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301012 macacosPortugal - O Diário - [Vaz de Carvalho] A situação atual torna claro que as hostes neoliberais não têm fronteiras nos partidos. As diferenças que exibem os responsáveis dos partidos da troika, PS – PSD – CDS, fazem parte do proselitismo eleitoralista.


Em qualquer deles encontramos na prática apenas com algumas nuances as diferenças entre empedernidos que querem cumprir integralmente o memorando (de agressão) da troika e os baralhados que querem alguma revisão.

"O chamado neoliberalismo não foi mais do que o discurso triunfalista da degeneração financeira, parasitária do capitalismo keynesiano." Jorge Beinstein (1)

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Consta que estando Constantinopla cercada pelos otomanos, se discutia o sexo dos anjos. A expressão ficou e aí vemos os srs. professores feitos comentadores e os srs. comentadores feitos professores no seu labirinto de contradições.
Defendiam – há bem poucos meses! – os absurdos e iníquos tratados da UE, a tão desejada "ajuda" da troika, a "economia de sucesso" da especulação e da fraude, mas agora estão desorientados ao descobrir de "surpresa" em "surpresa" que afinal se caminha para o desastre, mesmo para "as lagartas gordas" - com dizia Aquilino Ribeiro – do PSI-20 e mais alguns "patriotas" que também põem os seus lucros nos paraísos fiscais. No entanto, foi o que quiseram e defenderam afincadamente!

As hostes neoliberais multiplicam-se em conferências, simpósios, declarações, entrevistas que a comunicação social, genericamente acrítica caixa-de-ressonância e confusão, as divulga como se tratasse de palavras de seres iluminados por qualquer evangelho (cujo significado, recorde-se, é "boa nova").

Mas no neoliberalismo não há qualquer esperança. O neoliberalismo é a degenerescência de um capitalismo senil, que sufoca o económico e social pela hipertrofia financeira. Gerou apenas capital fictício e não tem soluções para resolver a questão da taxa de lucro e de exploração – sem as quais não sobrevive – pois o crescimento estagnou, o desemprego e as falências crescem.

Perante o descalabro a que os seus dogmas conduziram e que já põem em causa o seu estatuto dominante, perante o pânico de estarem a ver que o povo – para eles a "rua"...- com a sua luta construir a necessária unidade e alternativas, a confraria neoliberal abre fendas, divide-se entre os "empedernidos"- inflexíveis na sua ortodoxia - que se lixem as pessoas - e os "baralhados", que se limitam a querer mudar alguma coisa (o quê?) para que fique tudo na mesma.

Tal como foi o imperador romano Constantino – um dos maiores hipócritas e déspotas da história de Roma - que decidiu em Niceia qual seria a verdadeira fé, agora tanto empedernidos como baralhados olham para a UE e para o FMI – os representantes do império - para que decidam e enfim tenham piedade de nós, isto é, deles – que sentem perder o seu estatuto.

Gente que sabia tudo, que se arrogava o direito de apenas eles poderem governar e de serem responsáveis, gente que olhava e olha os demais como um rebanho de ignorantes que lhes competia tosquiar, dizem que não se podem fazer previsões macroeconómicas rigorosas, que não há alternativas, e que estamos sob "intervenção", confessando afinal que o seu memorando de "ajuda" coloca o país sob um pacto de agressão económico e social.

Os empedernidos, como os generais que estão a perder a guerra consideram que é necessário prosseguir até à derrota final. Contestando esta posição os baralhados procuram fórmulas para convencer as pessoas a aceitarem o prosseguimento das mesmas políticas.

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Não há dúvida: as hostes neoliberais estão perturbadas. Dezenas de horas de Conselho de Ministros, dez horas de Conselho de Estado e o que sai: recessão, desemprego, falências, pobreza e perda de soberania. Futuro incerto, negro, sem vislumbre de esperança. Uma indigência perante a realidade, de facto comparável à dos teólogos na Constantinopla cercada.

Para alguns comentadores não lhes chega a nulidade do Conselho de Estado, há quem peça um conjunto de assumidos iluminados para se reunirem bem longe da "rua" à porta fechada e encontrarem soluções para o país. Mas são os mesmos que conduziram o país ao desastre! No grotesco labirinto onde os srs. comentadores se meteram, não há lugar para ouvir os trabalhadores das empresas e os seus sindicatos – para além da direção da UGT a quem apelam para fazer mais uma "boa ação" ao capital e aprovar tudo o que depois diz ser prejudicial para os trabalhadores.

Uma coisa é certa: o sistema não funciona e por isso os baralhados falam agora em "renegociação", que antes era por eles considerado uma blasfémia. Mas de que renegociação se trata? Pretendem conter e iludir a manifesta expressão popular, referem apenas a extensão dos prazos e nunca ou quase nunca a questão dos juros, ou seja, no essencial trata-se de garantir que a especulação e a agiotagem possam prosseguir com todas as garantias. O conceito revisão dos montantes e de divida ilegítima, não é considerado.

Segundo critérios definidos internacionalmente torna-se ilegítima a parte da dívida contraída sem qualquer benefício para os povos: será o caso nomeadamente de verbas destinadas a compensar bancos privados pelas suas perdas em resultado de ações especulativas ou mesmo fraudulentas; verbas resultantes de rendas monopolistas (por ex. PPP), da descapitalização do Estado devido à livre transferência de capitais e rendimentos para paraísos fiscais sem pagar impostos ou ainda a resultante do pagamento de juros de usurários sobre a dívida existente. A determinação exata destes montantes mostraria que o seu total seria muito reduzido face à fachada que nos querem impor.

