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seleção-brasileiraBrasil - Ninja - [Vladimir Cunha] Eu acho muito interessante quando a Realidade Consensual leva um golpe tão certeiro como o de ontem. Isso revela o quanto uma parte da população brasileira ainda padece de uma certa imaturidade cognitiva. Nem sempre por sua própria culpa, é bom que se diga.


Foram seis meses de percepção oscilante. Ora manipulada no sentido de que a Copa, do ponto de vista executivo, seria um fracasso. Ora, do ponto de vista publicitário, ao esconder do torcedor médio, aquele que não entende muito de futebol e vai para o estádio gritar que é brasileiro com muito orgulho e com muito amor, que o fracasso poderia estar, justamente, na nossa Seleção. Não só dentro de campo, mas também no terreno pantanoso dos contratos, acordos e conchavos envolvendo a CBF, a Fifa e as principais empresas relacionadas ao evento.

Falo isso porque é certo que, depois da goleada de ontem, é de se esperar um realinhamento ontológico na percepção que o brasileiro tem do próprio país. Como se a nossa paisagem sensorial dependesse exclusivamente do consenso simbólico criado pela publicidade, financiado pela Coca-Cola e pelo Itaú e administrado pela Rede Globo, pela revista Veja e pela CBF.

Nem antes e nem depois da Copa houve responsabilidade na forma como as suas contradições foram apresentadas à população brasileira. Ronaldo ora sentia vergonha de seu país, ora sentia orgulho. Ana Paula Padrão ameaçou ir embora para depois ficar. Jabor disse que fracassaríamos como Nação e não tocou mais no assunto. Rodrigo Constantino passou vergonha ao enxergar na logo do Mundial uma conspiração comunista.

Obviamente todos esses sicários da plutocracia foram silenciados por seus patrões quando surgiu a necessidade de se fabricar um outro tipo de consenso. Desta vez publicitário. Inflacionando o talento dos jogadores, escamoteando a burrice de Felipão e depositando, por questões puramente financeiras, todas as esperanças nos pés de Neymar. Algo que o Fabiano Tatu, em sua campanha solitária, vinha alertando desde o começo.

Por isso, Zuñiga não rompeu apenas uma vértebra do jogador brasileiro. Ao tirá-lo de campo, e desestabilizar jogadores que já eram mal-preparados psicologicamente (onde já se viu ficar chorando porque tem que jogar bola?), sem querer ele desfez toda uma cadeia produtiva, uma fábrica de sensos comuns, firulas e obviedades criada, na iniciativa privada, para faturar o máximo de dinheiro no menor espaço de tempo possível. E, na política, para disfarçar, em ano de eleições, as contradições mais profundas e urgentes de nosso país.

Pega de surpresa, parte da torcida, justamente aquela que depende que alguém lhe diga como pensar, canalizou o seu desassossego para a presidente Dilma Roussef e o Partido dos Trabalhadores, que vinham surfando na boa onda que surgiu quando a Copa caiu nas graças dos brasileiros e dos turistas estrangeiros. A quantidade de memes com Dilma e Lula e de comentários racistas e raivosos de ontem diz muito a respeito desse sentimento.

Votar em Aécio porque perdemos de 7 x 1 para Alemanha é tão improdutivo quanto votar em Dilma caso o Brasil fosse campeão. No entanto, a surpresa com o placar de ontem - que, para o torcedor médio, nem devia ser tão surpreendente assim caso ele não se deixasse levar pelas lorotas de Galvão Bueno, Luciano Huck e sua patota, incluindo aí o tenebroso Thiago Leifert - assinala a necessidade de pensarmos melhor a forma como lidamos não só com o futebol, mas com toda a obscura teia de poder e dinheiro que se formou ao seu redor. Um patrimônio nacional cujo alcance e a paixão que desperta foram, infelizmente, sequestrados pela publicidade, pelos partidos políticos e pelas grandes corporações de comunicação.


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