Nesta semana foi fundado um novo partido, (People s Livehood First – A Vida Do Povo Em Primeiro Lugar), produto de uma cisão no partido do governo do atual primeiro-ministro Yasuhiko Noda, o PDJ- Partido Democrático do Japão.
O novo partido é liderado por Ichiro Ozawa, que arrastou na divisão 48 parlamentares. Ozawa, para quem não o conhece, é considerado o que há de pior na política japonesa. Encarna na sua pessoa o velho estilo das raposas que operam nos bastidores e é-lhe atribuído o apelido de "shogum das sombras". Mas, mais do que isso, o povo japonês tem, em Ozawa, o exemplo do político corrupto, aquele que é capaz de fazer de tudo para defender os seus próprios interesses.
Ozawa foi cacique do PLD- Partido Liberal Democrático, o principal partido do imperialismo japonês. Ciente do desgaste popular do PLD, responsabilizado perante a população por ser o principal responsável pela crise económica e política que já ultrapassa duas décadas, ingressou no PDJ – Partido Democrático do Japão, em 2003. Foi presidente do PDJ de 2006 até maio de 2009, depois secretário-geral, quando renunciou, em 2010, pelo seu envolvimento num escândalo financeiro pelo qual, até hoje, os promotores tentam incriminá-lo. Nesse escândalo, dois dos seus principais secretários foram presos e condenados, mas Ozawa, até agora, tem conseguido escapar por falta de provas materiais para incriminá-lo. Continua livre, mas com dois secretários condenados, ninguém tem dúvidas de que ele é o responsável pelo escândalo financeiro do qual é acusado.
Ao dividir o partido do governo, Ozawa alegou estar contra o aumento do IVA, dos atuais 5% para 10%, acordado entre o gabinete Noda e o Partido Liberal Democrático, e também disse defender a extinção da energia nuclear, que é um dos principais anseios da população japonesa na atualidade. Todos sabemos que, desde o nome escolhido para o novo partido, e também a questão nuclear e do IVA, tudo não passa de demagogia, de uma política apenas dita da boca para fora, que jamais irá pôr em prática.
O significado da crise
O atual gabinete Noda, do Partido Democrático do Japão, já afundava sem a atual cisão. Noda, desde que subiu à chefia do governo, não conseguiu fazer nada, absolutamente nada, que possa dar aos japoneses um mínimo de esperança de dias melhores. E, recentemente, declarou estar disposto a comprar as ilhas Senkaku, o que enfureceu a China, que as chama de Diaoyu, numa disputa em que é difícil entender quem tem a razão. As ilhas Senkaku|Diaoyu além de formigas, são um dos poucos locais onde uma rara espécie de ave, o albatroz de rabo curto (Phoebastria albatrus), procria. Certamente a disputa das ilhas não se deve às formigas ou a considerações ecológicas quanto à vida desse simpático albatroz. O domínio das ilhas tem como consequência a ampliação da costa marítima e o controlo de uma região considerada rica em pesca e também em jazidas de gás. A declaração de Noda criou um estremecimento concreto nas relações Tóquio-Pequim e, dado o entrelaçamento dessas duas grandes economias, não podemos dizer quais serão as consequências futuras.
De imediato, a cisão do partido do governo significa que o gabinete Noda, em frangalhos, tem os dias contados. E o curto reinado do PDJ, iniciado com a ascensão do gabinete Hatoyama em 2009, continuada pelo desastrado Naoto Kan, será agora terminado com a queda próxima do gabinete Noda.
O conservador eleitorado japonês carecia de opções e a divisão do PDJ tampouco oferece algo de novo.
O partido de Ozawa pretende tirar a sua força de ser o fiel da balança, entre o PLD e o PDJ, já que a sua bancada é minoritária. Se, em vez de 48 parlamentares, o grupo fosso formado por 40, poderíamos, sem constrangimentos, chamar o recém-fundado partido de Ali Babá e os 40 ladrões. Ainda que isso possa soar como brincadeira, não o é. No atual cenário político, cabe lembrar que o Japão continua a ser a segunda potência imperialista do planeta. O surgimento de um bloco político burguês, cujo único motivo de existência é defender os seus interesses imediatos, sejam eles quais forem, apenas expressa a profunda crise vivida pelo setor nipónico do imperialismo mundial.
Significa, em curtas palavras, que a crise política japonesa, longe de apontar para uma solução, apenas se aprofundou. Verificando as atuais lideranças japonesas, onde o que se destaca não é nenhum político em particular, mas a mediocridade, sabemos que o que se vislumbra é mais crise. E essa situação vai prolongar-se por mais alguns anos, não sabemos quantos.
Cabe acrescentar também que outras potências imperialistas sofrem do mesmo dilema. Nos EUA, a escolha é entre Obama, que confessou estes dias carecer de liderança no seu primeiro mandato, e Romney. Ou seja, como disse alguém, a escolha é entre o cancro e a sida. No imperialismo alemão temos a senhora Merkel. Pode haver algo pior? O pior é que sim... E, na França, depois de Sarkozy, a incompetência socialista de Hollande.
Tomi Mori é correspondente internacional do Esquerda.net no Japão.
