A ideia do banqueiro Ulrich de que o povo aguenta mais (porque ainda não está todo ele de mão estendida pelas esquinas...) traduz a convicção íntima da burguesia dominante. Mas, para ir avante, tal linha precisa de uma União Nacional. É esse o sentido do apelo, de todos os sectores das classes dirigentes, para que o PS seja incluído no "esforço patriótico".
A austeridade não só gerou a hostilidade das classes assalariadas contra o governo, pela quebra de nível de vida. Afasta também desse mesmo governo boa parte das classes pequeno-burguesas afectadas pela destruição da pequena economia nacional. Ora, é o PS a força política do poder com melhores condições para tentar travar este divórcio. É esse o papel das promessas de "crescimento" e de "austeridade moderada" com que tenta contrapor-se à política conduzida por Passos Coelho.
Mas as medidas de "estímulo económico", sejam do PS ou do governo, não alteram o trajecto da crise capitalista, assente em dois carris inevitáveis: baixa dos custos do trabalho (com redução de salários e de apoios sociais e desemprego) e concentração do capital (com destruição acima de tudo da pequena propriedade e drenagem de riqueza para os grandes núcleos capitalistas, nacionais e europeus).
A austeridade vai, pois, prosseguir enquanto a crise durar (e ninguém lhe vê o fim) e enquanto a burguesia tiver condições para a impor. E é neste último aspecto que a ajuda do PS se torna útil às classes dominantes. O PS é chamado ao seu papel de sempre: colar, nos momentos de crise, as camadas sociais médias ao poder e deixar a massa trabalhadora isolada.
Por isso, apesar das alfinetadas ao governo e do distanciamento que aparenta, Seguro não corta as pontes com Passos Coelho. A demarcação é, no caso, o regateio que precede o negócio.

