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091111_bruno_carvalhoPortugal - Adiante - 24 de novembro o povo português vai responder as agressons dos cortes neoliberais com uma jornada de greve geral. Segundo a CGTP-IN , o sindicato maioritário, "o que está em causa é um claro retrocesso social e civilizacional, cuja contrução levou décadas de esforço e luta dos trabalhadores e do povo português". Para conhecer melhor a situação em ADIANTE decidímos entrevistar o camarada Bruno Carvalho, moço militante e jornalista comprometido.


1. Antes de mais, põe-nos en situação. Como um país como o teu, que saiu de uma ditadura com uma revolução, remata nesta situação?

A revolução de Abril de 1974 foi uma das mais profundas na Europa Ocidental desde a Comuna de Paris. De facto, a Reforma Agrária, as nacionalizações e os direitos consagrados na Constituição da República Portuguesa foram uma ruptura com o regime fascista que esmagou Portugal durante 48 anos. Mas esta revolução, levada a cabo pelos trabalhadores, militares e o povo, deu-se num contexto muito complexo

Estavamos cercados por um Estado fascista, havia navios de guerra da OTAN ao largo da costa portuguesa, houve uma campanha de ataques terroristas contra sedes de organizações portuguesas de esquerda e, entre o Sul e o Norte de Portugal, havia uma grande divisão devido à influência da Igreja e da direita nesta última parte do País.

Portanto, o povo português depara-se, desde o primeiro momento, com enormes obstáculos. Por outro lado, a falta de clareza, a manipulação e a mentira de partidos como o Partido Socialista (PS), o Partido Social-Democrata (PSD), que diziam defender o socialismo, e o CDS  - Partido Popular (CDS-PP) levaram, em parte, à ilusão, ao engano e à fraude. Mas também não podemos esquecer o papel daqueles partidos mais aventureiristas que, desde a esquerda, atacavam as forças mais consequentes do processo revolucionário. Estamos a falar por exemplo do MRPP, donde saíram figuras importantes do actual modelo económico em que vivemos como Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia.

O certo é que podemos dizer que, entre o final de 1975 e os dias de hoje, há um processo contra-revolucionário a decorrer. Os sucessivos governos PS, PSD e CDS-PP protagonizaram, ao serviço dos grandes grupos económicos e financeiros, a destruição progressiva das conquistas da revolução de Abril. Destruíram a Reforma Agrária, lançaram uma vaga de privatizações e acordaram a entrada de Portugal na CEE, actual União Europeia, e na moeda única. Não se pode dizer que o fizeram sem qualquer oposição. Desde o primeiro momento, tiveram o combate determinado do Partido Comunista Português (PCP), o maior partido da esquerda portuguesa, que foi fundado em 1921 e o único que resistiu aos 48 anos de fascismo. Também receberam a luta organizada da maior central sindical, a Confederação Geral de Trabalhadores Portugueses (CGTP-IN). Com isto quero dizer que o povo português não ficou de braços cruzados. Foram mais de três décadas de resistência em que o capital não avançou mais e mais rapidamente porque os trabalhadores responderam.

2. Fala-nos do contexto actual. Como estão a afectar as imposições neoliberais o povo?

O contexto actual é muito duro. Portugal é hoje um país sob ocupação. Quem nos governa é o executivo formado pelo PSD e pelo CDS-PP mas quem, verdadeiramente, manda é a troika estrangeira formada pelo FMI, pelo Banco Central Europeu e pela União Europeia. Não podemos desculpabilizar o terceiro partido da direita portuguesa, o PS, que assinou igualmente o acordo com estas três entidades estrangeiras. Portanto, há duas troikas, uma internacional e uma nacional. Uma ordena e a outra executa.

As imposições neoliberais são sobrehumanas. É impossível que se peçam tamanhos sacrifícios a um povo que tem um dos salários mínimos mais baixos da Europa, 485 euros. Isto é o culminar do processo contra-revolucionário. Estamos quase na situação que estaríamos se o regime fascista não tivesse sido derrotado por uma revolução mas por uma reforma cosmética como aquela que se deu no Estado espanhol. Querem privatizar o que resta, querem aumentar o horário de trabalho sem qualquer compensação, querem retirar os salários extra de férias e Natal, querem facilitar os despedimentos, querem diminuir as ajudas aos desempregados, querem atacar os subsídios de desemprego e as reformas, querem aumentar o IVA sobre os produtos, querem aplicar portagens em mais auto-estradas e querem, por exemplo, acabar com a ligação ferroviária entre o Porto e Vigo. No fundo, há um ajuste de contas em que o capital reverte para o trabalho toda a factura de uma crise que não é sua e que é usada como desculpa. Uma boa parte dos sacrifícios pedidos aos trabalhadores portugueses são para pagar os buracos financeiros da banca portuguesa.

