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1806010_thiefaÁfrica do Sul - CMIPortugal -  Na África do Sul, país onde está a decorrer o Mundial de futebol, o governo gastou quase 800 milhões de rands [mais de 85 milhões de euros] -757 milhões para o desenvolvimento das infra-estruturas e 30 milhões para estádios que nunca mais ficarão lotados - num país caracterizado por uma pobreza extrema e com um desemprego à volta de 40%.


Para agravar a situação, o Estado tem vindo a fazê-los pagar estes investimentos: através da implementação de medidas de austeridade drásticas para a recuperação dos milhões gastos nas infra-estruturas, a maioria dos quais são de interesse nulo para os africanos pobres [a esmagadora maioria do país].

Nos últimos cinco anos, os trabalhadores têm vindo a manifestar a sua indignação e decepção face à incapacidade do governo para corrigir as enormes desigualdades sociais, organizando, em todo o país, mais de 8000 manifestações para exigir serviços básicos [água, electricidade, saúde,...] e habitações dignas.

Com a preparação do Mundial, chegaram também os "esquemas" de renovação urbana, acompanhados pelos programas de gentrificação, com o governo a tentar, apressadamente, esconder debaixo do tapete a crua realidade deste país. Em Joanesburgo: as mais de 15 000 pessoas sem-abrigo e crianças de rua foram apanhadas e "despejadas" em "abrigos".

Em Cape Town o município expulsou milhares de pessoas das zonas pobres e das favelas no quadro do projeto "World Cup vanity". Também em Cape Town se tentou - em vão - expulsar de suas casas 10 mil moradores da favela Joe Slovo, a fim de os esconder dos olhos dos turistas que viajam ao longo da auto-estrada N2.

Noutros sítios, foram deportados para dar lugar aos estádios, estacionamentos para turistas, ou a estações. No Soweto as estradas foram tratadas mas as escolas continuam nas condições mais degradantes possíveis.

Uma campanha massiva foi feita no país: todas as sextas-feiras foram declaradas "dia do futebol", dia esse em que a "nação" é incentivada (e os alunos forçados) a vestir a t-shirt dos Bafana-Bafana [selecção nacional da África do Sul]. Por todo o lado a mascote Zakumi e os apelos ao patriotismo ...a tal ponto que até foi feito um apelo aos grevistas do Sindicato dos Transportes (SATAWU) para abandonarem as suas reindivicações "no interesse nacional".

Para além da repressão contra os sindicatos, os movimentos sociais têm vindo a sentir a mesma hostilidade do Estado traduzida oficialmente pela proibição geral de todos os protestos, desde Março e durante o período do Mundial, situação posta a nú por um inquérito aos municípios-sede do Mundial.

Esta nova forma de repressão entra claramente em contradição com o direito constitucional à liberdade de expressão e de reunião. No entanto, os movimentos sociais, em Joanesburgo, incluindo o Fórum Anti-Privatização e vários outros não desistiram, obtendo uma autorização para uma manifestação no dia da abertura da Mundial, embora a 3 km do estádio.

Não foi apenas o estado que realizou uma brutal repressão sobre os pobres mas também o império criminal legal a que Sepp Blatter e seus amigos chamaram FIFA (admiravelmente nomeado THIEFA [o clube dos ladrões, em inglês] pelo Fórum Social em Durban)..

A THIEFA prevê um lucro em 2010 de cerca de 1,5 milhões de euros e "arrecadou" já mais de 1 milhão, apenas com os direitos de transmissão televisiva.

Mas a ganância e a falta de escrúpulos da THIEFA foram tais que até excluíram as pessoas que vendem produtos não licenciados, bem como aquelas que tentem comprar em acampamentos em torno das estradas do aeroporto, das áreas controladas e vigiadas dos estádios e das zonas envolventes, incluindo estradas e pontes de acesso, zonas que lhes foram concedidas durante o Mundial isentas do imposto normal e outras leis do estado.

A THIEFA, como proprietária exclusiva da marca do Mundial de Futebol e dos seus produtos derivados, dispõe de uma equipa de centenas de advogados que percorre o país para rastrear qualquer venda não autorizada de tais produtos e para marketing da marca. Os produtos ilegais são apreendidos e os vendedores são presos, apesar da maioria, na África do Sul e sul do continente, comprar os seus produtos no sector do comércio informal.

Os jornalistas também foram efectivamente amordaçados visto a sua acreditação incluir a aprovação formal de uma cláusula que impede os media de criticar a THIEFA, comprometendo claramente a liberdade de imprensa.

Hoje, o futebol profissional e o Mundial dão lucros exorbitantes a uma pequena equipa da élite mundial (e da África do Sul) que cobra aos seus clientes-espectadores milhares de rands, libras, euros, para assistir a um jogo que, em muitos aspectos, mantém a sua beleza estética mas que perdeu a sua "alma popular" e que foi reduzido a uma mercadoria.

Na África do Sul da miséria, luta-se hoje, através da construção de acampamentos temporários, junto aos portões dos estádios e com ações de greve, autorizadas ou não, denunciando assim os jogos mundiais que se jogam em detrimento da vida daqueles sobre os quais se constroem os impérios.


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