Mas para quem vive em Albuquerque, no Novo México, existe uma terceira possibilidade: viajar. Cidadãos norte-americanos e imigrantes latinos de baixa renda que vivem a algumas horas de El Paso, no Texas, fronteira com o México, costumam fazer uma espécie de "turismo odontológico" quando precisam de algum tratamento dentário. A cidade fronteiriça de Juárez (pronuncia-se ruárez), do lado mexicano, oferece dezenas de consultórios com preços que chegam a ser um quinto dos praticados do outro lado da fronteira. Tratar uma cárie em Juárez custa de 10 a 15 dólares. Nos Estados Unidos, cerca de 100 a 200 dólares para quem não tem plano de saúde. Um tratamento de canal em Juárez sai por uma média de 50 dólares. Do outro lado da fronteira, de 500 a 1000 dólares.
"Muitas pessoas aproveitam seu período de férias e vão até El Paso, no Texas. Deixam o carro em algum estacionamento de lá e atravessam a fronteira a pé para fazer o tratamento. Ficam alguns dias hospedados no lado americano até terminar o tratamento e depois voltam", contou-me Henry, senhor polonês dono do hotel onde estou hospedada em Albuquerque.
Henry e sua esposa, Bo, são adeptos do turismo odontológico. "Dependendo de onde você se hospedar em El Paso, o próprio hotel oferece transporte para te levar até o dentista do lado mexicano para você não ter que andar muito por lá. É um pouco perigoso", comenta Bo. A cidade de Juárez fica no estado de Chihuahua, conhecido como um dos mais violentos do México.
Henry está há 32 anos nos Estados Unidos e até hoje não tem plano de saúde. "Minha sorte é que sou forte e quase não fico doente", diz o polonês, batendo três vezes na madeira do balcão da recepção do hotel. Ele lembra, contudo, da única vez que precisou passar por um hospital nos Estados Unidos e quase foi à falência por causa disso. "Sofri uma queda e quebrei a bacia e o braço esquerdo em três lugares. Precisei passar por uma cirurgia. Também tive que ficar internado porque não podia andar. A conta veio mais de 100 mil dólares. Eu precisei conversar no hospital e dizer que não podia pagar. Apresentei contra-cheques, imposto de renda, diversas provas de que eu não podia mesmo pagar", conta o imigrante, cuja conta hospitalar, no fim, caiu para 10 mil dólares. "Se você tem algum bem, algum investimento no banco, imóvel, carro, eles vão atrás disso tudo e você quebra na hora".
Um dia de México
Curiosa com a história do turismo odontológico contada por Henry, resolvi eu mesma atravessar a fronteira e ir atrás desses consultórios. Peguei um ônibus de Albuquerque até El Paso na terça-feira (23/10) às 4:30 da manhã. Cerca de seis horas depois, eu já estava cruzando a pé a ponte que liga El Paso, no Texas, à cidade de Juárez, no lado mexicano. Foram apenas três minutos de caminhada por uma ponte de concreto e ferro com cara de nova, policiais numa ponta e outra, mas nada da burocracia e filas comuns em fronteiras como aquela. Precisei apenas pagar 50 centavos de dólar a um funcionário mexicano numa cabine. Nem meu passaporte tive que mostrar. Isso na ida, claro, porque na volta, para entrar novamente nos Estados Unidos, foi preciso pegar fila no setor de imigração, passar por máquina de raio X e explicar ao oficial norte-americano o que você foi fazer em Juárez e por que está voltando para o lado americano.
Atravessando a ponte fronteiriça. Em três minutos de caminhada, vai-se dos Estados Unidos ao México
Ao dar o primeiro passo no solo de Juárez, já era possível ver os consultórios de dentista na principal avenida daquela área. Eram dezenas, ladeados por bares, casas de câmbio, casas de venda de ouro, ópticas e farmácias, muitas farmácias. Lembrei-em de Henry dizer que muita gente vinha dos Estados Unidos para cá em busca de remédios mais baratos também. "Antigamente essa avenida era cheia de bares e restaurantes. Depois, foram chegando os consultórios e as ópticas, com a vinda cada vez maior de gente atrás de tratamento barato", contou-me mais tarde um taxista nascido e criado na cidade. "Mesmo o material que os dentistas dos Estados Unidos usam são comprados aqui", completou.
Entrei em diversos consultórios, perguntei sobre preços e possibilidades de tratamentos. Não era preciso marcar hora, era só chegar e passar pela consulta. Apenas um consultório cobrava 15 dólares por uma avaliação; nos demais, ela era gratuita. Os preços não variavam muito, mas a "cara" dos consultórios, sim. Encontrei de lugares limpos e bem cuidados, com a recepção asseada e organizada, a consultórios que só a fachada já despertava dúvidas sobre a qualidade do serviço.