Mas deixa-me voltar a destacar o aumento do horário de trabalho. Esta medida é uma decisão que representa um retrocesso civilizacional sem precedentes, que me lembre, na Europa Ocidental. Depois de conquistarmos as 40 horas semanais, reivindicámos as 35. E, agora, depois de o governo anunciar a legalização de mais meia hora de trabalho diário sem qualquer compensação, os patrões exigiram que se pudesse acumular as meias horas e converte-las em mais dias de trabalho. O governo, naturalmente, aceitou e já se fala também na redução dos dias de férias. Este é a realidade que o capitalismo tem para nos oferecer.

3. Quais são as respostas que se estão a dar?

A população está muito revoltada. Sente-se em todo o lado que os trabalhadores se opõem a estas medidas. Não digo só nas acções de protesto. Digo-o no dia-a-dia. Nos transportes públicos, no café e na rua. Mas também nas declarações políticas que atestam o momento em que vivemos. Os militares anunciaram que não iriam reprimir o povo e que não aceitam as medidas do governo. Vão organizar um protesto no próximo dia 12 de Novembro. Vários bispos espelharam o descontentamento de vários representantes da igreja católica e o representante de Setúbal veio dizer à imprensa que aceitar os ataques da troika é trair o povo português. Não se pode estar de joelhos, há que lutar contra o estado de coisas.

Logo a seguir ao anúncio de guerra do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho ao povo português, houve uma manifestação de indignados que já estava marcada para 15 de Outubro e que teve uma adesão inesperada. Três dias depois, a organização regional de Lisboa do PCP mobilizava mais de cinco mil pessoas nas ruas da capital. Dois dias depois, o sindicato dos funcionários públicos bloqueava a estrada em frente ao Ministério das Finanças com cerca de dez mil trabalhadores. Há uma manifestação nacional de todos os sindicatos da função pública a 12 de Novembro e, finalmente, uma greve geral a 24 de Novembro.

A decisão de se marcar uma greve geral foi um importante sinal de que a luta tem de assumir outra intensidade. Da mesma forma que se abriu uma nova fase na ofensiva do capitalismo, há que abrir uma nova fase na resposta dos trabalhadores e das populações. Há poucos dias, saía uma sondagem que indicava que 83 por cento dos portugueses estão contra as medidas do governo e 61 por cento a favor da greve geral. São números que atestam bem a impopularidade do pacto de agressão assinado pelos que acham que Portugal deve ser uma colónia de novo tipo ao serviço das grandes potências europeias.

4. Qual é o nível de envolvimento da mocidade portuguesa na luta?

Os tempos não são fáceis para a juventude portuguesa. Toda a formação e cultura capitalistas apelam ao individualismo, à apatia e à submissão. Para além disso, os sucessivos governos foram destruindo todos os direitos que concediam aos jovens a liberdade de participar nos diversos âmbitos da sociedade. Dantes era muito mais fácil participar e organizar a luta estudantil. Não só o acesso ao ensino superior era mais acessível aos filhos dos trabalhadores como a participação nas associações de estudantes estava abrangida por regras que facilitavam o envolvimento dos jovens na intervenção académica.

De resto, o próprio movimento associativo estudantil sofreu, nos últimos anos, uma degradação do seu papel fundamental na defesa dos interesses dos estudantes. Muitas das associações estão, hoje, nas mãos de dirigentes das juventudes partidárias de direita, seja a Juventude Socialista, a Juventude Social-Democrata ou a Juventude Popular. Muitas delas transformaram-se em meras comissões de festas e abandonaram a luta pela defesa de um ensino público, gratuito e de qualidade.

No plano partidário, na esquerda, a organização juvenil que mais se destaca é a Juventude Comunista Portuguesa. O Bloco de Esquerda não tem uma estrutura que organize os membros jovens mas também participa na realidade política juvenil. Pela sua história, princípios, influência e organização, a JCP tem uma análise e acção de carácter revolucionário. O Bloco de Esquerda, por sua vez, é uma organização social-democrata, com princípios difusos, e que dá mais prioridade aos estudantes do que aos trabalhadores. Admito que numa sociedade como estas, onde se celebra o descomprometimento, seja mais fácil aderir a organizações em que não te sintas muito comprometido. Mas os comunistas não pretendem reproduzir os mesmos princípios que o capitalismo. Pretendem uma acção comprometida e coerente.

