Em 17 de setembro de 1971, em um apartamento no bairro de Palermo, Buenos Aires, foi sequestrado um pergaminense [proveniente da cidade de Pergamino, Argentina] que militava no Partido Revolucionário dos Trabalhadores, cujo braço armado era o “Ejército Revolucionario del Pueblo”. Estava com outros companheiros que foram transferidos para a Coordenação Federal. Ele não. Ontem, cumpriram-se quatro décadas do início da infame saga de desaparecimentos forçados que ocorreram em nosso país. Quem estreou essa modalidade de forma macabra foi um pergaminense: Luis Enrique Pujals.
Conhecido desde a juventude como um brilhante intelectual, foi uma referência de militância para os adolescentes da nossa cidade, quando atuava no Movimiento de Acción Reformista. O estandarte levantado por ele, nos anos em que era secundarista, era a defesa de um ensino público e laico em contraposição à denominada “Ley Domingorena” (lei que abria as portas para a privatização do ensino e ao ensino religioso). Enquanto a “Asociación Cultural TEA” assumia uma posição moderada frente a este tema, a direção de Pujals pretendia ir até as últimas consequências, incluindo a tomada de escolas e greves por tempo indeterminado (estiveram por dois meses ocupando os 4 grandes colégios de Pergamino, baixo o controle de uma coordenadora estudantil pelo Movimiento de Acción Reformista). No entanto, paralelamente a este plano de combate, debates e reuniões públicas ocorreram entre os dois grupos, em que a oratória era a estrela, demonstrando a lucidez do pensamento de Pujals e de quem, compartilhando o ensino público e laico, representava aqueles que queriam um outro curso de ação: Horacio Jaunarena ( Jaunarena foi ministro da defesa do governo radical após a queda da ditadura).
O jornal La Opinión dialogou com ele, no sentido de relembrar aqueles anos tão politizados, de lutas e ideais. Estes potenciais adversários eram, em última análise, vizinhos da mesma cidade que os viu crescer. Compartilhavam escola e jogos de futebol nos quais primava a cordialidade sobre qualquer diferença política.
Era o crepúsculo dos anos 50 e, para os pergaminenses, Luis Enrique Pujals era o inteligente filho de Enrique, que convencia muitos com seu discurso. Ninguém sabia, naquele momento, como suas convicções estavam tão profundamente enraizadas. Recordando os anos compartilhados, Jaunarena fez referência aos tempos da escola secundária: "Ele estava um ano adiantado na escola, mas debatíamos muito por causa da nossa militância. Nas assembléias tínhamos posições diferentes, mas compartilhávamos uma amizade e partidas de futebol no Club Gimnasia. Basicamente, nos diferenciávamos na implementação das idéias. Em algum tempo perdi o contato com ele”.
Em 1960, Pujals estudava em Santa Fé e militava no peronismo banido. Ali, conheceu sua esposa Susana Gaggero. Nesses anos, abraçou a luta anti-imperialista dos países do Terceiro Mundo e a Revolução Cubana, não o modelo castrista precisamente, mas o sentido de libertação impregnado na guerrilha, que foi prévio ao alinhamento de Cuba ao bloco comunista. “Ele era admirador da luta pela liberdade. Neste caso, dos cubanos frente a um tirano como era Fulgêncio Batista”, disse Jaunarena ao ser consultado sobre o perfil político que seguia Pujals.
O desaparecimento
Dentro dos riscos que sabia correr por sua militância no PRT-ERP, possivelmente Pujals jamais teria imaginado ser um “desaparecido”, escrevendo esta palavra pela primeira vez na história da Argentina do século XX.
Transcorria a presidência de Agustín Lanusse e, estando reunido com seus companheiros em um apartamento do bairro de Palermo, em Buenos Aires, foi surpreendido por aqueles que fazia tempo o procuravam por suas ações no “Comando Che Guevara” de Rosário, predecessor do ERP. Todos foram transferidos à Coordenação Federal, todos menos Pujals.
