De acordo com o Istat (o Instituto Nacional de Estatísticas), a economia da Itália sofreu
contração de 0,8% no segundo trimestre deste ano ante o primeiro, e de - 2,6% na comparação anual. No primeiro trimestre, a contração anual tinha sido de -1,4%. A expectativa oficial para este ano é de queda de 2,4%.
A economia da Itália encontra-se estancada há mais de uma década, mas tem sido atingida com especial força nos últimos quatro anos. A queda do consumo é a pior desde a Segunda Guerra Mundial.
Com o objetivo de evitar a maior desagregação do regime político perante as eleições parlamentares que acontecerão no início do próximo ano, o primeiro ministro italiano, Mario Monti, anunciou, demagogicamente, a redução do imposto de renda para as pessoas com menores ingressos - “hoje podemos ver que a disciplina orçamentária paga e tem sentido”. O corte será de 1%, para 22%, para os trabalhadores com ingressos de até € 15 mil por ano, e para 26% para os que têm ingressos entre € 15 mil e € 28 mil. Segundo o Tesouro, a redução representaria um total de € 5 bilhões.
Mas, ao mesmo tempo, decretou o aumento de 1% no imposto sobre o consumo, o IVA, e uma série de cortes nos gastos públicos. O aumento dos impostos, somando € 10,3 bilhões, foi uma das primeiras medidas implementadas pelo governo “tecnocrata” quando assumiu em novembro do ano passado, imposto pelo imperialismo alemão devido à paralisia do governo de Berlusconi. O valor total do plano de austeridade aprovado na época pelo parlamento foi de € 30 bilhões. Os salários dos funcionários públicos entrarão, em 2013, congelados pelo terceiro ano consecutivo.
O crescente repúdio da população aos ataques contra os trabalhadores levou à burocracia da maior central sindical, a CGIL, a declarar que se o governo não melhorar os salários e não promover políticas contra o desemprego, será convocada uma nova greve geral.
O aumento do contágio da crise capitalista na Espanha
O aumento do contagio da crise capitalista na Espanha sobre a Itália se expressa de várias maneiras. Em primeiro lugar, pelos altos juros impostos pelos especuladores financeiros sobre os títulos da dívida pública. O nível de poupança italiano é maior, mas o nível do endividamento é também maior.
A dívida pública superou os € 2 trilhões, mais de 126% do PIB, e continua crescendo aceleradamente. Os juros sobre os títulos públicos, que hoje estão acima dos 5% ao ano, para os que têm vencimento a 10 anos, ameaçam implodir o orçamento público no cenário recessivo. A tomada de empréstimos dos bancos italianos do BCE está apenas atrás dos bancos espanhóis, mas se aproxima dos € 300 bilhões.
A economia italiana encontra-se numa enorme encruzilhada, mas da qual não há saída possível no contexto do capitalismo parasitário atual. A única “saída” é a monetização da dívida pública em escala ainda maior, o que teria como efeito o aumento do repasse do peso da crise para as massas trabalhadoras mantendo o lucro dos capitalistas. Como esta operação só pode ser feita pela autoridade monetária, o BCE, o imperialismo italiano tem visto o seu papel reduzido, cada vez mais, ficando a reboque do imperialismo alemão. Mesmo assim, esta operação na Espanha, que é o país onde se encontra em estágio mais avançado, com o objetivo de servir como modelo para as demais potências endividadas da região, está enfrentando enormes dificuldades para ser implementada devido ao ascenso da luta das massas trabalhadoras conforme tem ficado evidente nos últimos meses, coincidindo com o novo aprofundamento da crise capitalista mundial a partir do segundo trimestre deste ano.
Os efeitos da monetização da dívida pública em larga escala podem ser vistos nos EUA e no Japão, onde, as crescentes emissões de papel moeda podre não têm conseguido mais que alguns suspiros adicionais do semidefunto sistema capitalista às custas do pior endividamento da história, que está em crescimento exponencial apesar das taxas de juros estarem próximas a 0%.
A bancarrota da Espanha acionará o gatilho do colapso italiano. As terceira e quarta maiores potências da Europa são impossíveis de serem resgatadas. Os fundos de resgate, que hoje somam € 750 bilhões não conseguirão mesmo compensar o aquecimento do inevitável colapso que fará parecer a crise de 2008 um jogo de crianças.
A crise do regime político burguês
A crise do regime político burguês italiano ficou patente da deposição, que aconteceu na prática, de Berlusconi e a imposição do “tecnocrata” Mario Monti pelo imperialismo alemão pela absoluta impossibilidade de implementar as medidas de austeridade.
O novo governo já enfrentou uma greve geral, grandes greves locais e protestos, e uma derrota de lavada nas eleições municipais que aconteceram há cinco meses. Os partido tradicionais encontram-se tão desgastados e afundados em denúncias de corrupção que o grande vencedor foi um palhaço, Beppe Grillo, o líder do Movimento Cinco Estrelas. O PD (Partido Democrático), formado principalmente pelo antigo PCI, o partido eurocomunista, somente conseguiu bons resultados onde se apresentou com um discurso claro contra o governo e as políticas de austeridade.
O confronto ainda não tomou as proporções que hoje podem ser observadas na Espanha, Portugal e Grécia, mas caminha nessa direção, enquanto nesses países a radicalização das massas trabalhadoras cresceu a um novo patamar nas últimas semanas e continua avançando.