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060912 matancamigranteEstado espanhol - Kaos en la Red - [Tradução do Diário Liberdade] Passada segunda-feira, a polícia marroquina lançou um ataque desapiedado contra os migrantes africanos que esperam nas florestas colindantes à fronteira com Melilla para poder cruzar para a cidade espanhola. Há vários mortos e feridos de gravidade. A imprensa espanhola silencia a notícia.


Passada segunda-feira, a polícia marroquina atacou os acampamentos que os subsaarianos têm espalhados desde Segangan até Marihuari, semeando de sangue, terror e caos as florestas colindantes à fronteira com Melilla. Não é o primeiro nas últimas semanas, mas sim o mais sangrento. Segundo denunciam alguns dos sobreviventes, através do diário El Telegrama, são vários os mortos e feridos de gravidade em consequência da ação das forças repressoras ao serviço da ditadura marroquina.

Segundo conta o dito médio, domingo de tarde uma vintena de carrinhas blindadas das Forças de Segurança marroquinas apareciam apostadas em Farhana e os jeeps Hummer H1 do Exército alauita começavam a fazer rondas pela estrada que vai desde o Cabo Tres Horcas até o Gurugú. Depois do salto, que teve local meio às 05:00 da madrugada, Polícia e Exército marroquino passaram à ação. Segunda-feira, ao amanhecer, no cruzamento entre Beni Enzar e a estrada que vai para Farhana aparecia atirado no chão Abderrahaman, um jovem de 25 anos, natural de Mali, que se arrastava pelo chão com o corpo cheio de feridas e a cara cheia de sangue que brotava de sua cabeça. Não podia andar, romperam-lhe as pernas a golpes. Tinha uma torta de pão e um batido que lhe tinham dado uns jovens por caridade, mas assegurava que ninguém se acercava a lhe socorrer porque "têm medo de que lhes passe algo a eles também".

O jovem imigrante denunciava assim o ataque fascista dos corpos e forças de segurança da ditadura alauita. Segundo seu depoimento, havia vários mortos e um importante número de pessoas feridas de gravidade. "Mataram-nos a paus. Vieram durante a noite e de manhã e bateram-nos até partir-nos os ossos. Levaram a alguns a Oujda mas a outros nos deixaram morrendo nas florestas", conta aterrorizado.

Uma grande parte deles pertence ao grupo de mais de uma centena de subsaarianos que na madrugada da segunda-feira, tentou aceder a Melilla superando o duplo enreixado. Alguns deles coniguió atingir seu objetivo, mas a Guarda Civil espanhola os expulsou de novo a Marrocos, sabendo da situação à que se vêem expostos ali, isto é, aos arrojar em mãos das brutais surras às que são submetidos pela ditadura marroquina, em consequência das quais muitos deles acabam perdendo a vida ou sofrendo lesões cujas secuelas lhes durarão para toda a vida. "Como sempre a Guarda Civil nos expulsa mais uma vez a Marrocos. É muito frustrante, porque já está dentro. Chegas exausto, cheio de feridas e detêm-te e expulsam-te de novo a Marrocos para que aqui nos matem a paus", relata o migrante ferido através do mencionado El Telegrama.

Algum deles viram morrer a parceiros seus, outros viram como a Gendarmeria ou o Exército marroquino se levava a alguns deles e nunca voltavam vê-los: "Um compatriota chegou nadando por Aguadú. Apanhou-o a polícia marroquina, matou-o a paus e desfez-se do corpo. Eu vi, não é a primeira nem a única vez. Matam muitos dos nossos e não sei que fazem com os cadáveres", assinala um jovem senegalês. Uma brutal caçada que se desenvolve praticamente a diário, e desde faz muitos anos, nas portas mesmas do Estado espanhol, com a cumplicidade, e a responsabilidade direta, tanto da Guarda Civil espanhola, como do governo. "Em Marrocos não nos querem, mas em Espanha também não. Levo aqui mais de um ano, entrei já duas vezes a Melilla e me devolveram outra vez aqui onde só nos batem, nos maltratam. Aqui não existem os Direitos Humanos. E não podemos voltar a casa, é impossível voltar", assegura o mesmo jovem.

E é que são muitos os interesses que entram em jogo como para se andar com bobagens tipo "respeito aos direitos humanos" e outras "sandices legais assim" pelo estilo. O Magreb é a antessala da Europa para esses muitos milhões de africanos de todos os países que decidem empreender a viagem migratória para a sonhada terra da opulência ocidental. França, Espanha, Itália, Portugal, etc., são precisamente aqueles países que primeiro encontram estes homens e mulheres africanos em seu caminho para a Europa. Sabido é que os países europeus assinaram com estes países africanos uma série de acordos em matéria de controle dos fluxos migratórios pelos que diretamente se está comprando o controle migratório, descarregando ademais a responsabilidade para os países fronteiriços, bem como alguns dos países de trânsito nas habituais rotas da migração africana para a Europa. Isto é, os países europeus oferecem uma série de prebendas em forma de acordos comerciais ou de acordos para ajuda em cooperação ao desenvolvimento, e, em troca, descarregam a maior parte da responsabilidade no controle dos fluxos migratórios nos países do outro lado do Mediterrâneo, sem importar em absoluto o tipo de regime que exista nestes países ou as medidas e os métodos que estes países vão adotar para cumprir com sua parte do trato. Uns métodos que, claro, não são precisamente os mais respetuosos com os direitos humanos dos migrantes, mas ao contrário, como podemos comprovar pelo relatado nesta notícia de El Telegrama.