No plano sindical, a CGTP tem uma estrutura juvenil que é a Interjovem. Ela é constituída pelos jovens que estão organizados nos vários sindicatos da CGTP. O objectivo é trazer à discussão os problemas e as lutas específicas que dizem respeito à juventude trabalhadora, sempre em articulação com as organizações sindicais. Ou seja, sem qualquer perspectiva de dividir quem trabalha. Porque aqui há uns tempos surgiu uma expressão que definia a geração actual como a geração “à rasca”, a geração sem direitos. Foi daí que partiu a primeira manifestação de indignados. Mas deixem-me dizer-vos que esta expressão não é justa e divide os trabalhadores porque, na verdade, todos vivemos à rasca, sem direitos. A juventude, mais, é certo. Houve toda uma camada de trabalhadores que conquistou direitos para si e para as gerações vindouras através da luta. É, natural, neste contexto, que sejam os jovens os primeiros a perder direitos. Mas a luta deve ser de todos.

5. Há muita expectação de cara à Greve Geral do 24 de Novembro, já que se aguarda que seja um ponto de inflexão no pulso Povo/Troika. Debemos ser optimistas?

Acho que os trabalhadores estão ansiosos por dar respostas à altura. A greve geral será a primeira dessas respostas. É essencial que seja uma acção que paralise o país e que demonstre o extraordinário poder que têm os trabalhadores quando lutam unidos de forma consciente e combativa. Mas também devemos ter em conta que o inimigo com que lutamos é dono de uma força poderosa. Eles detêm os meios de produção, os bancos, as forças armadas, a polícia, a comunicação social. Conhecemos o exemplo da bravura do povo grego e sabemos que esta não vai ser um combate fácil.

Neste momento, centenas de sindicalistas, de norte a sul do país, estão a preparar a greve geral. Em muitos casos,  essa preparação é feita com recurso a dezenas de pequenas lutas que se travam em torno de problemas específicos de cada empresa mas que são também um estímulo e um contributo para aumentar o caudal desse grande rio que se pretende que seja a greve geral.

6. Muita gente opina que as formas clássicas de resposta e organização obreiras estão caducas. Qual é a tua opinião?

Eu acho que a teoria e as formas de acção não podem ser um dogma. Devem adaptar-se à realidade de cada povo e a cada momento. Mas que isso não seja uma desculpa para abrir caminho a teses que defendem que já não existem classes, que já não existe esquerda e direita, que não faz sentido o partido como vanguarda da classe trabalhadora e como arma fundamental para a conquista do poder.

Não é por acaso que a comunicação social dá cobertura à luta dos indignados ao mesmo tempo que silencia a luta dos que sempre estiveram na linha-da-frente. Interessa dar força a formas de luta que não são muito organizadas e que sejam difusas nos seus princípios e objectivos. E podemos regressar ao passado e ver como acabou o Maio de 68 e onde acabaram os seus dirigentes. Eu acho importante que uma parte da população tenha, finalmente, despertado da letargia em que vivia. Bem-vindos sejam à linha-da-frente. Mas nós não podemos abdicar da perspectiva revolucionária para cair, uma vez mais, na fábula do capitalismo de rosto humano.

Em 2007, Jean Salem lançou um livro entitulado como Lénine e a Revolução. Nele, sintetizou em seis as principais teses leninistas: A revolução é um guerra e a política, de maneira geral, é comparável à arte militar; Uma revolução política é também e sobretudo uma revolução social, uma mudança na situação das classes em que a sociedade se divide; Uma revolução é feita de uma série de batalhas; cabe a um partido de vanguarda fornecer a cada etapa uma palavra de ordem adequada à situação objectiva; é tarefa sua identificar o momento oportuno para a insurreição; Os grandes problemas da vida dos povos somente podem ser resolvidos pela força; Os revolucionários não devem renunciar à luta pelas reformas; Na era das massas, a política começa onde se movimentam milhões de pessoas, ou dezenas de milhões. É necessário além disso promover a deslocação tendencial dos focos da revolução para os países dominados. Alguma delas parece obsoleta e caduca?

7. Também há quem critica a tendência socialdemócrata que estão a tomar as organizações da esquerda europea, normalmente ligada à sua institucionalização. Que opinião te merece?

Seguindo a linha de raciocínio da resposta anterior, a social-democracia, sim, está obsoleta e caduca. As ideias social-democratas têm mais de um século mas aparecem sempre vestidas com novas roupas. É a eterna adolescência. Mas julgo que a queda do socialismo no Leste da Europa veio abrir o caminho à social-democracia. É certo que já antes havia surgido o euro-comunismo que tantos estragos provocou na esquerda europeia mas com o fim da URSS ficámos a saber verdadeiramente as pretensões de quem destruiu o PCE, o PCI e o PCF.

