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marx-cardAlemanha - Diário Liberdade - [Renato Pompeu] Karl Marx, quem diria, virou este ano efígie do cartão de crédito MasterCard, na Alemanha.


A iniciativa foi do banco Sparkasse Chemnitz, da cidade alemã de Chemnitz, e foi resultado de uma pesquisa entre os seus clientes. Com isso Marx veio a ser o segundo líder comunista a se tornar foco de propaganda de empresas capitalistas, mas ainda perde de longe para o primeiro, Che Guevara, muito aproveitado, em todo o mundo, para ornar camisetas.

No caso de Marx, porém, não se trata de uma jogada de marketing, e sim de uma medida de relações públicas. Para entender a transformação desse teórico e ativista anticapitalista em atração consumista, é preciso conhecer tanto a natureza especial do Sparkasse Chemnitz e também a história da cidade de Chemnitz, de 255 mil habitantes, no centro-leste da Alemanha, na antiga Alemanha Oriental. A cidade já existia no século 12 e era um centro da produção de sal. No começo da Revolução Industrial, nela foi instalado o primeiro tear mecânico da Alemanha e, durante o século 19 e parte do século 20, era um centro têxtil. Ali se instalou a fábrica de automóveis Auto Union e, durante a Segunda Guerra Mundial, era um ativo centro de produção de armamentos e tinha uma grande refinaria de petróleo. Por isso mesmo foi arrasada pelos bombardeios dos Aliados. Finda a guerra, com Chemnitz e todo o Leste alemão ocupados pela União Soviética, os executivos da Auto Union migraram para o Ocidente, onde fundaram a Audi. Inserida na Alemanha Oriental, Chemnitz se tornou um centro de engenharia mecânica e metalurgia, mas as autoridades comunistas mudaram o seu nome em 1953 para Karl Marx-Stadt (Cidade Karl Marx) e instalaram um busto de Marx de sete metros de altura numa praça principal. Tratou-se de atos que pouco tiveram a ver com os anseios da população, pois Marx jamais sequer esteve em Chemnitz e os habitantes não gostaram da mudança, embora muitos gostem do busto do líder comunista. O monumento é conhecido como Nischel (“cabeça”, no dialeto saxão local). Com numerosos projetos de conjuntos habitacionais e um cuidado especial para a reconstrução pós-guerra (cuidado que não houve em outros centros importantes, como a própria Berlim Oriental), as autoridades comunistas procuravam apresentar a cidade como uma “cidade socialista modelo”. Desde a reunificação até agora, a cidade retomou seu nome original, mas também perdeu cerca de 20 por cento de seus habitantes.

Cumpre lembrar que, segundo pesquisas realizadas após a eclosão da crise mundial em 2008, por volta de 40 por cento dos moradores na antiga Alemanha Oriental consideram o socialismo, tal como o conheceram, melhor do que o capitalismo. Mas, acima de tudo, é importante levar em conta as características do Sparkasse Chemnitz. Na Alemanha, além dos grandes bancos privados semelhantes aos que temos no Brasil, há também importantes cooperativas de crédito e ainda bancos públicos, como o Banco Central federal e os mais de 400 bancos municipais de nome Sparkasse, dos quais o mais antigo é o de Hamburgo, de 1778, e grande parte data do século 19. Sparkasse pode ser traduzido por Caixa de Poupança, mas são bancos de âmbito municipal ou regional, que além de servirem pequenos poupadores atendem também micro e pequenas empresas necessitadas de financiamento ou capital de giro. Esses bancos, muitas vezes, não têm finalidades de lucros e procuram fomentar as atividades tradicionais da cidade.

Agora, no começo do ano, o que aconteceu é que o Sparkasse Chemnitz fez uma pesquisa entre seus clientes sobre qual era o marco urbano mais importante na opinião de cada um deles, para ornar o seu cartão MasterCard. Enfrentando nove outras instalações, como castelos medievais, um hipódromo, etc., o busto de Marx, com 35 por cento dos votos, foi o vencedor. Assim se explica que sua efígie barbuda enfeite agora o MasterCard.

Artigo publicado originalmente no blog pessoal de Renato Pompeu.


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