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WorldMusicAngola - Rede Angola - [Aline Frazão] Não sei se a polémica etiqueta World Music, ou Músicas do Mundo, saiu dos corredores de uma universidade americana ou de uma qualquer reunião misteriosa entre agentes culturais europeus.


Lendas urbanas à parte, o que é certo é que a categoria é usada há décadas para identificar a prateleira das lojas de discos onde podemos encontrar BongaRavi Shankar Gilberto Gil. O que é que estes artistas têm em comum? A discussão é quente e tem várias pontas, todas elas interessantes. Mais uma vez, é importante que esse debate se desloque também para este lado do equador, pois diz-nos respeito.

Esta semana, no jornal português Público, António Pinto Ribeiro retomou o debate com o artigo “Músicas do mundo ou músicas de fora da Europa?”. Nunca é de mais fazer as perguntas incómodas e pensar até que ponto é que o conceito de World Music contribui para as perversas caricaturas culturais, carregadas de exotismo e preconceito, na longa história da simplificação das culturas que se encontram fora do eixo norte-atlântico, entre a Europa e os Estados Unidos.

Em primeiro lugar, há a crítica inevitável a qualquer etiqueta. Apesar de necessárias para a compreensão, as etiquetas tendem a simplificar demasiado. É assim que encontramos Ravi Shankar ao lado do Bonga na estante de uma discoteca, apesar de fazerem estilos de música diferentes, serem de países diferentes e falarem línguas diferentes. Se o Bonga surgir ao lado da Cesária Évora ou do Ali Farka Touré, ainda corremos o risco de que os mais desinformados pensem que estes artistas são da mesma nacionalidade: a africana.

Festivais, prémios, editoras, agências: toda uma rede de estruturas foi criada à volta das Músicas do Mundo, permitindo, faça-se justiça, que muitos artistas das chamadas periferias geográficas (leia-se, de fora da Europa e EUA) pudessem construir uma carreira internacional e levar as nossas culturas aos quatro cantos do mundo, conquistando um público fiel e apaixonado. Abriu-se uma oportunidade, um espaço internacional sustentável e rentável dentro do mercado musical, para o blues do deserto, para a cumbia, para o samba. Qualquer um de nós fica contente ao ver um cartaz do Waldemar Bastos numa rua de Nova Iorque. E se ele ganhar um prémio, acaba por ser positivo para a cultura angolana em geral. Mas qual é o reverso dessa moeda?

Se olharmos para África, o sucesso da World Music criou uma imensa diáspora de músicos virtuosos que trocaram as suas cidades e aldeias por Paris, Londres ou Nova Iorque. Alguns deles são mais conhecidos fora do que nos seus países de origem. Enquanto ganham prémios além-fronteiras, as rádios locais repetem a lógica comercial generalizada, tocando os sucessos Pop-Global e adaptações nacionais das mesmas fórmulas, infelizmente orientadas muitas vezes para o consumo descartável da música.

O debate acerca do termo World Music faz-me pensar, por um lado, na dependência profissional que muitos artistas têm de um circuito afastado da origem, afastado geograficamente do contexto onde essas músicas nasceram. Nos nossos países, padecemos de uma enorme carência de estruturas culturais que se dediquem a desenvolver esse espaço, salas de espectáculos, estúdios de gravação, agências de gestão de carreiras, editoras, distribuidoras, enfim, lugares de encontro entre o público e os músicos, os músicos do nosso mundo. É, portanto, urgente criarmos as nossas próprias redes, para que, num futuro próximo, um artista queniano venha tocar a Angola, no meio da sua tournée subsariana. Para que os artistas europeus, porque não?, disputem cartaz nos nossos festivais e ponderem, quem sabe, mudar-se para Kinshasa.

Por fim, desde o ponto de vista artístico, existe o perigo de nos definirmos de acordo com essa etiqueta que não foi criada nem por nós, nem para nós. No meio do vaivém criativo, nesse diálogo entre raiz e satélites, alguns músicos poderão ficar reféns das espectativas criadas pelo rótulo World Music, que tentará de alguma maneira defini-los para que pertençam ao circuito. Mas enquanto não assumirmos o nosso papel na construção dinâmica e criativa das nossas identidades, enquanto não formos nós próprios a nos descrevermos, a escolhermos em que prateleira queremos estar, como artistas e como culturas, não seremos livres.


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