Em um julgamento que começou no dia 30 de julho e durou até o dia 17 de agosto três integrantes da banda punk Pussy Riot foram condenadas a dois anos de prisão, acusadas de vandalismo por ódio religiosos, após um protesto dentro da catedral Ortodoxa em Moscou.
O protesto aconteceu em fevereiro. Elas foram presas em março dias antes da reeleição de Vladimir Putin para seu terceiro mandato como presidente. Elas estão presas desde então.
Todas as inciativas da defesa, habeas corpus, pagamento de fiança etc. foram negados pela justiça. Entre as acusações estavam ainda perturbação da ordem e até mesmo blasfêmia.
A promotoria pediu pena de três anos de prisão para as integrantes da banda por considerá-las uma "ameaça para a sociedade pela possibilidade de realizarem outros protestos no país".
Os argumentos foram todos no sentido de tirar o caráter político do protesto. Tanto que as acusações giraram em torno do "desrespeito" à religião. Segundo o promotor Alexei Nikiforov, "usar palavrões numa igreja é um abuso contra Deus" e por isso ele declarou: "Elas tem de ser isoladas da sociedade".
Essa era a posição geral da promotoria. Yelena Pavlova disse que "o feminismo é um pecado mortal" e com base nesse "pecado", elas deviam ser condenadas.
Processo arbitrário
A defesa das jovens Maria Alyokhina, Nadezhda Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich afirma que todas as testemunhas de acusação foram autorizadas pela juíza Marina Syrova, enquanto apenas 3 das 13 testemunhas apresentadas pela defesa puderam ser interrogadas no julgamento.
A defesa também destacou que Syrova "permitiu uma série de perguntas da acusação às testemunhas, mas vetou que a defesa realizasse as mesmas questões".
"Mesmo nos tempos de Stalin, os julgamentos eram mais honestos do que esse", afirmou Nikolai Polozov um dos advogados das jovens no tribunal. Polozov faz referência aos processos farsa da burocracia soviética que a partir da década de 30 condenou milhares de pessoas por crimes que nunca existiram.
"Como na maioria dos casos politicamente motivados, este tribunal não está em conformidade com a lei, senso comum ou misericórdia", disse uma conhecida advogada humanos do País, Lyudmila Alexeyeva.
Por isso a condenação das jovens era já esperada. "Este é um caso político ... e este é outro sinal de que eles serão condenados à prisão", declarou outro advogado de defesa, Mark Feigin, dias antes de ser encerrado o julgamento.
"Virgem Maria, expulse Putin"
É mais do que evidente que o ato das jovens russas não incitavam o "ódio religioso" como tenta fazer crer a acusação. Ao contrário. Elas quase praticamente chamaram os crentes e a Igreja Ortodoxa a realizar a vontade do povo e retirar seu apoio à Putin.
A manifestação é claramente politica. A versão de que seria um ataque à Igreja ou à religião majoritária na Rússia é uma tentativa de tirar o caráter político do protesto dando uma fachada moralista para o debate.
O grupo foi formado por jovens feministas em setembro de 2011 quando Putin anunciou que se lançaria novamente candidato. Desde então as garotas realizaram protestos em diferentes locais, geralmente lugares públicos, como princípio de suas apresentações serem sempre em caráter de protesto.
Umas das mais marcantes, segundo elas mesmas, foi quando tocaram num telhado em frente ao Centro de Detenção de Moscou, prisão onde estavam manifestantes que fazem oposição ao governo e participaram de um protesto no dia 5 de dezembro.
Ao ocuparem a maior catedral ortodoxa da capital russa não pretendiam atacar a Igreja. Mas realizar mais um protesto político. Como elas declararam o protesto era "contra os laços estreitos de Putin com a Igreja Ortodoxa". Por isso dentro da catedral elas cantaram: "Santa Maria, livre-nos de Putin".
Aumento da influência da Igreja
A condenação das jovens utilizando argumentos religiosos não é a única medida que mostra o aumento da influência religiosa sobre o Estado na Rússia.
Recentemente o governo autorizou a volta do ensino religioso nas escolas do País. Isso mostra também que a punição pretende não apenas calar os opositores do governo, mas também os da Igreja.
Entre 2009 e 2012 a disciplina que pretende introduzir o ensino da "moral religiosa" era optativo. No próximo período escolar que começa em setembro o ensino religioso será obrigatório.
A Igreja ortodoxa é dominada por homens, ao ponto de nos altares das Igrejas não ser permitida a presença de mulheres. Em seu protesto em fevereiro, as Pussy Riot ocuparam o altar da Igreja com câmeras e guitarras para cantar sua "oração punk". A tradição masculina é tão dominante na religião que os seus líderes são denominados patriarcas.
Diante disso fica fácil entender porque o "feminismo é pecado mortal". Elas desafiaram não apenas a autoridade do Estado. Mas também da o regime patriarcal da Igreja.
Reações em todo o mundo
Contra a condenação as balaclavas coloridas (tipo de máscara usadas pelas jovens) se tornaram um símbolo. Em diversos países do mundo houve manifestações. Segundo o jornal local Russian Times, na manhã em que a sentença seria decretada "até estátuas apareceram cobertas com os tecidos" em Moscou.
A condenação expôs a perseguição política existente no País. E tradicionais críticos da Rússia de Putin, como o imperialismo norte-americano, aproveitaram a ocasião para criticar todo o processo judicial.
Os EUA, que ao lado do Reino Unido, neste momento tenta cassar o direito de asilo político para prender Julian Assange pediu que a Rússia reveja o julgamento. Putin poderia dizer o mesmo com Obama sobre o WikiLeaks.
A cada dia que passa o regime burguês perde cada vez mais sua fachada democrática para se revelar uma verdadeira ditadura.
Apenas essa semana casos exemplares de ditadura e repressão contra o povo demonstraram isso. Operários mineiros executados por fazerem greve na África do Sul; o direito de asilo político ameaçado pelo imperialismo que cercou a embaixada do Equador em Londres para impedir a saída de Julian Assange; e a condenação a dois anos de prisão das jovens feministas que ousaram protestar contra Putin, usando uma Igreja Ortodoxa, na Rússia.
Essa é a democracia burguesa. Independente do acordo ideológico, estratégico ou político com qualquer um desses setores é fundamental defender seu direito de expressão, organização e manifestação.
Em sua última declaração antes da sentença, Nadezhda Tolokonnikova entregou uma carta onde diz que, "Algo inacreditável está acontecendo na cena política da Rússia: uma pressão poderosa, insistente e exigente da sociedade frente às autoridades", disse.
"O sistema 'Putinista' está tendo dificuldade em nos controlar", completou. Isso está acontecendo não apenas na Rússia, mas em todo o mundo. O que explica o aumento da repressão contra toda a população a restrição de direitos democráticos contra todo povo.