No dia em que a biblioteca foi assaltada pela polícia, o Diário de Notícias noticiou o caso. O bizarro da situação é que o jornal saiu para as bancas cerca de três horas antes do caso ter acontecido. A notícia - sem assinatura - falava em "injúrias e agressões a agentes", quantifica o número de pessoas identificadas e especula sobre a origem dos ocupantes do espaço. Este extraordinário exercício da adivinhação dado à estampa no Diário de Notícias teve pouca repercussão na realidade; a efectiva vandalização do espaço pela polícia, acontecida três horas depois desta notícia ter começado a ser lida, acabou por decorrer sem "injúrias e agressões" nem outros fenómenos paranormais de monta.
Contactado pela associação que ocupara o espaço, o provedor do DN defendeu o jornal dizendo que a notíciaa tinha sido escrita com base num comunicado da polícia enviado na noite anterior. Fantástico país, este, em que membros da polícia se dedicam a escrever notícias que depois enviam aos jornais, e ainda por cima notícias sobre o futuro, sobre o que ainda está para acontecer. Fabulosa nação, também, aquela em que um jornal - por sinal, o mais antigo publicado em Portugal - recebe notícias redigidas pela polícia e as publica como sendo suas e verdadeiras.
Contado não se acredita, dirão. Mas eu acrescento: a verdade e a realidade, tudo vão, tudo ilusório. Acreditamos no que queremos acreditar, mesmo que seja má ficção escrita por um péssimo polícia.
Foto: Arrastão - A notícia futurologista.


