Eu havia saído de uma longa entrevista como Agustin Tosco, o dirigente do sindicato dos eletricitários, o líder mítico do ‘cordobazo’ de 1969, uma rebelião popular contra a ditadura do general Juan Carlos Onganía, que acabou caindo um ano depois só para ver seu substituto, Alejandro Lanusse, general como ele, acabar abrindo as portas para a volta de Perón e o fim da ditadura.
Naquele setembro de 1973, a tensão era alta na Argentina, e especialmente em Córdoba, cidade de sindicalistas e estudantes combativos e de classe média conservadora.
Lembro de ter chegado perto de uma daquelas mesas e ter ouvido as notícias confusas. Perguntei a um estudante o que estava acontecendo, e ele respondeu, firme: ‘Estão tentando derrubar Salvador Allende, e somos voluntários para viajar de imediato, cruzar a fronteira e defender o Chile’.
A fronteira estava a uns 700 quilômetros de distância, e Santiago, onde o golpe estava acontecendo, a uns mil. Ninguém parecia saber como chegar até lá, e muito menos o que faria se chegasse. Fala-se de uma resistência firme, e havia a certeza da necessidade de se somar a ela com urgência.
Eram jovens voluntariosos, que não sabiam que naquela altura o Chile estava totalmente bloqueado pelos golpistas, ninguém entrava, ninguém saía. Não sabiam que desde a noite anterior as tropas se movimentavam de vários pontos do país rumo a Santiago, nem que a Marinha havia mandado barcos para se juntar à Operação Unitas, encabeçada pela força naval dos Estados Unidos, nem que Augusto Pinochet, chefe do Exército, havia aderido na tarde da terça-feira, dia 10, ao golpe que passou a encabeçar.
Ninguém, ali em Córdoba, sabia que naquela altura o Palácio de la Moneda havia sido bombardeado, que centenas e centenas de pessoas estavam sendo presas, que muita gente já tinha sido morta.
E, finalmente, naquela altura ninguém sabia que o próprio Salvador Allende estava morto. Se matou para cumprir sua palavra de não se render, de não renunciar, de não sair vivo de La Moneda.
Esta a imagem que carrego desde aquela terça-feira de trevas: uma espécie de ingenuidade juvenil e coletiva, numa geração que acreditava piamente que era possível tocar o céu com as mãos.
O drama chileno comoveu o mundo. Junto com Allende e seu governo da Unidade Popular morreu o sonho de uma experiência inédita: fazer, a partir de um governo democrático, a transformação profunda de uma sociedade injusta e desigual, e promover, ao amparo da Constituição, a igualdade e a verdadeira justiça social sem sacrificar a liberdade.
A América do Sul vivia, como de costume, tempos de contradição. Havia uma ditadura perversa no Brasil desde 1964, e desde poucos meses antes – junho de 1973 – a democracia tinha sucumbido no pequeno Uruguai, que se igualava ao vizinho Paraguai.
Na outra margem do rio da Prata a Argentina vivia as incertezas de um peronismo eternamente dividido num sem-fim de tendências, uma direita recalcitrante, uma esquerda polarizada. Um céu de incertezas cobria o país que mal acabava de sair de uma longa ditadura.
A Bolívia, depois da tentativa de mudar sua própria e trágica realidade durante o curto e tumultuado período de Juan José Torres, um militar honrado e progressista, vivia debaixo do jugo sórdido de outro general, Hugo Bánzer.
No meio desse confuso cenário, o sonho de Allende cativava esperanças. Como bem disse Gabriel García Márquez logo depois do golpe de Pinochet e sua camarilha, o que aconteceu no Chile não diz respeito apenas aos chilenos, mas ao mundo inteiro.
De pouco ou nada vale destacar, passados 40 anos daquela terça-feira cruel, que o mundo vivia o auge, ou um dos tantos auges, da Guerra Fria. De pouco ou nada vale reconhecer que hoje o cenário mundial é outro que outros são os tempos: o que aconteceu no Chile passou para a história como algo que aconteceu, sem remédio, a todos os homens daquele tempo, e ficou em nossas vidas para sempre.
