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886562627 06fc8e1f5f oVoltairenet.org - [Thierry Meyssan]Conforme o tempo passa, as declarações do Presidente Erdoğan afastam-se cada vez mais dos valores universais. Enquanto no Ocidente se começa a emitir críticas, em surdina, do que se convencionou chamar a «deriva autoritária» de Ancara, Thierry Meyssan prossegue a sua narrativa sobre a instauração de uma ditadura baseada na supremacia da etnia turca e dos «valores islamistas».


Foto de openDemocracy /CC by-sa/2.0/

Sendo o governo turco o recordista mundial da prisão de oficiais superiores, de advogados e de jornalistas, esperava-se muito do discurso que o presidente Recep Tayyip Erdoğan devia pronunciar a 5 de Abril de 2016, no Palácio Branco, por ocasião da Jornada do Direito.

O Sr. Erdoğan atirou a torto e a direito perante uma plateia de juristas silenciosos. Segundo ele, sim, as estruturas profissionais devem ser pluralistas. No entanto, este objectivo não poderá ser atingido sem ter previamente limpo a Ordem dos Advogados da influência de grupos partidários, ou seja dos adversários políticos.

Os actuais problemas do país são consequência da decadência dos «valores islâmicos» e da opressão estrangeira da qual ele foi vítima, acrescentou.

Reduzindo a nada o Tribunal que decretou a ilegalidade da construção do Palácio Branco num parque nacional protegido, o Presidente Erdogan denunciou as forças estrangeiras que organizaram as manifestações do parque Taksim Gezi, em 2013, com o pretexto de salvar árvores, que deviam ser derrubadas para construir um centro comercial. Ridicularizando os seus opositores, ele fez questão de recordar à sua atónita audiência que, durante o seu mandato como presidente da câmara (prefeito-br) de Istambul, «ele não tinha plantado milhões de árvores» na cidade, mas, sim «milhares de milhões» (sic) e, portanto, não tinha lições a receber de ninguém.

O Presidente salientou, então, que os inimigos da Nação turca não desarmam. Eles tomaram, actualmente, o contrôlo de um partido político ligado aos terroristas. É por isso que será lançado um processo para destituir das suas funções os eleitos deste partido indigno. Todavia, exclui-los do Parlamento não bastará para levantar a Nação turca. Isto só será possível privando da sua nacionalidade todos aqueles que apoiam este partido e, portanto, o «terrorismo», concluiu perante uma glacial frieza.

Para se manter no poder, o Presidente Recep Tayyip Erdogan manipulou grosseiramente as eleições de Novembro de 2015. No entanto, numerosos pequenos partidos políticos uniram-se no seio do HDP e obtiveram mais de 5 milhões de sufrágios (ou seja 10%). Eles têm como objectivo promover a igualdade de direitos para todos os cidadãos, qualquer que seja a sua etnia, a sua religião, ou seu sexo ou a sua orientação sexual.

A destituição dos eleitos e a privação de cidadania de 5 milhões de cidadãos violam as normas e os Tratados internacionais. No entanto, nenhuma personalidade internacional reagiu às declarações do «presidente» que visam, na prática, a privar da sua nacionalidade os curdos e os cristãos. É que a União Europeia, obcecada pelo seu ódio à República Árabe Síria, concluiu um acordo com Ancara para, ao mesmo tempo, financiar a guerra e controlar os fluxos de refugiados que ela provoca.

Dois dias mais tarde, a 7 de Abril, o Presidente Erdogan recebia os dirigentes da Polícia Nacional. Depois de ter pronunciado o elogio das Forças da ordem, e de ter denunciando o mal que lhe fizeram as «instituições paralelas» [isto é, os seguidores de seu antigo aliado Fethullah Gülen], ele lembrou que apenas a sua definição de «terrorismo» é justa e aceitável; uma definição que bem se poupou de explicitar, mas que designa todos aqueles que recusam a dominação pelos Turcos étnicos.

«Todos aqueles que participam neste contra-senso, recusando, por isso, a chamar um terrorista, de terrorista, são responsáveis por cada gota de sangue vertida», declarou ele. E, é lembrar que se ele não tivesse lançado uma vigorosa política anti-terrorista após o atentado em Suruç, a 20 de Julho de 2015, o terrorismo se teria espalhado por todo o país, concluiu.

Acima de tudo, como não reconhecer a grandeza e a generosidade da Turquia, uma Nação sem igual, que abriga 3 milhões de refugiados? E, com que direito a União Europeia exige que Ancara aplique o acordo concluído a 18 de Março, quando Bruxelas ainda não cumpriu a sua parte do contrato, a dispensa dos vistos Schengen para os cidadãos turcos?

Desta vez, o auditório rendeu-se. Ninguém se atreveu a lembrar que o atentado de Suruç não apenas não era da responsabilidade do HDP, mas, que este é que foi o alvo do mesmo. Ninguém ousou a apontar que 3 mil milhões de euros pagos por 200 migrantes recebidos de volta, não é exactamente um desequilíbrio em desfavor da Turquia.


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