Quarenta anos passados da escrita desta obra (1971) vale a pena recordá-la, relê-la, revisitá-la já que ainda não perdeu completamente a sua actualidade.
Este livro salienta a situação social e política das mulheres portuguesas através de uma escrita ousada, sem pudor e até por vezes agressiva revelando um panorama sobre o infortúnio histórico das mulheres. Como afirma Maria Graciete Besse o estatuto das mulheres no pensamento patriarcal foi sempre de marginalização, estigmatização e domesticação das mesmas.
Escritas em 1971 e publicadas em Abril de 1972 com a direcção literária de Natália Correia que publicou a obra na integra sob a chancela dos Estúdios Cor, as Novas Cartas Portuguesas foram recolhidas do mercado e destruídas, 3 dias após o seu lançamento sob o pretexto e a acusação por parte da censura de que o seu conteúdo era "insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública". Sob esta acusação, as três autoras foram acusadas e o seu julgamento iniciou-se a 25 de Outubro de 1973.
As Novas Cartas Portuguesas são uma obra de um valor inestimável para o feminismo tanto português, como mundial porque marcaram com pulso firme uma visão feminina, a denúncia da condição das mulheres portuguesas no Estado Novo e uma renúncia ao papel imposto a todas as mulheres portuguesas pela ditadura, pela censura, pelo conservadorismo e pelo patriarcado.
A resistência memorável das suas três autoras à pressão do Estado Novo, às ameaças físicas e de perda de liberdade são uma verdadeira inspiração para a luta feminista. Juntas, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa (foto), traçaram um projecto, escreveram uma valorosa obra e mantiveram-se fiéis à promessa feita de que para o bem (o sucesso) e para o mal (a prisão, a condenação social e o isolamento), nenhuma das três revelaria qual delas teria escrito que texto. 40 anos depois mantêm-se fieis a essa promessa.
Perseguidas e julgadas em Portugal, as três autoras e a sua obra foram amadas e acarinhadas especialmente pela Europa e pelos Estados Unidos reunindo uma solidariedade da comunidade literária portuguesa e estrangeira. O julgamento das três autoras foi seguido pelo The Times, Le Nouvel Observateur, CNN, entre outros, o que demonstra bem a sua dimensão internacional e o seu impacto além fronteiras.
As Novas Cartas Portuguesas foram o estandarte de uma solidariedade feminista inigualável com leituras, peças de teatro e manifestações na Europa com especial relevo em França e com um apoio espantoso nos Estados Unidos, onde, nos dois anos durante os quais o julgamento durou, a Embaixada de Portugal não viu uma hora que fosse de descanso. Unidas pela solidariedade, a luta e a reivindicação de direitos, as feministas americanas de diversos grupos e de várias tendências dentro do feminismo, fizeram escalas horárias garantindo que o protesto continuava em frente da Embaixada Portuguesa 24 sobre 24 horas. Graças ao seu emprenho solidário, durante esses 2 anos, a Embaixada portuguesa não viu sossego, nem de dia nem de noite, nem com chuva, frio ou neve porque à sua porta as feministas americanas exigiam justiça para as três Marias portuguesas e para a sua valorosa obra.
De entre os nomes que assumiram a defesa pública das Novas Cartas encontra-se Simone de Beauvoir, Margarite Duras, Doris Lessing, Íris Murdoch e Stephen Spencer. Pela sua mobilização, o apoio a esta obra foi considerada a primeira causa feminista internacional. Este exemplo emocionante, politicamente feminista, revela a capacidade solidária das mulheres em pequena (as três autoras) e a em grande escala (através das manifestações mundiais) e demonstra com clareza, a capacidade organizativa das mulheres para fazer politicamente face às adversidades que lhes são impostas social e politicamente.
Ainda hoje o nosso país "esconde" essa obra não referenciando a glória da sua história e o enorme valor do seu conteúdo, com receio, talvez de uma consciência por parte das mulheres da sua própria força e determinação e do abalo das condições de género patriarcais e heteronormativas instauradas. Pelo Mundo fora, As Novas Cartas Portuguesas são acarinhadas e foram traduzidas em quase todas as línguas do globo sendo até editadas em formato de livro de bolso, leccionadas na Universidade de Oxford, em Inglaterra e tendo uma reacção expressiva na Alemanha, Brasil, Canada, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Inglaterra, Irlanda, Itália, Macau, Suécia, nos Países Africanos de Língua oficial Portuguesa e nos Países Sul Americanos de Língua Espanhola.
Aqui fica um presente histórico para tod@s nós que não devemos hesitar em receber e reflectir. As Novas Cartas Portuguesas são uma resistência verdadeiramente feminista respondendo claramente à questão "O que podem as palavras?" com a resposta "Podem mudar o Mundo!".