Pode parecer distante para as novas gerações. Mas, de alguma forma, elas também padecem os efeitos e consequências daqueles tempos de sonhos truncados e esperanças sufocadas.
O golpe chileno significou uma ruptura política e social, uma violação da Constituição que no Chile era algo insólito. Ao contrário dos vizinhos, no Chile o respeito às leis, às instituições e, principalmente, à Constituição, havia feito do país de Allende uma das democracias latino-americanas mais sólidas e vigorosas. O mais irônico é que ele quis mudar a sociedade mantendo o que era tradição no Chile: o respeito às instituições.
O golpe foi a etapa final de um lento e corrosivo processo de polarização entre sua determinação de transformação e a rançosa resistência dos que queriam preservar um quadro de altos benefícios das minorias mantendo o profundo abismo que os distanciava das maiorias.
Num quadro de disputa por influência e poder na América Latina, para os Estados Unidos o êxito da experiência chilena seria um perigo. Uma transição pacífica ao socialismo era tudo que Richard Nixon jamais admitiria. Nem ele, nem seu moralmente abominável secretário de Estado, Henry Kissinger. Foi ele, Kissinger, o verdadeiro gênio dos males padecidos não apenas pelos chilenos, mas por todos os latino-americanos daquele período de sombras perversas.
Agora, tudo isso é história. Passaram-se os tais 40 anos, o mundo mudou, o Chile mudou, a América Latina mudou.
Mais que história, porém, isso tudo deve ser memória viva. Porque as transformações sonhadas por Allende e sua Unidade Popular continuam sendo sonhadas por milhões de latino-americanos.
40 anos depois daquela terça-feira (II)
Dividido na eleição que em 1970 deu a vitória a Salvador Allende, dividido durante seu governo, dividido no golpe de 11 de setembro de 1973, dividido durante a cruenta ditadura de Augusto Pinochet e seus asseclas maléficos, o Chile se mantém como rigoroso cumpridor desse destino: continua dividido. E continua contraditório: passadas mais de duas décadas do fim do tempo das trevas, o país que soube, a um preço imensurável, reconquistar a democracia, ainda é regido pela Constituição esculpida a faca e fogo pela ditadura. Houve uma só alteração: a que liquidou com a figura do senador vitalício, talhada à perfeição para o próprio Pinochet.
Claro que não existe no mundo um país de unanimidades, e que, se existisse, com certeza seria tenebroso. O que chama a atenção no Chile é que além das até agora irremediáveis divisões sociais, persiste uma divisão que se transformou numa ferida que não termina nunca de cicatrizar: a das memórias soltas dentro das almas dos chilenos. As marcas da ditadura.
A divisão mais profunda é a da memória: de um lado, a dos mais de três mil mortos e das mais de 40 mil pessoas que sobreviveram ao tormento, às masmorras, aos campos de concentração, às mutilações e ao exílio, e que continua pedindo que se conheça a verdade, que se estabeleçam juridicamente as responsabilidades, que se faça justiça.
De outro, a memória (sim, porque isso começou há mais de vinte anos) dos que dizem que o que foi feito, feito está, e que ninguém deve explicações a quem quer que seja.
Entre os dois lados, os que defendem uma reconciliação no modelo espanhol, em que se respeite a memória, mas também a impunidade como eixo e centro da reconciliação. São os que, embora reivindiquem o direito à verdade, se negam a ver a anistia decretada nos estertores dos tempos de horror como uma nódoa sobre o presente e um penhasco insuperável diante do futuro.
É surpreendente o pouco que se avançou nesse tema do que fazer com a memória.
E também me surpreende constatar a persistente existência das divisões entre os próprios nostálgicos da ditadura. Que existam e sejam muitos já seria motivo para minha surpresa e perplexidade. Mas que os órfãos de Pinochet também se dividam me parece o mais bizarro nesse estranho cenário de divisões surgido a partir da retomada da democracia, em 1990, e que separa a direita entre os mais e os menos radicais, todos reivindicando, em maior ou menos medida, a herança de Pinochet.
