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260911_fascismo_nunca_maisPortugal - O Diário - [José Casanova] As operações de branqueamento do salazarismo e de falsificação do que foram os 48 anos de resistência popular e democrática contra o regime fascista prosseguem sob diversas formas e meios. Um deles é o da sua abordagem sob o ângulo da trivialidade da vida quotidiana do chefe do regime. Fontes? As mais fidedignas: as memórias e confidências dos próprios. É o fascismo revisto através do filtro dos próprios fascistas.


Já me tinham falado das conversas de Fernando Dacosta, estoriador especialista em «Estado Novo», na Antena 2. No domingo passado tive oportunidade de ouvir a coisa, nesse dia dedicada ao ano de 1962.

Os dois protagonistas – a coisa é feita a dois: o Dacosta e o responsável pela rubrica – travaram, durante 45 minutos, uma animada conversa.

Em regra levando a coisa para a brincadeira, contaram estórias do Salazar, cheias de piada e carregadas de interesse estórico, género: então ele chamou os ministros e disse-lhes...; ou: então ele chamou lá o fulano e perguntou-lhe... – e, em discurso directo, como se quem conta tivesse estado presente, é-nos dito o que o Salazar disse ou perguntou...

Tratava-se, então, do ano de 1962. É claro que deram alguns saltos atrás – o que lhes permitiu abordar temas como «Henrique Galvão e o Santa Maria» – e alguns saltos à frente – para falarem, por exemplo, da «criação da Rádio Voz da Liberdade, por Manuel Alegre e Piteira Santos»...

Sobre o ano de 1962, propriamente dito, fartaram-se de falar da guerra nas «províncias ultramarinas» e da sólida «unidade nacional» então existente em torno da guerra e pela «defesa da pátria» – «unidade» patente na criação do «movimento nacional feminino» e das «madrinhas de guerra» e na «proibição da prostituição»...

Ah!, e falaram, também, da «oposição ao Estado Novo», a qual se resumiu, nesse ano de 62, ao «fracassado ataque ao quartel de Beja»...

Naturalmente, não falaram, porque não estavam ali para isso, das lutas ocorridas nesse ano contra o regime fascista: as fortes lutas dos estudantes, logo no início de 62, e as lutas dos trabalhadores durante todo o ano, entre elas o poderoso 1.º de Maio – o maior e mais forte de sempre – e a histórica conquista das oito horas pelo proletariado agrícola do Sul.

E porque, repito, não estavam ali para isso, também não falaram da repressão fascista, muito menos dos assassinatos de Estêvão Giro, António Adângio e Francisco Madeira...

Faltou-lhes, enfim, falar do fascismo e da resistência ao fascismo – palavras que, no cumprimento da tarefa de branqueadores, tiveram o cirúrgico cuidado de evitar.

Porque eles estavam ali era para falar do «Estado Novo»...


Este artigo foi publicado no "Avante!" nº 1970, de 1.10.2011


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