Na sua intervenção, DB afirmou (e recomendou) que «O sucesso de outros programas de ajustamento requer que estes tenham condições políticas e sociais de sustentabilidade, o que implica sensatez nas decisões políticas a tomar e na maneira de as comunicar. Sensatez pode e deve ir de mãos dadas com determinação. Estabelecer compromissos onde eles são necessários e uma permanente procura de consensos – quer entre as principais instituições e forças políticas quer entre os parceiros sociais. Repito estas são condições essenciais para o êxito final: condições políticas e sociais.»
Sublinhou aqui a recomendação da maneira de comunicar pois na minha leitura não há outra forma de interpretar a expressão senão como uma injúria aos Portugueses: as medidas implicadas pelos programas de ajustamento (cuja sensatez não está em questão) para serem implementadas com sucesso (leia-se com aceitação popular) têm de ser associadas a melhor comunicação. Ou seja, se o Governo nos fosse capaz de explicar melhor a necessidade destas medidas, nós aceitaríamos estas medidas sem protesto. Implícito está a ideia de que os Portugueses são toscos: não foram ainda capazes de entender a necessidade das medidas de austeridades. Precisam que lhes sejam explicadas melhor. Fora de consideração está outra hipótese: a de que os Portugueses entendem as medidas e os seus pressupostos, mas rejeitam esses pressupostos e seu corolário. Sugiro: mesmo que o Governo encontre outra forma de as comunicar e as explicar d e v a g a r i n h o, os trabalhadores Portugueses não as vão aceitar.
Qualquer comunicação, por melhor que seja, que queira justificar as medidas de austeridade sobre os trabalhadores, não será bem aceite pelos trabalhadores. Eis uma ideia: não peçam aos trabalhadores que aceitem maior precariedade, menos salários, subidas de preços, perca de custo de vida, maior desemprego, perda de direitos laborais. Se, honestamente, fosse explicado que estas medidas são devido às falhanças do sistema financeiro e à crise do sistema capitalista, que são medidas não devidas ao despesismo dos Estados mas às políticas que impõem menores encargos sobre o Capital, maior liberdade para o Capital fugir à tributação, e maiores exigências sobre o trabalho, sem garantir um Estado Social – isto é, se a situação fosse efectivamente bem explicada e comunicada – não creio que a sua aceitação fosse melhor. Pelo contrário.
Durão Barroso está não só a afirmar que os Portugueses são toscos, mas também que as forças políticas que não estão no governo são irresponsáveis, pois não estão a procurar consensos com o Governo. Ora, as agências de ranking, a chanceler Merkel elogiam o Governo de Passos Coelho como bom cumpridor. Daqui decorre que o erro não está nas políticas deste Governo, mas na sua capacidade de persuadir as forças de oposição. Outra leitura é de que as forças de oposição rejeitam as premissas por detrás das políticas de austeridade, e rejeitam estas como formas de garantir o desenvolvimento económico e social.
Na sua intervenção, DM propõe-se desmistificar várias ideias, entre elas a de que é a União Europeia que «está a impor austeridade aos Estados membros e aos cidadãos». Segundo DB, «Com ou sem Euro, com ou sem União Europeia este tipo de política teria que ser necessariamente prosseguido...». Uma inevitabilidade. Ora, a UE está a impor, em associação com seu órgão o Banco Central Europeu e em associação com o Fundo Monetário Internacional (a Troika internacional) as políticas de austeridade. Esse é um facto, consumado no memorando da Troika. Não há nenhuma realidade económica insanável, isenta de contexto ideológico ou postura de classe, que implique inexoravelmente as medidas de austeridade. É uma opção de classe. Comuniquem bem isso.
[O símbolo ؟ indica ironia.]
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