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130410_spinola.JPGVias de Facto [Joana Lopes] - Ao ver ontem que tinha sido inaugurada em Lisboa uma nova avenida, a minha primeira reacção foi apenas de indignação, sobretudo ao ler que, para Cavaco, «ao homenagear a figura do marechal António de Spínola, a Câmara Municipal de Lisboa pratica um acto de grande justiça, a que todos nos devemos associar com o maior júbilo». 


A memória tende a ser curta para todos, mas talvez nem se trate de falta dela no caso do presidente de todos nós: muito provavelmente, ele rejubila-se mesmo quando pensa em Spínola e em tudo o que a sua figura e a sua complexa vida representou. (Menos compreensível, digo eu cheia de boa vontade, é ver António Costa associado ao evento, mas adiante.) 

Podia lembrar aqui apenas, e seria o suficiente, a ligação de António de Spínola ao ELP / MDLP, organizações terroristas responsáveis, entre muitos outros actos, pelo ataque a dezenas de sedes de partidos de esquerda e pelo assassinato do padre Max.

Mas vale a pena recordar mais alguns elementos da sua biografia e J. M. Correia Pinto fá-lo bem no Politeia. «Como militar serviu devotadamente o Estado Novo e Salazar, como tantos outros», «era um fervoroso apreciador da bravura do exército alemão, cujas façanhas acompanhou, no cerco de Leninegrado, como observador», «simpatizava politicamente com o que de mais reaccionário havia então na Europa: o franquismo, a tradição prussiana do exército alemão enquadrada e dominada pelos nazis, e Salazar. Este pendor autoritário e anti-democrático acompanhá-lo-ia durante toda a sua vida».

Sabe-se que «Spínola, uma vez na Guiné, teve uma percepção mais correcta da guerra em que estava envolvido», mas também que «tal como Marcelo também ele não compreendeu o nacionalismo africano e sempre acreditou, ao ponto de ter mitificada a ideia durante toda a sua vida, que seria possível encontrar um rearranjo constitucional capaz de acomodar a presença política (económica e social) portuguesa com as aspirações autonomistas dos povos colonizados» e que o que «nunca foi capaz de superar foi a subalternidade do interesse nacional português no processo de libertação dos povos africanos».

É verdade que foi o primeiro PR em democracia, mas todos estarão recordados das suas tibiezas desde a noite do dia 25 de Abril, por exemplo com as hesitações quanto à libertação de todos os presos políticos. Para não falar, obviamente, do 28 de Setembro e das manobras de bastidores que antecederam o 11 de Março.

Não há como ver e ouvir para recordar e por isso aconselho vivamente este vídeo da RTP, nomeadamente do minuto 33:29 ao 44:06. Extraio apenas a seguinte afirmação de Spínola, em vésperas do 28 de Setembro:

«Não estamos dispostos a transigir, a nossa determinação de amor à Pátria com que nos batemos no Ultramar mantém-se intacta.»

Eu não me rejubilo com personagens destas, nem reconheço a ninguém o direito de se rejubilar por mim.

P.S. - Leitura absolutamente indispensável: «Antes Lisboa tivesse ganho uma Avenida Erich von Stroheim», de João Tunes.


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