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310812 CrisePortugal - CADPP - [Nuno C. da Silva] Numa tentativa para culpabilizar todo um povo pela crise, os agentes do poder oligárquico lançaram a ideia de que foi a ganância desse povo e a sua ambição de consumir para lá da sua capacidade produtiva que nos lançou na crise, por via de um endividamento crescente e cumulativo. A partir de um certo patamar de endividamento a incapacidade para pagar desencadeou uma avalanche de incumprimentos que puseram as empresas, nomeadamente no sector financeiro, à beira da falência. Tudo o que se seguiu – desemprego, reduções salariais, recessão – não foi mais do que a resposta inevitável do sistema económico face à imprudência e ao incumprimento, por parte dos consumidores, das responsabilidades livremente assumidas. As empresas, os bancos e os capitalistas, não foram os causadores da crise, foram as vítimas do descalabro dos consumidores. Esta é a versão da oligarquia capitalista.


Não é preciso ser-se marxista para reconhecer a realidade dos fenómenos associados da sobreprodução e do subconsumo. Estando os lucros dos capitalistas directamente ligados ao volume de venda dos seus produtos e serviços, não é de espantar que eles procurem aumentar cada vez mais a produção e as vendas, para que o seu lucro seja crescente. Tendo implantado um sistema parcialmente concorrencial, não é pelo aumento do preço de venda que essa maximização do lucro pode geralmente ser conseguida, mas pela redução dos custos de produção e pelo aumento do volume de vendas. O que explica a sobreprodução.

Por outro lado os consumidores são em grande parte trabalhadores, cujo rendimento é essencialmente o seu salário. O duplo fenómeno da necessidade da contenção de custos por parte dos capitalistas, e da apropriação de uma parte significativa das mais valias do trabalho por parte do capital, fazem com que o rendimento dos trabalhadores não seja suficiente para adquirir a totalidade dos bens e serviços produzidos, nem sequer dos bens de que necessitam para satisfazer as suas legítimas necessidades. O que explica o subconsumo.

Face à impossibilidade de vender tudo o que produz, reduzindo assim o seu lucro, os capitalistas recorreram à disponibilização maciça do crédito ao consumo para poderem manter o ritmo de crescimento das suas vendas e dos lucros. Concessão de cartões de crédito a toda a gente, facilidades de pagamento – “compre hoje, comece a pagar no próximo ano” -, concessão de crédito para compra de bens duradouros a pessoas sem capacidade financeira para tal, etc. E se é verdade que ninguém é obrigado a fazer uso de crédito para comprar bens que não estão dentro das suas possibilidades de pagar, também é um facto que a pressão exercida sobre os consumidores e a publicidade enganosa foram em grande parte as responsáveis por um recurso excessivo a esse crédito.

A dívida excessiva é assim – no que diz respeito aos consumidores – o resultado por um lado da exploração capitalista dos trabalhadores, e por outro de uma promoção abusiva do crédito, por parte das empresas e dos bancos, que mais tarde, e face ao incumprimento generalizado, proclamaram ser demasiado grandes para se permitir que falissem, indo buscar à comunidade a indemnização das perdas geradas pelas suas políticas criminosas.

No campo da análise económica podemos dizer que se as mais valias do trabalho ficassem com os trabalhadores, e fosse deles a posse dos meios de produção, não haveria nem sobreprodução nem subconsumo. Não haveria dívida excessiva nem crise. Não podendo resolver o mal já feito por uma mudança sistémica que nunca será fácil de implementar, resta-nos o caminho da nacionalização total da banca e do perdão de todas as dívidas incobráveis. Só assim se restaurará a capacidade de um povo satisfazer as suas legítimas necessidades e se retomará o crescimento económico e a redução do desemprego.


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