cada candidato separadamente.

Antonio Baños acusou Mas de ter feito chantagem. Estão as entidades cooptadas?

Mas faz chantagem a quem deixa fazer. A nós não no-la fez. Se fez a alguém, que não sei, isso fala de sua própria debilidade. Acho que isto é algo sobre o qual devemos ficar alerta. A garantia de qualquer processo popular é precisamente que seja popular e não se delegue em partidos ou lideranças pessoais. E já vão uns quantos avisos do que significa delegarmos o processo neste tipo de coisas.

O controle de Convergência sobre as entidades é agora muito maior do que há dois anos.

Para já, eu não sei se podemos seguir falando de Convergência. Acho que agora há “convergências” e que dentro há uma verdadeira heterogeneidade que faz com que aconteçam coisas que não se acabam de entender a partir dos esquemas clássicos. Nesta reconstrução do espaço de CDC (Convergència Democrática da Catalunya, principal partido tradicional da direita nacional catalã) há momentos em que parece que as entidades perdem autonomia, mas ao mesmo tempo que pessoas chave de aquilo que vinha sendo CDC desaparecem. Sem cair em uma leitura demasiado inocente, sim acho que isto abre algumas oportunidades que as pessoas excluídas do poder devemos utilizar para que CDC se fragmente e perca quotas de poder.

Você acredita no roteiro de Junts pel Si e em que a Catalunha será independente em 18 meses?

Eu não acredito é que alguém diga que quer ser independente na UE. O tema não é se em 8 meses, 12 ou 16. O tema é seu conceito de independência. As grandes palavras, como independência, que deveríamos estar enchendo de conteúdo, estão ficando a cada vez mais vazias. Porque parece que independência é equiparável a montar um Estado por fora do Estado espanhol, mas dentro do enquadramento da União Europeia. Isso não é independência. Ou dizer "um processo constituinte popular", quando há 25% de pessoas sem as necessidades cobertas. Não o fará, um monte de pessoas não estarà nem aí para esse processo constituinte se não tem que comer. Se quer que seja popular para valer, primeiro tem que acabar com a necessidade, e para isso fazem falta recursos do não-pagamento da dívida, que não pode deixar da pagar se não tem claríssimo que terá que desobedecer.

Portanto são partidários de sair da UE.

Sim. Se você quer um sistema alternativo ao capitalista e aspira para valer a isso, você tem de ir fora do euro e da UE. Mas também digo: nós temos que ter muito cuidado com não banalizar nem fazer demagogia com este assunto. Primeiro, no sentido de não fazermos ver que temos um roteiro claro sobre isto, porque não é verdade, estaríamos enganando as pessoas. E segundo, porque não podemos esconder que isto comportaria seguramente custos e sacrifícios.

Uma das críticas mas recorrentes que fazem à CUP a partir da esquerda é serem pouco beligerantes com Convergência.

Determinada esquerda fazm-nos muitas críticas, mas acho que esta é uma das menos fundamentadas. Estão obsesionados com identifcar o processo com Mas e, portanto, como nós estamos com o direito à autodeterminação e a ruptura com o Estado espanhol, também temos que ser isso. David Fernández abraça-se com Mas, portanto a CUP é a burguesía catalã. Se isso dá votos, parabéns e que os deputados vos prestem. Mas isso esbate todos os matizes de um debate onde a esquerda tem, ou deveria ter, muito para dizer. No momento político do 9-N tinha-se que fazer algo, não fazer nada era o último que podíamos fazer. Além do mais, não fazer nada era o que estava propondo essa esquerda que tanto nos critica, e nós não vamos dizendo que fazem o jogo a Rajoy, porque não seria justo.

A CUP teve uns resultados muito bons nas eleições municipais, em muitos casos em coalizão com Podemos. Pensou em repetir esta aliança para o Parlament?

Sim, e de fato esta leitura é prévia às municipais. A construção da unidade popular não é a construção de partido. O do municipalismo há um campo muito aberto para isto. A CUP fez a leitura interna de que era necessário construir espaços que ultrapassassem os limites das próprias siglas, e por isso se fazem as Trobades (encontros) per a Unitat Popular. Também com Procés Constituent, pois estávamos falando desde o princípio e acho que se não existisse Podemos seria muito difícil que não nos tivéssemos entendido. Suponho que a aliança com a CUP não estava no roteiro de Podemos, e veremos o que sai, porque eu duvido que de Catalunha Si que es Pot saia nada demasiado interessante. E acrescento, é uma lástima, porque a CUP estava perfeitamente preparada para ir além dela própria, que é o que fez no âmbito local em muitos sítios. Não digo com isto que seja culpa dos outros, certamente nós também não soubemos fazer o suficiente.

anna2Também não entrava no roteiro da CUP pactuar com formações como Iniciativa.

O espaço da esquerda social-democrata, por dizer de alguma forma, não tem futuro, e por isso se está tendo que reinventar e repensar. Igual que Convergência fez. Eu acho que não nos fazia falta a esquerda social-democrata dos últimos 7 ou 8 anos, vista a capacidade do sindicalismo alternativo e as lutas sociais de gerar mobilizações, e as possibilidades disto, dava para construir um discurso potente que pode ir desde a esquerda radical até o anticapitalismo. E a ideia de um discurso assim não é tanto incorporar ou substituir a social-democracia como a ultrapassar.

Se a CUP soube ler isto, por que lhe está custando tanto ultrapassá-la?

Não sei se soubemos ler demasiadas coisas [Ri]. Nós não somos um think-tank, não temos intelectuais, não temos professores de universidade que dedicam recursos públicos para desenhar estratégias com que crescer eleitoralmente... se alguma coisa não somos é gente que se dedique a ler a realidade para nos adiantarmos aos acontecimentos. O que fazemos é trabalhar. Ora bem, se há algum momento bom para fazer um discurso anticapitalista descomplexado, é este.

Com pessoas como você ou Busqueta, parece que a CUP apostou definitivamente no anticapitalismo.

Em um momento como o atual, com o atual sistema econômico, é evidente que todo isso que dizem as esquerdas que farão quando entrarem a governar não pode ser feito. E só há que olhar a Grécia. Com determinadas instituições e enquanto se quiser ser do clube de banqueiros em que se converteu a União Europeia, porque isso é no que deu, é evidente que as necessidades da maioria da população não estão em sua ordem de prioridades. Com isto, evidentemente, não ganharemos as eleições.

Fotos 1 e 3: Enric Català

Foto 2: Nacio.cat


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