Na Venezuela, uniu as massas em torno do governo Maduro e da experiência bolivariana, reforçou as milícias populares e ainda dividiu e enfraqueceu a oposição conservadora. Na Cimeira das Américas o desastrado decreto isolou os EUA, obrigou Obama a negar vergonhosamente a ameaça que fizera e ainda ouvir o corajoso discurso de Raul Castro denunciando o histórico de golpes do imperialismo contra Cuba e outros países na região e marcando os limites da aproximação entre os dois países.
O PODER POPULAR: A conjuntura mundial de aprofundamento da crise do capitalismo aponta para o avanço dos atos imperialistas contra a soberania dos povos e para o crescimento do pensamento conservador, com a eclosão até de manifestações fascistas. Vivemos hoje mais claramente a dicotomia entre socialismo e barbárie?
IVAN PINHEIRO: Essa dicotomia, evidenciada por Rosa Luxemburgo há um século, é de uma atualidade angustiante. Quanto mais se aprofunda sua crise, o capitalismo precisa retirar mais direitos sociais e trabalhistas e, para isso, precisa cada vez mais de repressão às lutas populares e proletárias e de restrição à liberdade de organização política e sindical. O agravamento das contradições interimperialistas radicaliza a disputa por matérias-primas, mercados e posições estratégicas entre as potências.
A barbárie já é uma realidade, com milhões de mortos e mutilados pelas guerras imperialistas, sobretudo no Oriente Médio e na África. Basta ver a catástrofe que atinge milhares de vítimas da violência nessas duas regiões, muitos morrendo nas águas do Mediterrâneo, fugindo do caos que a "civilização ocidental" provoca em seus países, em nome da "democracia", e o rastro de sangue contra populações civis e a destruição de patrimônios da humanidade provocados por organizações terroristas criadas como falsas bandeiras da ação do imperialismo.
Preocupam-nos as tendências fascistizantes, que vicejam mais na Europa, onde a crise do capitalismo é mais acentuada. Como diz nossa camarada Zuleide, o socialismo não é uma fatalidade, mas uma necessidade. Diante do acirramento da luta de classes, urge que o sindicalismo classista e o movimento comunista internacional revolucionário reforcem sua articulação e unidade de ação, superando e derrotando a atual hegemonia das organizações reformistas, que semeiam ilusões de que é possível humanizar e democratizar o capitalismo.
O PODER POPULAR: Na América Latina, o governo Obama, ao mesmo tempo em que acena com a liberalização das relações com Cuba, ameaça intervir militarmente na Venezuela. Como se explica esse quadro?
IVAN PINHEIRO: A aproximação do governo norte-americano com Cuba não se inspira em razões nobres. Há uma motivação estratégica, de olho na reestruturação econômica em curso na Ilha. Os EUA precisam disputar influência e mercado com capitais brasileiros, russos e chineses e alimentam a obsessão por um abraço da morte, agora "suave", no socialismo cubano. Há também uma tentativa de simular que o imperialismo norte-americano "não é mais o mesmo", tornando-se um vizinho amigo, com o objetivo de se aproximar de governos e povos que lhe são hostis. A dupla moral fica clara quando, ao mesmo tempo, os EUA insistem em desestabilizar a Venezuela e reforçam sua presença militar no continente.
Em relação à Venezuela, o cínico decreto que considera este país uma ameaça à segurança nacional dos EUA foi um ato de desespero, após mais uma frustrada tentativa de golpe contra o governo bolivariano, com vistas a se apropriar da extraordinária reserva de petróleo venezuelana e destruir o processo de mudanças mais avançado na América Latina, o que impactaria negativamente a resistência dos povos da região e a correlação de forças no tabuleiro mundial.
Creio que o tiro de Obama saiu pela culatra. Na Venezuela, uniu as massas em torno do governo Maduro e da experiência bolivariana, reforçou as milícias populares e ainda dividiu e enfraqueceu a oposição conservadora. Na Cúpula das Américas, o desastrado decreto isolou os EUA, chegando a obrigar Obama a vergonhosamente negar a ameaça que fizera e ainda ouvir o corajoso discurso de Raul Castro, denunciando o histórico de golpes do imperialismo contra Cuba e outros países na região e marcando os limites da aproximação entre os dois países, inclusive o respeito à opção do povo cubano pela construção do socialismo.
O PODER POPULAR: Quais as perspectivas das forças populares e revolucionárias na América Latina, em especial com relação à luta pela paz na Colômbia? Quais os reflexos desta situação para o restante do continente?
IVAN PINHEIRO: A busca por uma solução política para o conflito militar e social colombiano é de interesse de todos os povos da América Latina, onde a Colômbia é a principal plataforma militar a serviço do imperialismo.
A burguesia colombiana e o imperialismo norte-americano não tomaram a iniciativa de propor conversações com as FARC-EP por pacifismo ou qualquer motivação humanitária. A grande ofensiva bélica dos oito anos de governo Uribe (em que, note-se, Santos foi ministro da Defesa) não foi capaz de derrotar militarmente a insurgência, mas gerou a ilusão de que a guerrilha estava debilitada. Nesse quadro é que o atual governo imaginou ser possível conquistar a sua versão de paz: rápida, sem grandes custos políticos, econômicos e sociais e com a desmobilização dos insurgentes. O objetivo principal do seu "pacifismo" é melhorar a imagem da Colômbia como um porto seguro para investimentos estrangeiros e entregar seu território às multinacionais, para a exploração intensiva na área de mineração, hidrocarburetos e agronegócio. Em verdade, o fértil e cobiçado território guerrilheiro (incluindo aí o do ELN e do EPL) é o centro da disputa.
O desafio dos diálogos de Havana é que as FARC não estão dispostas a entregar as armas, nem serem vítimas de mais um extermínio, como o da União Patriótica, nos anos 1980. Entendem a paz num sentido para além do aspecto militar, como um processo que signifique mudanças econômicas e sociais, em favor dos trabalhadores e do povo, e políticas, com o fim do paramilitarismo e da violência estatal, a libertação dos prisioneiros políticos. O protagonismo do movimento de massas colombiano, em especial da Marcha Patriótica, é que tem contribuído para garantir os diálogos de Havana e levar para a mesa as aspirações populares.
A solidariedade internacionalista ao povo colombiano não é por uma paz a qualquer preço, uma paz de cemitérios. Não se pode abrir mão do direito dos povos à insurreição sem que sejam superadas as causas que deram origem ao conflito.
Ivan Pinheiro é secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro.
O original encontra-se em pcb.org.br/portal2/8498

