Fotos: 1. Porto / 2. Setúbal / 3. Lisboa
Que se lixe a troika!, palavra de ordem contra a austeridade e o roubo ao povo
Com os piores dados económicos e de emprego das últimas décadas, Portugal vive hoje uma jornada de grandes manifestações convocadas pela internet em todas as cidades, de norte a sul do país. A resposta popular está a ir muito além do esperado pelos convocantes, grupos de pessoas em muitas ocasiões não organizadas. Diferentemente do acontecido também hoje no Estado espanhol, a convocatória não é centralizada na capital, Lisboa, espalhando-se por todo o país em 40 marchas populares.
O protesto espontâneo, que conta com o apoio das organizações da esquerda social, política e sindical, está a ser histórico pela grande participação, e chega no meio de uma profunda crise não só económica, mas da própria direita governante, uma aliança do PSD com o CDS-PP. Diversos líderes políticos e de opinião da direita portuguesa começam a se afastar da linha oficial do PSD e das medidas antipopulares que aplica o seu chefe, o primeiro-ministro Passos Coelho, às ordens da troika comunitária.
O preâmbulo da grande jornada de hoje esteve nos apupos da vizinhança de ontem ao primeiro-ministro em Vila do Conde, que fizeram Passos Coelho sair pela porta das traseiras do local onde discursou em defesa das suas medidas de austeridade, "que estão para além das eleições e da necessidade de agradar".
Já hoje, a partir das 17 horas, as ruas do centro de Lisboa e do Porto encheram de pessoas indignadas com as novas medidas aprovadas pelo governo da direita, mas não apenas nas duas principais cidades houve manifestações massivas. Muitas outras cidades viveram mobilizações qualificadas de "históricas": Coimbra, Setúbal, Vila do Conde, Leiria, Viana do Castelo, Braga, Caldas da Rainha, Peniche, Castelo Branco, Évora, Portimão...
Queremos as nossas vidas! Mobilizações despolitizadas?
Contrariamente à situação no Estado espanhol nas manifestação de hoje em Madrid, no caso de Portugal sim há alguma informação ao vivo nos meios de comunicação públicos, incluindo imagens aéreas que mostram grandes avenidas do Porto e de Lisboa cheias de dezenas de milhares de pessoas.
Contudo, os media estão a tentar difundir a ideia de que o protesto não é político (nem sindical), ficando refletido como difusamente "cidadão", visão na qual coincidem alguns organizadores dos protestos. Contudo, a presença policial ameaçadora em muitos casos dá para perceber que o governo sim dá significação política à jornada.
Em Lisboa, prédios oficiais e bancários são protegidos com polícia e cães e, na altura de redigirmos esta crónica, foi confirmada ao menos uma detenção na capital, após um grupo de manifestantes atirarem tomates à sede do FMI. A detenção terá sido levada a cabo por polícias à paisana, enquanto outros fardados protegiam o acesso ao prédio dessa organização criminosa do capitalismo internacional.
Porém, existem informações sobre poucas transgressões por parte de manifestantes. Uma delas acontecem em Viana, onde mais de 300 pessoas cortaram o trânsito na principal avenida da cidade durante uma hora, antes de marcharem em manifestação pelo centro. Também se cortou o trânsito na avenida dos Aliados, no Porto.
Aveiro: Jovem imolou-se ateando fogo em si próprio
A surpresa saltou em Aveiro, onde às 18:30 horas um homem na casa dos vinte anos se imolou pelo fogo na sede do Governo Civil local.
As primeiras informações indicam que o jovem sofreu queimaduras de segundo e terceiro grau e que a vida dele poderá não correr risco.
Por uma greve geral nacional, poder para o povo!
Entre as reclamações visíveis em numerosos cartazes de mão, a de uma nova greve geral nacional contra o governo da direita e contra os seus planos de austeridade, que vieram dar continuidade, aprofundando-os, aos anteriormente aplicados pelo PS.
Grupos de precários e precárias, jovens, reformados, famílias, organizações políticas de esquerda, estudantes... a resposta está a ser massiva. Protestos contra a taxa social única anunciada nestes dias por Passos Coelho, que aumenta a quota dos trabalhadores e reduz a das empresas, contra o aumento do desemprego e a precarização do mercado laboral português.
Concentração às portas da Assembleia da República
As marchas continuaram até ao fim da tarde.
A mobilização de Lisboa acabou às portas da Assembleia da República, com a escadaria protegida por numerosos polícias e com milhares de pessoas a gritar palavras de ordem como "Os gatunos estão lá dentro". Houve alguns momentos de tensão e a concentração prolongou-se durante algumas horas, até a progressiva dispersão de manifestantes à noite.
Haverá que esperar para ver as consequências desta nova jornada histórica de protestos contra os planos de austeridade impostos pela troika aos povos. Sejam quais forem essas consequências, o povo trabalhador português quis deixar claro hoje, mesmo de maneira limitada pelo esponteneísmo e sem uma direção política bem definida, que não apoia as políticas ultraliberais aplicadas pelos sucessivos governos, primeiro do PS e agora do PSD-CDS. Resta que o descontamentamento possa tomar forma política com uma orientação revolucionária, única possibilidade de afrontar a crise com alguma garantia de êxito para a maioria do povo.
A mais completa compilaçom de imagens da jornada em todo Portugal está disponível neste blog.


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