Não é apenas que países como Espanha olhem para outro lado, mas também, neste assunto em concreto, olham para outro lado em seu próprio benefício. Isto é, não são apenas cúmplices pasivos, senão cúmplices ativos: culpados e responsáveis. Como dizemos acima, o acontecido nestes dias nas redondezas de Melilla não é novo. Durante anos foram largamente criticadas as medidas que a gendarmería marroquina toma contra imigrantes irregulares que encontra tentando cruzar a fronteira com Espanha, aos que chegam a disparar ou abandonar no deserto, ou as instalações em Mauritânia do centro de internamiento para estrangeiros, criticado pelas condições que nele se dão e financiado pelo Governo Espanhol. Alguma ONG falam de um autêntico genocídio silenciado, com centenas de vítimas mortais a cada ano. Estas mortes de agora, em realidade, não são mais que umas entre as muitas que se cometem anualmente com a total cumplicidade do governo espanhol e, obviamente, dos meios burgueses espanhóis, que silenciam sistematicamente tudo o que tenha que ver com essa matança prolongada no tempo que se acontece ao outro lado da grade. Isso sim, a cada vez que podem, não duvidam em nos recordar o malévolo que era a existência do Muro de Berlim e as muitas vítimas que teve por tentar atravessar "a mãos dos comunistas".

A assinatura destes acordos migratórios, denominados como acordos de "segunda geração" (recolhido em Espanha através do chamado "Plano África"), responde à pressão exercida pela União Europeia e mais especialmente pela Espanha para o controle de fluxos migratórios. Segundo denunciava faz já anos Itziar Ruiz, expresidenta de Anistia Intencional em Espanha (AI),"pressionar para que seja Marrocos ou Mauritânia quem realizem o controle migratório está tendo custos humanos muito altos". Ainda, esses acordos também obrigam a países de passagem, como Mauritânia, a que aceitem imigrantes independentemente de sua nacionalidade. AI denúncia, por exemplo, que de 2006 até hoje milhares de pessoas acusadas de sair de Mauritânia para entrar em Canárias foram presas e devolvidas ao Mali ou Senegal, independentemente de sua origem, sem poderem apelar essa decisão. Muitas também têm estado encerradas no "Guantanamito" mauritano. Além do mais, essa externalización de fronteiras não está tendo acompanhamento do Governo espanhol. "Espanha e a UE delegam o controle de suas fronteiras externas a terceiros países, sem preocupar dos métodos empregados para levar a cabo suas ordens", assinala um relatório da Associação Pró Direitos Humanos de Andaluzia (APDHA).

Aliás, 6 de julho de 2006 o Governo espanhol, então liderado pelo "progressista" Zapatero, aprovou uma verba de 10,5 milhões de euros de ajuda a Marrocos para controle de fronteiras sem impor nenhuma condição relativa aos direitos humanos. Os fatos acaecidos na passada segunda-feira não são mais do que uma consequência dirtecta de todo isso. São os corpos repressivos da ditadura Marroquina os que surram e assassinam os migrantes subsaarianos nas fronteiras, sim, mas é o governo espanhol, e o papel desempenhado do outro lado da fronteira pelos corpos e forças de segurança espanhóis, quem o amparam, permitem e consentem, sem lhes importar o mais mínimo os acordos internacionais sobre Direitos Humanos ou qualquer outro tipo de consideração de caráter humanitário que possa ser dado, entre elas, por suposto, a defesa do valor da vida humana da que tanto ostentam como "valor de ocidente" sempre que podem, isso sim: só para quando interessa.

A vida, ao outro lado da fronteira de Melilla, nem para Marrocos, nem para o governo e a Guarda Civil espanhola, como pode ser comprovado, vale nada. A vida, claro, das vítimas eternas do capitalismo, desses migrantes empobrecidos pelo sistema reinante que se vêem obrigados a abandonar seus países de origem em busca de um futuro que ali se lhes nega sistematicamente. Porque se um só Guarda Civil morresse na fronteira em consequência de um ataque de um destes migrantes, o escândalo seria maiúsculo. Duvidam-no?

Menção aparte merecem, por suposto, os já mencionados meios de comunicação espanhóis. Eles também têm boa parte de responsabilidade em tudo isto, eles são também cúmplices desta matança que se desenvolve quase a diário a uns poucos quilômetros das fronteiras espanholas. Eles são quem silenciam sistematicamente todo o que tem que ver com esta tragédia diária que ocorre ao pé das fronteiras e que nunca é notícia, não seja que acorde algum sentimento de culpa e/ou empatia entre a população do outro lado da cerca da vergonha. Tão interessados em qualquer mínimo incidente que possa ser dado em Cuba, Venezuela ou qualquer outro país desses que não são do agrado dos poderes capitalistas internacionais, não têm olhos para ver e contar o que ocorre a bastantees menos quilômetros de suas redações. Os Direitos humanos, como tudo, também estão ao serviço de seus interesses políticos e econômicos. Quando o quebranto dos mesmos pode afetar a tais interesses, por bem perto das fronteiras espanholas que ocorra, melhor calar; a responsabilidade do Estado espanhol é evidente de mais. Esses são os meios capitalistas.

"Não somos delinquentes, só pobres. Aqui estão nos matando e não há organizações de direitos humanos que nos defendam. A gente em Espanha e na Europa tem que saber o que fazem conosco", conclui um dos migrantes entrevistados por El Telegrama. Mas já se encarregam os principais meios de comunicação de que isso não ocorra. Afortundamente sempre ficarão médios como El Telegrama, ou Kaosenlared, para tratar de que, ao menos, possa ser posto um pouco de luz ante tais fatos.

Foto: R-evolución


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