Diálogo(s) desconexo(s)
- Bom dia!...
- O sol brilha envergonhado entre abertas desfocadas de nevoeiro.
- ...e viva o riso.
- Hoje apesar de rir, optei pelo cinzento, como o sol optou por nele se esconder... Para não continuar, regressei ao aconchego do lar. Sou notívago, por vezes, só às vezes... tantas vezes... vezes demais?!.
- Por aqui impera o ruido do silêncio; tanto que, quando alguém passa à minha janela, os seus passos ecoam por toda a casa. É sábado. Acordei cedíssimo para um sábado... raios, oito horas e já tomava café. Fiz um compasso de espera para ir fazer compras para casa que agora arrumo e acompanho-te, no éter, nas nossas quebras de silêncio enredadas nas horas que passam...
- O sol teima em brincar às escondidas, não sei se dele próprio, das nuvens ou dos que, cá debaixo, o reclamam... fugirá de mim!?
- Ontem foi um dia de vertigem; as coisas sucederam-se em revoltas de passados que teimam não findar. Quis estar com todos e com ninguém... esta coisa de voltar a ser eu, só eu, solitariamente eu, está a ser mais complicado do que estava à espera... tive saudades de tudo e de todos... não te esqueci... mas tenho de te ter longe; sem dúvida, a vida é um ovo e prega rasteiras constantes. Isto está a transformar-se numa bomba relógio e receio o que possa vir depois... ou não... As mudanças, mesmo radicais, magoam, mas saber gerir o depois é que é importante.
- Aqui também a passarada chama o sol... e o um gato em correrias frenéticas tenta prender a minha atenção - "Tipos estranhos estes seres de quatro patas que raramente colocam as da frente no chão... e que hábitos estranhos... brincam com o tempo de forma estranha" - parece pensar telepaticamente em diálogo com todos os outros que do quintal me observam.
- Alimentei a salamandra para espantar alvores de frio. No sofá espera-me o "sketchbook"... vou esparvoar a carvão, para desenhar o que seja, o que esteja no emaranhado de ideias que corre a organizar-se no torpor da manhã... merda!... para esboçar e só me saem pensamentos que, debulhados em palavras, não têm ainda correspondência nos sentidos que toma um traço de esboço... Diz-me... como se desenham as palavras? Como se pintam os sonhos? Como se retrata um pensamento?
- Um dia me explicarás essa tua vontade de te esconderes do mundo. Um dia destes, cruzam-se as nossas pessoas algures na cidade, noutro país, noutro mundo, quiçá, noutra era. É um pouco isso, tudo se encaminha para um refinamento do que cada um quer, ou para uma evolução, para algo que (não sei o quê, nem como), substituirá essa forma de auto devassa consentida, que é o querer sempre mais uns dos outros (mesmo que disso não tenhamos consciência). Não deixes de me falar se me reconheceres nessa busca... poderá ser que busquemos juntos.
- E que buscamos?! A felicidade? Talvez a verdadeira felicidade seja... que é isso de felicidade? Algo que inventaram, uma palavra mais a que juntam um "in", para criar um antónimo estúpido e balizado, de gente convencida, que tem a rota da verdade? Gente "normal"... diz-me, o que é "normal"?
- Talvez a consciência da relatividade e dicotomia da "felicidade" façam de mim, de ti e de todos (os como nós) os verdadeiros "felizes"... É tão volátil, frágil e inconstante, a "felicidade" dos "normais"... antes chamar-lhe "verdadeira consciência de ser" que "ser feliz"... é isso que sinto, na nossa "felicidade" em contraponto com o ilusório e hipócrita ser feliz dos "normais".
- Encerrados em casulos que nos dão a consciência do que queremos e somos, acabamos por ser "felizes", à nossa maneira... quando quisermos e enquanto quisermos... será isso (digo eu); pensarás (e bem), tu?
- Difícil não gostar de te ler, de, mesmo entre longos silêncios, sentir a cumplicidade de pensamentos, como se no mundo, no universo, nada de material existisse, só mentes em sintonia, numa partilha de seres telúricos, gasosos, voláteis, que se procuram e entregam na partilha de saberes intemporais...
- Escrevo sem sentido, talvez... não ligues... não é habitual... sou fraco resistente no combate aos prazeres de Baco. Quiçá só diga disparates... mas sei que me perdoas... Atropelam-se-me as palavras no tropeçar das ideias; sinto-me o mais feliz dos idiotas... talvez seja essa a minha felicidade!...
- Passear sozinho por entre uma multidão de surdos... não sei. Está frio... mas apetece-me ir a todo o lado... e a lado nenhum. Incompreensivelmente, gosto desta estúpida sensação, que já esquecera, de estar saborosamente só... a angústia vai-se a cada toque no teclado falso, virtual, desta maravilhosa tablete de plástico que me liga ao mundo, que me transporta a tantos como eu... como tu... como nós... que nos deixa, entre essa tão grande mole de gente, escolher a delícia de falar por letras dispersas e palavras, desconexas aos olhos dos ditos "normais", mas com tanto sentido... e sentir; experiencio-te, como da primeira vez, virtualmente, depois do Adeus, dos "Adeus", passados, presentes e futuros, porque o ciclo é frenético e o Tempo só existe na nossa imaginação colectiva.
- Às vezes penso, como seria bom que a minha existência não fizesse sentido, num sentimento egoísta, como se, realmente, eu existisse para alguma coisa. Sinto-me um "enteretainer", real, num mundo perverso, que anseia pela acção, real... num mundo de sonhos hipócritas.
- Tu inspiras amores puros de verdadeiro amor, verdadeiro gostar, como deveriam ser todos. Um dia, os ditos "normais" talvez despertem; gosto ao mesmo tempo que eles me achem distraído, perdido, em estado de pré-insanidade... gosto, mas tenho pena. E pensam-se tão evoluídos que nem sabem espiar-se, ler-se.
- A verdade ninguém conhece; terão consciência quando, pensando, compreendam que é no silêncio dos pensamentos de cada um que se encontra a chave da razão de tudo. Ficamos a navegar, secretamente, porque são impartilháveis estas partilhas, este sentir, com os ditos "normais".
- E afinal, porquê falar? Para quê falar, se falar vem do pensamento? Para quê gastar palavras na rouquidão das vozes, fartas de gritar pelo verdadeiro sentido de Ser, se com o pensar podemos falar, como tantas vezes o fazemos?... e a maioria das vezes nos negamos a fazê-lo!...
- Sinceramente fazem-me bem estes diálogos desordenadamente saídos no momento, comigo mesmo, contigo, com eles... e contigo... e contigo, também...Ei! tu, aí, sim, tu!! Contigo, também é contigo!!
- Adoro estes diálogos de desconexa harmonia... sem sentido (ou talvez não).
- Chamem-me Louco... mas deixem-me ser eu, para Ti... para Vós, e juntem-se nesta loucura de Pensar, por mim, por Ti, por todos Nós.
JVC