"Vem, vou te levar em um consultório que faz anúncio na TV. Muita gente vai lá. Eu nunca fui, mas acho que é bom. Eles até buscam as pessoas do outro lado da fronteira", disse-me Beti, residente de Juárez a quem pedi informação quando ainda cruzava a ponte fronteiriça. Beti acabou não encontrando o tal consultório com anúncio na TV, mas me deixou à porta de um que lhe pareceu razoável.
Um costume "odontológico" facilmente percebido nos moradores da cidade é a colocação de ouro e prata nos dentes, de modo que sejam visíveis. À saída de um café, cruzei com três mulheres e um homem, sendo que os quatro ostentavam um sorriso chamativo, em especial o homem, que tinha uma placa inteiriça de prata brilhante em todos os dentes superiores.
Juárez e as marcas do narcotráfico
A cidade de Juárez traz marcas profundas dos anos de violência vividos por conta do narcotrárico. "Os últimos quatro anos foram muito feios, muito perigosos por aqui", disse-me Dolores, dona de uma loja de souvenirs. Ela conta que os traficantes faziam o que queriam na cidade. Roubavam, matavam, sequestravam, extorquiam os residentes. "Espero que com esse novo presidente (Enrique Peña Nieto), as coisas melhorem, mas ainda vai levar muito tempo para recuperar a cidade".
Em diversas partes da cidade, residências e comércios encontram-se destruídos ou simplesmente fechados
Caminhando pelas ruas de Juárez, quase em cada esquina se vê uma casa depredada, comércios fechados, ruas inteiras abandonadas e diversos cartazes na parede estampando rostos de pessoas desaparecidas, a maioria jovens do sexo feminino – desde a década de 90 a cidade ficou conhecida por milhares de assassinatos brutais de mulheres cometidos ao longo dos anos. Além disso, há uma espécie de medo natural de circular em áreas pouco movimentadas e visivelmente esquecidas pelo poder público. Rondando as principais avenidas, caminhonetes da polícia levam de dois a três policiais dentro e outros três em pé na parte aberta do veículo, todos vestindo roupas negras, balaclava e apontando suas metralhadoras em diferentes sentidos. "Isso não é nada. Houve um tempo em que havia homens do exército em cada esquina", ressaltou Dolores.
Quando lhe disse o que estava fazendo em Juárez, ela comentou que a filha é dentista e trabalha em um hospital público da cidade. "De fato, os tratamentos aqui são muito mais baratos do que nos Estados Unidos e são oferecidos em hospital público também".
Com ou sem qualidade, os consultórios de dentista do lado mexicano da fronteira suprem uma carência fundamental dos residentes de baixa renda dos Estados Unidos, privados dos cuidados de saúde mais básicos. Em post já publicado neste blog, explico os pontos críticos mais importantes do sistema de saúde norte-americano, que não possui hospitais públicos e deixa a cargo de empresas privadas a administração de planos de saúde – alguns desses planos são subsidiados pelos governos federal e estadual.
Para ser elegível a um plano gratuito, o residente precisa preencher diversos requisitos, o que, segundo as regras atuais, acaba deixando muita gente sem cobertura. Aqueles que podem pagar por um plano privado não estão muito mais confortáveis do que aqueles que não podem. Além de desembolsar um alto valor pelo benefício, o segurado, muitas vezes, fica à mercê de regras absurdas das empresas, como a não cobertura de doenças pré-existentes ou mesmo o desligamento automático do plano, feito pela seguradora, ao se descobrir alguma doença.
Com a reforma no sistema de saúde proposta pelo presidente Barack Obama em 2009, transformada em lei em 2010 e ainda em implantação (conhecida popularmente como Obamacare), a cobertura para pessoas sem plano foi ampliada e a regulamentação das administradoras de planos privados passou a ser maior e mais eficaz. O republicano Mitt Romney já prometeu, em diversas ocasiões, revogar a reforma feita por Obama caso seja eleito. Reforma, aliás, que foi inspirada em um plano bem sucedido e implementado pelo próprio Romney em Massachusets quando ele governou o estado, entre 2003 e 2007.
Até que o panorama político dos Estados Unidos se defina com o resultado das eleições, aberrações como o turismo odontológico continuarão sendo uma via necessária aos que não podem pagar para serem tratados em seu próprio país. Aberração porque, assim como é desproporcional quebrar financeiramente por precisar cuidar da saúde, também o é caminhar até o país vizinho para tratar uma cárie.


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