Bom modelo dessa cisão é Sebastián Piñera, que, antes de se transformar no primeiro presidente confessadamente de direita a ser eleito após a retomada, era um próspero empresário criado ao amparo da política econômica da ditadura e à sombra da barbárie.
Ele representa a corrente menos radical. Reconhece que entre 1973 e 1990 foram cometidos vários exageros, eufemismo para a severa violação dos direitos humanos, mas evita a palavra ‘ditadura’. Se nega a reconhecer que as políticas econômicas que elogia – e que tanto o beneficiaram – foram implementadas às custas do terrorismo de Estado.
Agora mesmo, numa entrevista à revista Times, Piñera deu claras mostras de como funciona o raciocínio dessa ala dos órfãos de Pinochet. Disse que Allende não teve nenhum respeito pela lei e pelos princípios democráticos, e isso foi decisivo para seu fim. Esquece que todas as mudanças na legislação foram aprovadas por um Congresso onde ele não tinha maioria. Diz também que havia o perigo do comunismo, e que os chilenos não queriam ver seu país transformado numa nova Cuba.
Formado em Harvard, Piñera fala um inglês fluente, domina bem a sintaxe e todo o resto. Carrega, porém, um leve, ligeiro sotaque. Não fosse por isso, seria como ouvir o eco da voz de Richard Nixon explicando as razões insuperáveis para um golpe que acabasse de vez com Allende e seu projeto de país.
Há, porém, setores muito mais radicais, que reverenciam a ditadura, elogiam Pinochet e louvam suas conquistas. A ala mais dura é a União Democrática Independente. E eis aqui uma clara mostra do humor dos chilenos: a direita chilena se divide entre uma renovação que, além de não renovar nada, justifica boa parte do passado de horror, e uma união que, além de desunida, jamais foi ou será democrática.
Quarenta anos depois, os dois Chiles se confrontam uma vez mais, nas eleições de outubro. Nunca esse confronto foi tão simbólico, pela própria história pessoal das candidatas, a ex-presidente Michelle Bachelet, da aliança de centro esquerda, e a deputada Evelyn Matthei, candidata de Piñera e da direita.
Na quarta-feira 11 de setembro de 2013, Michelle Bachelet visitou o local onde, há quarenta anos, existia a Villa Grimaldi, um dos centros de tormento, violação e morte da ditadura.
Michelle conheceu a Villa em março de 1974, dias depois de seu pai, o general da força aérea Alberto Bachelet, ter morrido na tortura. Para lá ela foi levada presa com a mãe. A mãe foi torturada na frente da filha. Depois de dois meses, puderam partir para o exilio.
Evelyn Matthei é filha de outro general da força aérea, Fernando Matthei, amigo do pai de Michelle. Era ele o diretor da instalação militar em cujas masmorras Bachelet foi torturado e morreu.
Em sua visita à Villa Grimaldi, perguntaram a Michelle Bachelet como ela se sentia. ‘Volto como uma sobrevivente’, respondeu.
Em outro canto da cidade, perguntaram a Evelyn Matthei como ela se sentia diante dos que exigem que os aliados e seguidores de Pinochet peçam perdão. ‘Eu tinha 20 anos naquele tempo, não há a menor razão para que eu peça perdão’.
Naquele tempo, Michele tinha 22 anos.
O pai de Evelyn, que foi da junta militar encabeçada por Pinochet, está vivo. O pai de Michele, que permaneceu fiel a Allende, está morto.
Crescem as vozes, no Chile, que dizem que só poderá haver reconciliação quando for resgatada a memória, conhecida a verdade e feita a justiça. Michele é uma dessas vozes. Diz que só é possível uma sociedade avançar sobre a base da verdade e da justiça.
Se mantêm firmes e iradas, no Chile, as vozes que dizem que o que passou, passou, que houve uma anistia, que não há por que pedir perdão. Evelyn Matthei é uma dessas vozes.
Michelle é médica. E lembra, com pontual singeleza: ‘Uma ferida, quando está contaminada, não cicatriza’.
O Chile continua com suas feridas sem cicatrizar. Até quando?