Quando se soube da notícia de seu sequestro, a mobilização foi total. Em Buenos Aires, formou-se uma comissão por sua aparição com vida, a qual integraram, entre outros, Ventura Mayoral – advogado de Perón –, Emma Illia e Gustavo Soler (filha e genro de Arturo Illia), Eduardo Luis Duhalde (atual secretário de Direitos Humanos) e Rodolfo Ortega Peña. Por sua vez, seu pai publicou “no jornal Opinión”, uma carta dirigida ao presidente Lanusse. Atores como Norman Briski também se juntaram à causa e liam ao finalizar suas obras a “Carta ao povo argentino”, escrita por sua esposa Susana. Interpuseram-se habeas corpus, mas nada. Pujals não aparecia.
Em Pergamino
Horacio Jaunarena foi em Pergamino um agente mobilizador do pedido de aparição com vida de Pujals. Com seu título de advogado, exercia em Pergamino e continuava com a militância política na UCR. (Unión Cívica Radical) O que começou com um escrito surgido numa reunião de amigos, terminou sendo uma solicitação publicada neste jornal matinal, com a adesão de 2500 assinaturas. “Não dizíamos nem que era inocente nem culpado, mas simplesmente que aparecesse e que fosse posto à disposição da Justiça, com todas as garantias que possuem os cidadãos da República Argentina”, disse Jaunarena com respeito à solicitação cujo fac-símile lamentavelmente já não se encontra em nosso arquivo em consequência do incêndio que sofreu o Diário em 1992. Podemos, contudo, transcrever o pedido a partir de uma nota publicada a respeito por um veículo da época chamado “Panorama”, que dizia: “Ao governo nacional e à opinião pública: a desaparição de Luis Enrique Pujals sem que os organismos de segurança dêem uma resposta adequada é outra evidência do clima de violência e repressão que os argentinos estamos suportando”.
– Pujals foi conhecido como fundador do ERP, mas você sabe qual era a posição ocupada por nessa organização?
– Pela índole dessas organizações clandestinas, é impossível saber que posição ocupava Luis Enrique ou em que grau estava envolvido nas ações, mas sim estou seguro de que sua conduta merecia um julgamento pela Justiça e não por um grupo irregular que o fez desaparecer. Eu me recordo dele, no entanto, mais do que nada pela nossa atividade na escola secundária. Nossa atividade na época da luta pelo ensino laico estava marcada pela legalidade. Pronunciavam-se debates abertos e assembléias públicas das quais podia participar quem quisesse. A informação era oferecida e tudo se fazia à plena luz.
A visita que não foi
“Tivemos um enorme apoio popular”, lembra Jaunarena. “Que diferente teria sido a história da nossa pátria se, em vez de ter-se levado adiante a brutal repressão fora de controle, os comportamentos ilegais tivessem sido devidamente julgados”, reflete o advogado. Quando a “carta aberta” foi publicada já era outubro e já se esperava a esta altura a visita do presidente Lanusse em ocasião da celebração do novo aniversário da declaração de Pergamino como cidade.
Antes, foram pintadas mensagens nas paredes como “Lanusse demagogo” e qualificações ainda mais agressivas. Peronistas, radicais, comunistas, todos unidos sob o mesmo clamor. As pessoas estavam inquietas porque o filho de Enrique Pujals não aparecia. Este era Luis Enrique para Pergamino: um filho da cidade, um vizinho que estava desaparecido. Assim que os discretos funcionários do cerimonial da presidência percorreram as ruas e perceberam este clima, formulou-se a sugestão: não era conveniente que o presidente Lanusse visitasse Pergamino. “Quero resgatar e ressaltar nesta data a solidariedade dos pergaminenses que somou de tal forma à reivindicação da aparição com vida de Pujals que fez com que Lanusse não viesse, justamente pelo estado de indignação pelo desaparecimento de uma pessoa e o fato de que ninguém desse respostas sobre ele”.
