A visão das imagens de torturados é uma perceção inquietante. As estadias do museu acolhem aos visitantes que, buliçosos, divertidos, amáveis, comentam as formas caraterísticas das personagens de Botero. Os mais atrevidos achegam-se aos quadros, percebem os detalhes e inclusive reparam em algum fragmento da cena pictórica.
A sala que abriga às pinturas nas que se reúnem as torturas de Abu Ghraib, no entanto, permanece em silêncio. Desconforto. Passagem rápida. E, sobretudo, distância. Ninguém se achega a menos de cinco metros dos quadros, como se o sangue do prisioneiro torturado estivesse ainda morna. A dor do torturado assusta.
Abandonei o museu e saí ao parque de Doña Casilda, em uma manhã otoñal que anunciava bonança, com uma sensação estranha. Um déjà vu, esse estremecimiento de ter visto previamente as cenas da exposição que mais me tinham impactado, não pelas particularidades do autor, senão pela proximidade. E, no entanto, nunca antes tinha estado perto de Botero. Era a estreia.
Os quadros de iraquianos torturados no Museu de Belas Artes não poderiam ser expostos se o apelido dos manchados tivesse uma candência habitual no listín telefónico de Barakaldo, de Donostia, de Iruñea [NdT: Cidades do País Basco]. Não atinjo a imaginar uma exposição em um dos locais emblemáticos do nosso país sobre a tortura, embora fizesse parte de uma mais generalista. Botero pode retratar a tortura dos iraquianos mas ninguém poderia refletir a dos prisioneiros bascos. À margem das questões artísticas.
Faz poucas semanas o Festival Internacional de Cinema de Donostia denegou sala e formulário oficial a vários filmes produzidos precisamente no País Basco. Não havia exposição de torturas de por médio, nem apologia da libertação. Algum dos filmes rejeitados tratava levemente a violação de Direitos Humanos. Os patrocinadores do Festival, através da direção do mesmo, vetaram os relatos. Por razões superficiais, para nada convincentes.
Nesse mesmo festival assisti a projeções nas que senti vergonha alheia. Subproductos militares, ultradireitistas, partidários... Mais de uma vez abandonei a sala de projeção com o pulso acelerado. Não fui o único. Pagar e sentir-se enganado por um título ou uma sinopse malintencionada dói. Não é agradável.
O de Botero e o Festival não são hipérboles, simplesmente exemplos de que as coisas as tomamos com naturalidade quando em realidade não são. Ameacem com uma exposição sobre a tortura no Guggenheim de Bilbau e terão a ocasião de sair escaldados. Seguramente sofrerão o acosso do delegado do Governo e de organizações para-policiais. O do Festival de Cinema de Donostia é mais do mesmo. Sabemos o que há por trás mas só cabe o oficial, embora seja fajuto.
Houve, no entanto, outra exposição em Bilbau, na Alhóndiga, intitulada «Humor gráfico contra ETA», gratuita aliás, na que se podiam observar, na linha do festival donostiarra, descrições racistas de meios fascistas, com a desculpa da «luta contra o terrorismo». Politicamente correta, pelo jeito, inclusive para os que a subvencionaram.
Vêm à tona estas reflexões para encher o título do presente artigo. Somos, sem dúvida, a sociedade mais informada na extensa história da humanidade, mas continuamos assistindo um controlo férreo da informação, uma estratégia que parodiando aquela mudança e negócio com os aparelhos de televisão, chamaria de «black-out informativo».
Todos nós seríamos capazes de fazer uma listagem inacabável sobre temas que conformariam a sua idoneidade para estar presentes na bolsa desse «black-out informativo». Temas que, acontecer o que acontecer, não se podem pôr na capa. Televisões, meios escritos, porta-vozes políticos, sindicais ou culturais, nunca farão referência aos temas tabu, aqueles que põem em suspeita o conceito mesmo de democracia e participação.
Sabemos que o rei Bourbon é um clown e a monarquia um anacronismo. Faz poucos dias, foram dirigidas a ele duas denúncias para pesquisar a paternidade de um filho supostamente sem reconhecer. Mutismo nas bancadas. O monarca espanhol é intocável, avaliza-o inclusive a Constituição carpetovetónica. Sabe-se das suas aventuras e falcatruas, mas o silêncio impera. É um dos pilares do conto hispano, forjado desde Tubal e Tarsis, os netos de Noé que povoaram Espanha, até o suposto puxão de orelhas de Rajói a Merkel, passando por Dom Pelayo e El Cid.
O paradigma desse black-out informativo vivemo-lo nesses dias com a tragédia do mar de Alborán. O número de vítimas mortais está entre os 23 e os 54 mortos (os desaparecidos parece que não contam nas estatísticas até passados alguns anos). O grupo Vocento faz tempo que cunhou um manchete para eles, «ilegais», como se a vida estivesse assentada unicamente em uma lei digitalizada.
O espetáculo quotidiano elude a injustiça, a desigualdade, a tremenda inmoralidade que oferecem os canais propagandísticos dessas máquinas desenhadas exclusivamente para fazer dinheiro. Se os afogados que fugiam da fome, alentados pelos anúncios televisivos de um mundo irreal, nascessem em Madrid, Barcelona ou Gasteiz, a abrangência seria excecional. Saberíamos dos seus avôs, dos seus gostos culinários, dos seus desportos favoritos.
Mas não. Estamos no show de Truman. Um reality gigantesco.
Vivemos em uma sociedade fictícia, uma grande mentira criada para o consumismo, para o goze de uns quantos, extremamente desigual, corrupta, vertical, despótica, em mãos de especuladores financeiros que se apoiam em conceitos medievais de posse de territórios e súbditos. A realidade é o desalojo hipotecário e não a campanha pela sustentabilidade que está a realizar o mesmo banco que expulsa aos que não chegam a pagar os interesses da hipoteca.
O black-out informativo sobre dezenas de temas é, precisamente, o que permite que as injustiças se perpetuem. Não só sobre a tortura, os maus tratos, a violação dos direitos humanos, mas também sobre o contrário, isto é sobre a elevação aos altares a protagonistas que dever-se-iam encontrar na cadeia. Se o mundo fosse só um pouquinho mais justo. Porém, esses delinquentes oficiosos são capa do coração, de revistas financeiras e de telejornais.
É verdade que sou suspicaz. Incrédulo após anos de escutar um mesmo discurso com cores diversas. O black-out informativo é despiadado. Gigantesco. Dizem que a humanidade se enfrenta a um novo ciclo. Acreditarei na mudança, na ditosa lâmpada de Einstein, quando o Museu de Belas Artes de Bilbau atender uma exposição sobre a tortura, na que os quadros refletam os tratos em calabouços próximos, não em masmorras a milhares de quilómetros.
Acreditarei na ligereza da luz quando ligue a televisão e reconheça o irmão de um dos afogados em Alborán explicando as razões da sua angústia, a injustiça de um sistema que premeia os ricos e pune os pobres. Quando a palavra «ilegal» deixe de ser antónimo de «justo».
Admitirei a velocidade dos neutrinos quando toda essa plêiade de atores da vida nos permitam conhecer, em igualdade de oportunidades, as verdades que movem o mundo. As de carne e osso, não as de neônio. Intuo-as, é verdade, mas quero ouví-las com sinceridade para poder dizer que o black-out informativo passou à história. Essa data será um grande dia.
Foto: PRES.O.S - Resultado das torturas praticadas no País Basco a Unai Romano.
