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290412 mandelaÁfrica do Sul - Opera Mundi - Jovens nascidos depois do fim da segregação oficial reconhecem avanço, mas querem olhar para o futuro


Na madrugada de 27 de abril de 1994, era baixada a última bandeira símbolo do regime do Apartheid na África do Sul. Naquele dia seriam realizadas as primeiras eleições verdadeiramente democráticas no país, que levariam o líder Nelson Mandela à Presidência. O fim da política oficial de segregação racial representou para a maior parte da população a possibilidade de sonhar com um futuro melhor, algo impossível no passado de discriminação e intolerância.

Passados quase 20 anos, o país mudou muito. Ocorreram mudanças significativas em relação à participação da maioria negra (79% da população) na política, economia, sistema educacional, mercado de trabalho. Entretanto, há muito a ser feito e antigos problemas persistem.

Os jovens sulafricanos que não viveram intensamente o apartheid conhecem a história de opressão e reconhecem os avanços, mas acreditam que ainda é necessário fazer mais, principalmente, para solucionar os grandes problemas existentes, entre eles: a epidemia de AIDS, os altos índices de criminalidade, 50% da população vivendo na linha de pobreza, corrupção dos representantes do governo, difícil acesso ao mercado de trabalho e também educação.

"Não podemos negar que o fim do Apartheid foi um momento muito importante para o povo sul-africano - e, consequentemente, Nelson Mandela também. O paradigma de que negro não tinha capacidade para fazer nada foi quebrado. Porém, isso já passou. Somos um povo de luta e que ainda tem muita batalha pela frente", disse a Erryn Gracey, 19 anos, estudante de comunicação.

Hoje, a África do Sul é o primeiro no ranking mundial de HIV/AIDS e, em 2009, contabilizou 5,6 milhões de pessoas infectadas. Essa epidemia afeta diretamente a economia do país, com seus 48,8 milhões de habitantes, segundo o último Censo, divulgado em 2011.

Na opinião de Keaten Grossen, estudante de design, 20 anos, a luta não acabou. "Ainda lutamos pela liberdade e pelo direito aos estudos na África do Sul, pois ainda há muito que fazer para se ter igualdade entre as raças. As diferenças sociais estão por toda a parte no país. O acesso a educação não acontece para todos", comenta.

Divisão

O sul-africano ainda convive com um sentimento de segregação que está arraigado na sociedade e gera muitos contrastes. Não é proibido circular ou frequentar os estabelecimentos públicos, comerciais como acontecia durante o Apartheid, mas é notória a diferença de hábitos, comportamentos, atitudes entre negros, coloured (miscigenação de raças), brancos e indianos. Existem bairros, restaurantes, lojas com maior predominância negra, áreas com maior circulação de brancos. Não há conflito direto, entretanto, cada grupo frequenta os lugares que mais se assemelham com as suas preferências e cultura. Também não é comum ver o casamento entre diferentes grupos étnicos, nem vender propriedades para negros em áreas mais habitadas por brancos.

As áreas rurais destinadas aos negros durante o Apartheid permanecem até hoje habitadas por eles e algumas dessas regiões se tornaram grandes complexos de favelas, com muitos problemas sociais. Os brancos, por sua vez, continuam predominantemente na zona urbana ou em áreas rurais - muito férteis – e também são reconhecidos como grandes fazendeiros ou empresários. Além disso, as 11 línguas oficiais existentes no país formam uma espécie de barreira à comunicação e cultura.

"Eu era muito novo durante o Apartheid, mas quem sofreu muito foram meus pais e avós. Minha avó conta que nessa época tinha inclusive banheiros para brancos e negros, pois as raças não podiam frequentar os mesmos lugares. O fim do regime foi importante para mim, pois me ajudou a ter acesso aos estudos. Mas ainda existe muita diferença. Ainda é necessário que o povo entenda que não importa se você é branco, negro ou rosa", diz Beauloh Mgijine, 18 anos, que cursa políticas sociais.

