Hoje (9.11.12) cumprem-se, segundo leio, 23 anos sobre o início do derrube do muro físico que separava a cidade de Berlim oriental, capital da República Democrática da Alemanha, da cidade de Berlim ocidental, um enclave militarmente ocupado pelas forças da NATO e com estatuto legal que muitos desconhecem, e que não fazia parte (formalmente) da República Federal da Alemanha, embora em vários sentidos estivesse nela integrada de facto.
A ideia de que o "Muro de Berlim" dividia as suas Alemanhas é falsa. Não dividia. O muro separava duas zonas de Berlim, cidade que se encontrava totalmente dentro de território da RDA, a centenas de quilómetros da fronteira entre as duas Alemanhas resultantes do processo pós-1945, e que por si só motivaria blogue dedicado.
O muro de Berlim não nasceu de geração espontânea. Tem uma história, contada pelo prisma "ocidental" na generalidade do casos. Seja como for importa trazer ao debate meia dúzia de factos históricos indesmentíveis, para além da clarificação anteriormente referida sobre a sua situação/localização física:
A RDA é fundada em 1949 após a criação da RFA. O muro surge apenas 13 anos depois, em 1962, num contexto histórico determinado, cuja compreensão é fundamental para que se possa compreender o porquê da sua edificação;
Essa conjuntura internacional é marcada fundamentalmente por três aspectos fundamentais:
A chamada doutrina Hallstein, surgida em meados da década de 50, e que determinava que a RFA não manteria relações diplomáticas com a RDA, cuja existência legal aliás não reconhecia;
A criação e actividade da NATO, que a partir de 1954 passa a incluir a RFA. É precisamente a inclusão da RFA na NATO que motiva a constituição - em 1955 - do muito diabolizado "Pacto de Varsóvia";
A chamada "guerra fria", que se desenvolve após o final da 2ª Grande Guerra, e que conhece inúmeros incidentes e conflitos violentos, nos quais as duas potências mais fortes do contexto histórico - os Estados Unidos da América e a União Soviética - se enfrentam de forma indirecta. A guerra da Coreia, no início dos anos 50, é um dos cenários menos conhecidos mas mais brutais do referido cenário. A chamada "crise dos mísseis", em Maio de 1962, é talvez o último episódio de confronto internacional antes da construção do muro.
A esta conjuntura internacional deve ser acrescentada a situação de tensão permanente entre as zonas de ocupação militar de Berlim, e que tiveram em 1961 o seu momento mais grave.
Para além do contexto de "guerra fria" que se encontra permanentemente em pano de fundo na vida dos berlinenses, e cuja responsabilidade não pode nem deve ser apenas atribuída à RDA, à URSS e/ou ao Pacto de Varsóvia, assiste-se durante a década de 50 e até 1962 a um conjunto de actividades provocatórias de grande perigo e impacto na vida da cidade e da própria RDA, a que também não é alheia a decisão da construção do muro. Um dos aspectos mais frequentemente referidos tem a ver com as actividades criminosas em torno da especulação da com a moeda da RDA e de utilização fraudulenta de senhas de racionamento (recorde-se que falamos do cenário pós-guerra, com as duas Alemanhas muito destruídas e ainda incapazes de dar resposta às necessidades e aspirações dos povos).
O muro surge assim como uma resposta da RDA aos perigos emergentes e resultantes de um quadro complexo de pequenos e grandes conflitos, que poderia ter resultado numa guerra de grande escala, muitíssimo mais violenta e grave do que as duas guerras mundiais anteriores. É conhecida a frase proferida por Kennedy, durante a sua visita a Berlim ocidental, no ano de 1963: "Ich bin ein Berliner". É menos conhecida uma outra consideração sua, sobre o muro, quando referiu que aquela solução poderia não ser a melhor, mas que teria evitado a guerra.
Após 1962 o muro passa a figurar como símbolo presente em toda a retórica e propaganda "ocidental" contra o socialismo e a União Soviética. Não discutirei, por hora, os argumentos ocidentais anti-muro. Mas não posso deixar de lamentar que por cada centena de fotografia ilustrativas da perspectiva "NATO" sobre o muro não haja sequer uma (uma, para amostra) das provocações e até das vítimas do outro lado do conflito.
Todos conhecemos a célebre fotografia da "fuga" de Conrad Schumann, o soldado que em momento nada espontâneo (embora essa questão, a da espontaneidade do gesto, seja na verdade mais ou menos irrelevante) larga a sua arma e atravessa a fronteira entre as duas metades de Berlim. Schumann figura como um dos ícones ocidentais da "resistência ao muro".
O que poucos conhecem, em contraponto, é por exemplo (e trata-se mesmo de um exemplo entre muitos) a história de soldados norte-americanos que desertaram para o lado oriental de Berlim, como Victor Grossman. Ou a história dos polícias alemãs mortos junto ao muro com tiros provenientes do lado ocidental, como foi o caso de Reinhold Huhn, assassinado em Junho de 1962 por um provocador pago por A.C. Springer, conhecido magnata da imprensa de Berlim Ocidental.
Retomo, nesta fase, a frase com que inicie este post. "Tão certo como todos termos de morrer, um dia o muro teria de cair". O muro caiu porque estava corroído, por dentro e por fora. Porque a RDA, não obstante méritos imensos, e sublinho imensos, produzidos durante 40 anos de existência criou em si própria contradições que a mataram enquanto ideia de estado socialista e anti-fascista, dos trabalhadores e para os trabalhadores. E porque em seu torno se gerou uma guerra de agressão política, mediática, ideológica e propagandista à qual seria muitíssimo difícil resistir. Sobretudo a partir do momento em que um anti-comunista passou a presidir ao PCUS e à União Soviética: Mikhail Gorbachev.
Estou plenamente de acordo com o texto "Porque se desmoronou a RDA?", do historiador alemão Kurt Gossweiler, publicado no História do Socialismo, no passado dia 22 de Outubro. E acrescento, com a mesma sinceridade e abertura com que escrevi este post nada popular, que é fundamental os comunistas deixarem de adoptar uma postura somente defensiva e até esquecida face à história do muro, passando à ofensiva e ao debate aberto sobre o que foi, o que defendeu, porque surgiu, o que preveniu.
Não ignoro crimes cometidos no muro. Não ignoro o sofrimento de famílias divididas, de vidas limitadas. Mas também não aceito visões unilaterais da sua história. Nem do muro, nem da RDA.
Addenda
Notícias hoje divulgadas dão-nos conta de uma realidade perturbadora: "Quase duas mil pessoas morreram em 2011 durante a tentativa de emigrar para a Europa, das quais 1.500 no primeiro semestre (...)". São mais de 15 vezes o número de mortos oficialmente reconhecidos como resultantes da existência do chamado "muro de Berlim", durante os seus quase 30 anos de existência.
É curioso que a notícia surja no dia em que tantos celebram o desfecho natural para a involução verificada a leste nos anos de precederam o fim da RDA. É também curioso - e triste - que muitos dos que hoje levam na lapela o pedacinho de muro, como recordação dos acontecimentos de 1989, sejam os mesmos que erguem a voz pela defesa da Europa fortaleza, branca e limpa de "misturas rácicas".
Honecker, o último marxista-leninista a presidir a um país neste mundo, disse (e eu acompanho-o nessa ideia) que a reunificação alemã seria o início do IV Reich. Creio que a notícia que divulgo neste post é um elemento a considerar no momento de verificar (ou refutar) essa tese.