Volvido um mês da acção anterior, vemos nesta data o momento ideal para reatear as discussões em torno do papel do Serviço Nacional de Saúde.
A propósito do dia Mundial da Luta Contra o Cancro, o Colectivo Negativo – grupo "artivista" de performance, teatro e instalação – em parceria com os Slap - hand to hand, pretende alertar para uma das faces mais negras da peste que nos assola actualmente: a intenção de drásticos cortes orçamentais nos tratamentos mais caros dos utentes com cancro, e para o consequente incremento de custos para com os mesmos utentes, gerando um decréscimo de qualidade e uma cada vez maior dificuldade de acesso a estes serviços.
Um dia depois das comemorações do aniversário da Organização Mundial de Saúde, este ano sob o tema "Hipertensão"(social?), deixamos cair a máscara da hipocrisia em que a sociedade portuguesa se vê sufocada, para recuperarmos as máscaras medievais do Doutor da Peste e das Danças Macabras, a fim de que estas figuras da época da peste negra possam irromper pela avenida, instalando-se diante do Ministério, enunciando o prenúncio de morte que assola o país. O Doutor da Peste interpelará os transeuntes, convidando-os a participar nesta acção de arte e protesto; distribuindo-lhes um texto onde se poderá ler uma reflexão acerca da sociedade do espectáculo, a partir de excertos do texto "O Teatro e a Peste", de Antonin Artaud, o "espectactor" deparar-se-á com um conjunto de outras acções teatrais que pretendem estabelecer uma analogia entre a mesma e o papel do cidadão na sociedade.
Porquê o resgate destas figuras medievais? Trata-se de uma ironia.
As Danças Macabras surgiram como um ritual de personificação da morte, servindo para ajudar as pessoas a expressar e a partilhar o seu pesar, assim como para lembrar que a morte não só é inevitável, como a grande justiceira, levando consigo tanto o pobre como o rico. Já o Doutor da Peste, é alguém que promete curar algo para o qual não está capacitado.
Juntos assumem-se como a dupla da atitude que tem sido tomada sob o chapéu das medidas de austeridade, em prol da contenção da despesa pública. A questão que se coloca é se essas mesmas medidas não serão em si a peste que assola o país.
"O espectáculo, tal como a peste, é uma crise que se resolve ou pela morte ou pela cura." Antonin Artaud
Foto: Colectivo Negativo