Para a Nelly Ndlovu, 18 anos, estudante de biologia é necessário neste momento que se vire a página. "Hoje, precisamos mudar este discurso e parar de viver do que já aconteceu e pensar no que o país precisa. Para que a mudança seja completa na África como continente e não apenas como nação", opina. Quando questionada sobre o que é ser sul-africana, ela responde - "Nós somos a porta do continente africano, hoje somos um exemplo para todos os outros países que desejam a liberdade".

Gleyma Lima

Para uma geração anterior, por outro lado, a sensação é de ter visto o nascimento da liberdade do negro na África do Sul. "Hoje nossa gente está dentro dos hospitais como médicos e enfermeiros, e nas áreas de serviço, turismo. Temos aqui muitos advogados e engenheiros também. As classes mais baixas também estão conseguindo chegar ao mercado de trabalho, seja mulheres como domésticas e homens na construção civil. Não é mais necessário trazer gente de fora, podemos fazer o trabalho", disse Wendy Duma (foto ao lado), 35 anos, guia turística.

Mas mesmo para quem vivenciou o regime segregacionista, a transformação do país enfrenta muitos obstáculos, entre eles a corrupção dos dirigentes políticos. "Com a democratização, as leis aumentam o acesso ao emprego, educação, saúde, pois a maioria permaneceu marginalizada durante décadas. Mas, a corrupção dos líderes políticos me deixa preocupado, pois não são punidos e os grandes problemas continuam sem solução. Muitos brancos também criticam as ações do governo, mas por trás desse discurso permanece uma mentalidade racista e de supremacia ao afirmar que as leis só favorecem os negros ou coloured e os deixam em desvantagem", ressalta o professor Sean Stephen, 50 anos.

Já para quem lutou naquela época, os dias vividos hoje na África do Sul são de glórias e de um futuro promissor. Michael Ytando, 62 anos, ex-preso político, explica que apesar do país ainda precisar de muita coisa, a luta daquela época pode ser vista pela nação e que agora é a vez dos jovens continuarem agindo. "Os sete anos que fiquei preso valeram a pena, pois graças à nossa batalha hoje vejo resultado por meio de uma vida mais digna para a população sul-africana. Eu faria tudo novamente, mas agora essa é missão da nova geração", finaliza Ytando, que ficou preso entre 1984 e 1991.

Entenda o que foi o Apartheid

Apartheid é uma palavra africana que significa separação. Esse nome define uma forma particular de ideologia racial-social que vigorou na África do Sul durante o século XX. O apartheid foi um regime racial segregacionista e também de discriminação político-econômica que separava negros, coloured, indianos e brancos sul-africanos.

Entre 1940 e 1970, os movimentos de resistência contra o regime tomaram diferentes formas. Nos anos 40, permaneceu moderado, mas na década seguinte começaram as lutas e o Estado combateu os resistentes com muita opressão. Mesmo com a intolerância e imposição de mais leis, as manifestações populares ganharam força, incluindo os protestos em várias áreas e os boicotes nos ônibus.

Conheça algumas leis vigentes durante o período:

- Proibição do casamento entre brancos e negros. Os policiais eram autorizados a invadir casas durante a madrugada para verificar se a lei estava sendo respeitada.

- Proibição de adultério ou relações imorais entre brancos e negros.

- Criação de um registro nacional para definir o tipo de raça da população e determinar o que cada pessoa poderia fazer em detrimento da raça, seja limitar o acesso às escolas, universidades, hospitais, áreas para morar.

- Os negros precisavam sempre apresentar um documento de identificação nas ruas, esse "passaporte" incluía uma foto, detalhes de origem, emprego, pagamento de taxas e situação na polícia. Era proibida a circulação de negros nas ruas após as 18h.

- Nenhum negro morador das áreas rurais poderia mudar para a área urbana sem permissão das autoridades locais, inclusive a liberação para trabalhar deveria ser feita com 72 horas.

- Os fazendeiros fizeram com que a venda ou aluguel de terra para negros fosse proibida, com exceção das áreas de reserva. Isso limitou a ocupação dos negros em 80% da África do Sul.

- Segregação em todos os lugares públicos, inclusive prédios públicos e transporte para diminuir o contato entre brancos e outras raças. As placas indicavam "Apenas Europeus" e "Não-Europeus", as facilidades proporcionadas pelo governo não era igualitárias.


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