Também foram criados outros partidos e movimentos que dão corpo à social-democracia. A maioria está incorporada no Partido da Esquerda Europeia, um partido que até defende a existência da União Europeia. Com diferenças entre eles, todos dão um excessivo valor à participação nas instituições e desvalorizam o papel da luta de massas. No fundo, são tão modernos que a sua grande inovação passa por acreditar em algo tão velho como que através das instituições vão lograr o fim das injustiças sociais. Isto para alguns porque muitos já abdicaram sequer de defender o socialismo. São os que depositaram esperanças no criminoso Obama, os que apoiaram a intervenção militar da ONU no Líbano, os que rejeitam a experiência cubana, os que condenam a resistência das FARC e os que descobriram princípios revolucionários nos opositores ao governo de Kadhafi.

8. Que opinas do estado de excepção ao que os estados burgueses nos submetem mediante o monopólio da violência? Cres que é preciso racharmos com esse monopólio e, de ser assim, de que jeito?

Eu acho que os Estados capitalistas estão a regressar às origens. A sua natureza sempre foi essa mas por circunstâncias que todos conhecemos foram obrigados a assumir uma série de responsabilidades sociais. Hoje, com o fim da URSS e com as fragilidades do movimento operário, o capitalismo sente-se com força para impor os seus interesses e atacar os direitos conquistados pelos trabalhadores. Já não há a preocupação de apresentar uma face democrática. A burguesia sempre se preocupou em conservar uma imagem democrática para disfarçar a exploração e a injustiça do regime político e económico que defende, enquanto massacra outros povos para lhes roubar os recursos. E quando foi preciso, recorreu ao fascismo para impor a sua vontade. Hoje, assistimos a inúmeros exemplos de como a máscara democrática vai caindo a pouco e pouco.

Os governos tentam impor a paz social. Quando não conseguem mandam  a polícia carregar sobre os trabalhadores e as populações. Isto quando não detêm comunistas, sindicalistas e outros activistas. Em alguns países, ilegalizam partidos e a própria União Europeia não é um instrumento democrático. Senão veja-se o que aconteceu com a repetição do referendo na Irlanda, que havia dado vitória ao não ao Tratado Constitucional e que repetiram para que ganhasse o sim. Ou veja-se a chantagem da União Europeia através do eixo franco-alemão à Grécia quando decidiu, estes dias, marcar um referendo que, entretanto, parece que já não se vai realizar.

Sabemos bem que o capitalismo não vai ceder o poder de forma pacífica. E os trabalhadores não o vão conseguir tomar sem ser de forma violenta. Podemos ver o derrocamento de Jacbo Arbenz na Guatemala, o caso do governo popular de Allende no Chile ou o golpe de dois dias na Venezuela contra Hugo Chávez. É ingénuo pensar-se que os nossos desejos sinceros de paz comovam os capitalistas.

9. É inevitável, pela combatividade que se está a demonstrar na rua, fazer referência ao caso da Grécia. Consideras que esse é o caminho que nos toca?

Não nos resta outra solução. O caminho que o povo grego abraçou é o único que pode derrotar as intenções do neoliberalismo. Para já, obrigou a União Europeia a propor o “perdão” de metade da dívida e o governo grego a propor um referendo para dar a ideia de que quer ouvir o povo. Não corresponde às reivindicações do povo grego mas é um sinal de que a luta está a ter os seus efeitos.

Mas não nos esqueçamos que por trás da exemplar luta daquele povo está um partido comunista que rompeu com os encantos da social-democracia. Aqui está um exemplo da necessidade de luta organizada e consequente. É importante que todos os camaradas leiam a análise e as posições do Partido Comunista da Grécia. São de uma utilidade extrema.

10. Já para rematar, como ves a nossa situação no processo de emancipação nacional e de classe?

A Galiza é um povo irmão. Fazemos parte da mesma cultura e falamos a mesma língua. Creio que, infelizmente, padece das mesmas características que o Norte de Portugal. O conservadorismo católico e o minifúndio ainda dominam parte da consciência das populações que aí vivem. É a direita que domina boa parte desses territórios. São terrenos onde a esquerda vai penetrando a pouco e pouco, mas com muitas dificuldades.

Contudo, creio que é fundamental que os trabalhadores galegos se organizem numa estrutura revolucionária e lutem pela autodeterminação e pelo socialismo. Infelizmente, a própria esquerda galega está muito fragmentada e o Bloco Nacionalista Galego não representa uma alternativa revolucionária.

Quando aí estive conheci gente muito interessante e projectos políticos, sociais e culturais com muito valor. Mas falta-lhes o carácter de massas. Mais do que nunca, os trabalhadores vão ter de se munir dos instrumentos e armas que lhes possam garantir a resistência e luta contra a ofensiva capitalista.

Obrigado pelo vosso interesse na situação política e económica do nosso país e uma saudação forte a todos os que lutam do outro lado da raia

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