Esta dívida ilegítima torna-se odiosa quando associada a planos de austeridade que recaem sobre trabalhadores, MPME, sobre as camadas mais frágeis da população. Neste sentido, os acordos com a troika estão feridos de nulidade – e são odiosos - pois opõem-se frontalmente a preceitos da Carta das ONU – nomeadamente os artigos 1º e 2º.

Numa coisa, empedernidos e baralhados estão de acordo: o Estado deve emagrecer, a economia não deve ficar dependente do Estado. Isto, contra a evidência do que é praticado. Segundo auditoria do Government Accountability Office do Federal Reserve, divulgada pelo senador Bernie Sanders, o Federal proporcionou empréstimos secretos a bancos e empresas dos EUA e estrangeiro que totalizavam US$16,1 milhões de milhões, uma soma maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA. (2)

Entre nós, como se sabe, da "ajuda" (para quem?) 12 mil milhões de euros são para banca e 34 mil milhões para juros. Este ano 1 300 milhões de euros são para PPP. A transferência de riqueza criada no país para paraísos fiscais atingiu em 2011 cerca de 18 mil milhões de euros, os juros da dívida representam 4% do PIB!

A recapitalização da banca a nível da UE foi estimada entre 3,5 e 4,4 milhões de milhões de euros. Os EUA aumentam a sua dívida federal em 1,5 milhões de milhões de dólares por ano.

O capitalismo atual comporta-se como um buraco negro. Os buracos negros constituem o estado final de estrelas de grande dimensão absorvendo toda a matéria-energia na sua zona de influência.

Torna-se evidente que temos de nos afastar deste centro de implosão económica e social que constitui o capitalismo senil, o capitalismo imperialista da especulação financeira.

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A situação atual torna claro que as hostes neoliberais não têm fronteiras nos partidos. As diferenças que exibem os responsáveis dos partidos da troika, PS – PSD – CDS, fazem parte do proselitismo eleitoralista. Em qualquer deles encontramos na prática apenas com algumas nuances as diferenças entre empedernidos que querem cumprir integralmente o memorando (de agressão) da troika e os baralhados que querem alguma revisão.

Defenderam entusiástica e assertivamente todas as "inevitabilidades", todos os "riscos sistémicos", pondo liminarmente de parte tudo o que se afastasse do paradigma neoliberal, dão hoje voltas e mais voltas para chegar à conclusão que o caminho tem de ser outro, embora não saiam do mesmo sítio. Será que esqueceram o que diziam acerca dos que mostravam à evidência o que ia acontecer e propunham alternativas?

O disparate, a inconsequência, a desorientação das hostes neoliberais, tornaram-se um espetáculo intelectualmente confrangedor. As suas propostas e soluções estão ao nível da alquimia. É chocante a falta de honestidade intelectual de gente que é constantemente escutada há anos na comunicação social como venerados oráculos e que continua a falar nas "gorduras do Estado" e nos "cortes na despesa", sabendo-se que é apenas um álibi para despedir e penalizar funcionários públicos, desmantelar o Estado e impor mais impostos indiretos com a redução das prestações sociais. Quanto mais se enveredou por este caminho pior o país ficou.

A questão do Estado divide aparentemente empedernidos e baralhados. Para os primeiros o Estado social deve acabar e as funções sociais serem privatizadas: cuidar dos "pobrezinhos" ficaria a cargo da caridade, que tem a virtude de proporcionar perdão dos pecados.

Parafraseando Stiglitz (quem havia de dizer!): teremos sociedades não de oportunidades para todos, mas de favoritismo para os ricos e direitos para quem os possa pagar. (3)

Quanto aos baralhados debatem-se – ou fingem debater-se - em dúvidas existenciais sobre como será "o serviço público" e a "configuração do Estado". Querem tornar obscuro algo teorizado desde a antiguidade! Mostrar que se trata de complexas questões teóricas quando não passam de opções políticas há muito assumidas: as da agenda neoliberal. O que se pretende é que toda a mais valia seja canalizada para o "buraco negro" da economia de casino.

Desmantelar o Estado social arduamente erguido com a luta dos trabalhadores desde os finais do século XIX, é regressar às condições de vida descritas por Marx e Engels, Dickens ou Jack London em "O povo das Sombras".

Do seu labirinto, o pensamento de direita – com a coloratura do PS (4) – apela a "explicar bem" as "medidas", o "consenso" político e social "mínimo" (!) com apelos à UGT.

O que eles todos juntos procuram é convencer as pessoas que há saída dentro do atual sistema. O marxista Samir Amin, dizia que a questão não era "sair da crise capitalista, mas sim sair do capitalismo em crise". E assim, chegaríamos não ao fim da História, mas ao que Marx referiu como o fim da pré-história social da Humanidade.

1 – www.resistir.info - Ajustamento Depressivo Global (Radicalização da Crise) Jorge Beinstein* - 23.março.2009
2 - Um roubo de US$16 milhões de milhões - por Atilio A. Boron - hhttp://resistir.info/ . O original encontra-se em http://www.rosa-blindada.info/?p=744
3 - The Price of Inequality and the Myth of Opportunity - By Joseph Stiglitz - "America has become a country not "with justice for all," but rather with favoritism for the rich and justice for those who can afford it - "Informationclearinghouse - 07.junho 20112.
4 – Coloratura – (do italiano) – voz que sublinha os tons mais agudos, especialmente trilos e vocalizações.


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